Os 90 anos do Mestre Geraldo Carvalho

| 5 Dezembro, 2020

Mestre Geraldo Carvalho | Foto: DMC/Sede Geral.

Mestre Geraldo Carvalho faria hoje 90 anos. Em sua homenagem, o Blog da UDV publica um texto de autoria de um dos seus filhos, Geylker de Carvalho*. Nele, Geylker nos apresenta um pouco mais deste senhor que deu sua parcela de contribuição para a chegada e o desenvolvimento da União do Vegetal em Manaus-AM, e em outros importantes momentos históricos da UDV.

Geraldo Florêncio de Carvalho nasceu em 5 de dezembro de 1930, em Quebrangulo, Estado de Alagoas. Filho de Manoel Florêncio de Carvalho e Cecília Nunes de Carvalho, viveu sua infância no Ceará. Dos 20 filhos que o casal teve, apenas seis sobreviveram (Mariquinha, Anita, Auristela, Geraldo, Florêncio e José). Após 1942, já com 12 anos, sua família muda-se para Cruzeiro do Sul, no Estado do Acre. Com terra fértil e família trabalhadora, viveram um período de fartura perante a vida escassa no Ceará.

Geraldo permaneceu em Cruzeiro do Sul até os 20 anos, trabalhando na lavoura. Após 1950, mudou-se para o Estado do Amazonas. Trabalhador desde menino, não tinha dificuldade para aprender uma nova profissão e empreender nela, atuando em diversas áreas, de escultor a empresário do ramo de beneficiamento de alumínio.

Foi nesse cenário de uma vida bem-sucedida nos negócios, com acesso a governadores e autoridades públicas, que Geraldo Carvalho foi um dia até a cidade de Porto Velho, então Território Federal do Guaporé. Lá morava seu irmão Florêncio Siqueira de Carvalho, o Mestre Florêncio (também conhecido naquela época como Cruzeiro).

Quando tio Florêncio soube de sua chegada, convidou-o insistentemente para conhecer o Vegetal. Geraldo, então, hospedou-se no melhor hotel da cidade, o Porto Velho Hotel. Vestiu-se de terno e gravata e, todo perfumado, foi para a Sessão da UDV. Mestre Florêncio o levou para a Sessão assim mesmo e não disse nada. Chegando lá, na presença de Mestre Gabriel, se encontrou com um outro ambiente: um ambiente simples, casa de palha e chão de terra batido – cenário bem diferente da vida que levava.

Quando chegou para receber o Chá Hoasca pelas mãos do Mestre Gabriel, este lhe deu meio copo de Vegetal. Desconhecendo a força do Chá, Geraldo pediu para encher o copo, tendo uma burracheira que não imaginara. Quando quis se levantar, pensando “eu vou embora daqui!”, não pôde, pois suas mãos estavam como que “grudadas à mesa”.

A música em Manaus

Pouco tempo depois, Mestre Florêncio e sua família chegam a Manaus. E Florêncio convence Geraldo a beber mais uma vez o Vegetal com ele. Na Sessão, Geraldo lembrou-se de uma experiência vivida por ele no hotel após a sua primeira Sessão em Porto Velho, e disse ao irmão: “Florêncio, lá no hotel em Porto Velho, uma moça tocava piano e com a música eu vi na burracheira umas coisas lindas, uma maravilha, vamos ouvir música aqui?”.

Florêncio aceitou a ideia e, então, na outra Sessão, utilizaram uma eletrola Belair emprestada, que pertencia a Ivonete Marques, sobrinha deles, e o disco “Sinfonia das Aves Brasileiras” (Johan Dalgas Frisch), do seu cunhado Vicente Marques. A primeira música que tocou em Manaus foi a faixa 1 do lado A, “Kaiservalzer” (Valsa do Imperador), e depois tocou o lado todo do disco na Sessão. Mestre Florêncio gostou muito.

Nos dias seguintes, Geraldo comprou uma eletrola e o disco, e M. Florêncio mandou para o Mestre Gabriel por intermédio do M. Bartolomeu, que foi até Manaus fazer um curso no Exército e estava voltando para Porto Velho. Ele também escreveu uma carta para o Mestre Gabriel dizendo que havia escutado música na Sessão e que teve muitas mirações, sentiu uma coisa muito superior, muito bonita. O Mestre, então, respondeu à carta dizendo que estava aprovada a música no Salão do Vegetal, que podia continuar, e que ele ia usar também.

Assim, aos poucos, Geraldo aceitou o Vegetal. Para que Mestre Florêncio viesse para Manaus dar o Vegetal para seus irmãos e parentes, a condição que o Mestre Gabriel deu foi que o Geraldo aceitasse o Vegetal.

