A UDV no Xingu, uma história que merece ser contada

Duarte Antônio Guerra*

| 25 Novembro, 2020

Crianças yudjás, 2019 | Foto: Davi Degraf.

Há nove anos, a história do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal passou a contar com mais um bonito capítulo, com a aproximação aos yudjá, etnia indígena que reside no Parque Indígena do Xingu. Este capítulo, porém, teve seu início mais remoto na década de 1960, quando metade do nosso Brasil ainda era uma imensa floresta intocada.

Naquela época, um senhor de nome Geraldo Carvalho (que mais à frente tornou-se Mestre na UDV), manifesta ao fundador da União do Vegetal, Mestre José Gabriel da Costa, seu desejo de dar o Chá Hoasca aos indígenas, com os quais havia convivido nos rincões da Amazônia. Sabedor das possíveis implicações de tal ação, Mestre Gabriel explica que isto até seria possível, desde que contassem com o apoio das autoridades.

Os ventos do destino sopraram e o tempo, artífice maior a moldar com eles a história, tocaram os corações e mentes das pessoas certas para dar consecução a esta palavra do Mestre, que já circulava por quatro décadas. Assim é que o dentista Eduardo Biral – que trabalhou com povos do Xingu por mais de 20 anos, residindo no interior do Parque indígena por 18 anos – chega à União do Vegetal no ano de 1998, convidado por sua irmã. Pouco tempo depois, Mestre Jair Gabriel da Costa (filho do Mestre Gabriel) toma conhecimento da chegada deste irmão e tem com ele uma conversa decisiva para que hoje esse trabalho esteja acontecendo.

Mestre Jair conversa com o recém-chegado Biral a respeito de seu trabalho, e após confirmar que este trabalhava com os índios no Xingu, perguntou-lhe se eles conheciam o Vegetal. Biral afirmou que trabalhava com eles há 20 anos e que eles ainda não conheciam o Vegetal. Mestre Jair então o aconselhou: “Chegue ao Quadro de Mestres que nós vamos fazer um trabalho”.

O tempo trabalhando, os ventos soprando, e Biral é convocado ao Quadro de Mestres da UDV em 22 de julho de 2006. Logo a seguir, ele dá cumprimento à palavra do Mestre Jair, que ocupando  o cargo de Mestre Central da 4ª Região (Bahia e Sergipe) à época, lhe aconselhou: “Leve o Vegetal que eles são da natureza e vão entrar nos encantos da Natureza Divina com muito mais facilidade do que nós.”

A chegada do Vegetal ao Xingu

Após distribuir o Vegetal para alguns amigos indígenas de diferentes etnias, Mestre Biral encontra um interesse especial em distribuir o Chá Hoasca mais vezes junto ao povo panará, que habita as florestas do Sul do Pará, e por lá são plantados alguns pés de Mariri.

Vale destacar aqui, dada a sua relevância, que o grande líder indígena Rop’ni (Cacique Raoni) bebeu o Vegetal pelas mãos de Mestre Biral, a quem considera um filho. O relato das coisas que Rop’ni viu na primeira vez que bebeu o Vegetal é de indescritível beleza e está guardado na memória e no coração de quem teve a oportunidade de ouvi-lo contar.

O tempo circular do Xingu se desdobra em entardeceres alaranjados e luares refletidos nas águas mansas do rio, enquanto Mestre Biral segue distribuindo o Vegetal todas as vezes que adentra o Parque Indígena para seu trabalho como dentista da FUNASA.

Sessão de Vegetal com os yudjás, 2019 | Foto: Davi Degraf

Expedições

Por esse trabalho e conhecimento das necessidades dos povos do Xingu, temperados com uma boa pitada de sensibilidade e amor no coração, Mestre Biral propõe ao Mestre Edison Saraiva, no ano de 2010, uma expedição com profissionais de saúde para atendimento no Xingu.

Dessa forma, com grande apoio do Mestre Ariovaldo Ribeiro, à época Diretor do Departamento Médico e Científico da UDV, é realizada a primeira expedição neste mesmo ano. Na ocasião, acompanharam o Mestre Biral, o médico e hoje Coordenador Regional do Departamento Médico e Científico da 1ª Região da Europa e Oceania, Renato Silveira, e também o Mestre Antônio Catuquina, acreano, que realizou pesquisa de Mariri nas florestas do sul do Pará, nas cercanias das aldeias Panará onde estiveram.

Um ano depois, em 2011, é organizada a segunda expedição, e é quando eu entro nesta história. Ao ver a chamada para a participação em uma ação voluntária no Xingu, logo me coloquei à disposição para essa iniciativa. Foi quando tive a oportunidade de conhecer o Xingu, suas areias brancas, águas mansas e os povos que ali vivem, e que permeavam meu imaginário desde tenra idade.

Durante esta atividade, que tinha como objetivo