Com o tempo, Geraldo Carvalho começa a conhecer melhor Mestre Gabriel, e percebe que o Mestre tinha uma grande consideração por ele. Esteve presente em todas as vezes que o Mestre Gabriel viajou até Manaus, sendo convocado ao Corpo do Conselho no dia 25 de março de 1971, em Sessão que contou com a presença de Mestre Gabriel.

Depois foi também a Porto Velho, convidado pelo Mestre Gabriel, para dirigir uma Sessão. Após esse acontecimento, Mestre Gabriel comenta com Mestre Florêncio, na frente de Geraldo, que já estava na hora de ele receber a Estrela de Mestre. Mas Geraldo não quis receber. Mestre Gabriel insiste, dizendo que “às vezes a gente acha que não está no lugar, mas está. Mesmo assim, Geraldo não quis aceitar, achando que não tinha condições de cumprir com os deveres de Mestre, com a vida social que levava.

Força de trabalho

Depois disso, Mestre Gabriel vai a Manaus com o despacho da documentação que veio de Brasília, para formar a 1ª Diretoria da UDV na capital do Amazonas. E indica Geraldo Carvalho para ser o 1° Presidente do Núcleo Caupuri. Mas este não aceita novamente sob a mesma alegação de quando recusou a indicação para o Quadro de Mestres. Tempos depois, passa a ser 2° Presidente do Núcleo Caupuri, já no Templo da Estrada dos Franceses, em meados dos anos 70. Entrou para o Quadro de Mestres em 1976. E desde lá honrou seu lugar com dignidade, sendo a mesma pessoa dentro e fora da UDV.

Foi um discípulo e um Mestre com grande força de trabalho no Núcleo: linha de frente das obras, linha de frente das pesquisas de Vegetal e linha de frente nos Preparos de Vegetal, os quais não eram nada fáceis naquela época. Os Preparos eram realizados em um local distante de Manaus, num lugar chamado Lago do Arara. Ele ia alguns dias antes para fazer toda a organização, e quando os irmãos chegavam, as coisas já estavam todas arrumadas para o Preparo.

Em 1984, Mestre Geraldo foi indicado por Mestre Florêncio para ser o Representante do 1° desmembramento do Núcleo Caupuri – o Núcleo Tiuaco, do qual foi Representante por alguns mandatos.

Apoio às autoridades

Em 1986, a União do Vegetal estava sendo estudada por um Grupo de Trabalho do governo federal, formado por pessoas do antigo CONFEN (Conselho Federal de Entorpecentes) e de outros órgãos federais, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Associação Médica Brasileira, a Divisão de Medicamentos, o Ministério da Previdência e Assistência Social e a Polícia Federal. O GT dava início aos trabalhos para a futura liberação do Chá Hoasca para uso religioso.

Foi determinado pelo GT que deveriam ser feitas visitas, pesquisas e estudos multidisciplinares nas instituições que faziam uso do Chá Hoasca para que o governo federal pudesse chegar a alguma conclusão, pois o Mariri (Banisteriopsis caapi) havia entrado, equivocadamente, sem qualquer estudo prévio, para a lista de substâncias proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Esse trabalho levou sete anos.

A 6ª visita do Grupo de Trabalho foi feita na UDV, no Núcleo Pupuramanta, no Rio de Janeiro, nos dias 12 e 13 de setembro de 1986, em um Preparo de Vegetal, para que algumas dessas autoridades bebessem o chá e conhecessem o nosso ritual. Nesse dia, estiveram presentes três representantes do CONFEN, encarregados do estudo a respeito da Ayahuasca.

O Mestre Representante do Núcleo Pupuramanta naquela época era o Mestre Paulo Tasso Monteiro Freire, o qual chamou o Mestre Geraldo Carvalho para ser o Mestre desse Preparo, com a anuência do então Mestre Geral Representante, Raimundo Monteiro de Souza.

O Preparo do Vegetal ocorreu com grande concentração no trabalho, mas também num clima de alegria e harmonia. Mestre Geraldo conduziu com grande êxito sua missão naquele fim de semana.

Posteriormente, em 2006, a pedido do Mestre Monteiro, Mestre Geraldo ocupou o lugar de Mestre Central da 14ª Região da UDV, ficando responsável pelos Núcleos do Amapá e do Pará.

Frutos do cativar

Mestre Geraldo era uma pessoa muito bondosa. Auxiliou muitos irmãos, dando-lhes emprego nas empresas que teve e levando muitos de seus funcionários para conhecer a UDV. Alguns permanecem até hoje e são até Mestres na UDV.

Um homem de muito valor, honrado, cumpridor de seus deveres perante o Mestre. Um homem forte de princípios, mas que também cativou muitos irmãos por onde passou com seu sorriso largo, com suas brincadeiras, sua arte, sua poesia, sua sabedoria e sua forma de doutrinar – sua marca maior, indicando a base como fundamento principal da evolução espiritual.

Existem ainda outras tantas contribuições ao Centro deste Carvalho de Cerne Forte, como escreveu Mestre Edson Lodi. Contudo, concluo minha homenagem ao meu pai e amigo, em nome de toda a nossa família, parafraseando a Palavra do Mestre, na gravação do Mensageiro da Paz: Ao Geraldo, meus sinceros agradecimentos.

*Geylker de Carvalho é membro do Corpo do Conselho do Núcleo Caupuri, Manaus-AM.

13 respostas
  1. LEONARDO WILSON SOUSA BEMERGUI
    LEONARDO WILSON SOUSA BEMERGUI says:

    Excelente texto, amigo Geylker!
    Tive a honra de conhecer e conviver alguns anos com nosso amigo “Geraldão”, figura ímpar, que sabia cativar os discípulos.
    Forte abraço a todos os familiares!

  2. Arminio Jr
    Arminio Jr says:

    Belíssima homenagem deste senhor que tive entre muitos a oportunidade de conhecer e conviver um pouco. Um jeito de homem forte, mas um coração bondoso e alegre.
    Boas lembranças e detalhes importantes trazidos nesse artigo.
    Gratidão ao Geylker e família.

    Como dizia o Geraldão: “Você é um cara interá-fantastico.”

  3. Cristina da Luz
    Cristina da Luz says:

    Resgate histórico importante realizado pelo Conselheiro Geylker, lembrando a pessoa de seu pai, Mestre Geraldo. A alegria e a bondade de Mestre Geraldo trazem para nós caianinhos um tanto da lembrança da convivência durante a fraterna construção dos inícios da nossa UDV!

  4. Nazareth Roriz
    Nazareth Roriz says:

    Quando cheguei na UDV, em 2006, M. Geraldo Carvalho fazia parte do Quadro de Mestres do N. Apuí. Pessoa alegre, disposto e sempre contribuía com palavras e/ou chamadas nas sessões. A chamada dos 14 anjos era uma das preferidas dele.
    Tenho boas lembranças dele.
    Quando ele não sabia o nome de uma mulher, ele a chamava de Jackeline, todos riam muito do seu senso de humor.

  5. Jairo Santos
    Jairo Santos says:

    Saudoso Amigo Mestre Geraldo,

    Tive a alegria de conviver com esse Amigo integro e de sorriso franco, durante o período que morou aqui na Bahia. Algumas tardes e noites de boas conversas registrei em vídeos no celular, nas quais trouxe relatos dos momentos que viveu ao lado de Mestre Gabriel, em Porto Velho e em Manaus. Imagino que agora esteja em algum lugar repleto de luz ao lado do Mestre, quem sabe preparando Mariri ou, talvez, colocando uma musica para encantar o Salão do Vegetal onde esteja. Saudade é, em nós, a eternidade dos que amamos.

  6. Nanete Pinho Rocha
    Nanete Pinho Rocha says:

    Que maravilha de poder ter acesso a estes importantes e históricos registros, para todos nós interessados no crescimento desta tão Sagrada UDV que vem aos poucos dominar o mundo pela Paz. Viva nosso Mestre Gabriel e Viva ao Mestre Geraldo Florêncio de Carvalho e a todos os mestres da recordação !!!

  7. Marcos Fabrício Ortiz de Lima.
    Marcos Fabrício Ortiz de Lima. says:

    Grata satisfação de coração mesmo!
    Meus sinceros agradecimentos ao senhor Geraldo Carvalho, por deixar um legado e história registrada no tempo, desenvolvendo e ensinando o valor do trabalho, família e religião. “O disco do pequeno príncipe que esse senhor enviou ao mestre Gabriel, nos proporcionou um tanto de ensinamentos que, até hoje, serve de grande valia” . Então, esse reconhecimento é bem importante e com isso facilita ao desenvolvimento do amor ao próximo, o respeito na ausência e presenca, a confraternização, a união das pessoas pelo vegetal. Portanto, aos frutos do cativar e força de trabalho deixa o exemplo de como podemos ser vitoriosos e bondosos. Desde já, sinceros agradecimentos a família e amigos deste caríssimo irmão em espírito e verdade. Atenciosamente, Marcos Fabrício. (Núcleo Mestre Pojó/Extrema/RO).

  8. Ângelo Reis
    Ângelo Reis says:

    Um amigo especial, pessoa que tinha o dom de cativar. Sua forte ligação com o Mestre Gabriel o fez permanecer sempre forte e criar suas raízes na União do Vegetal e auxiliar tantas pessoas. A história do pequeno príncipe é um dos grandes legados que ele teve a oportunidade de nos presentear, dentre tantas outras coisas boas destacadas e lembradas neste belo texto de seu filho C. Geylker Carvalho. Felicidades!!!

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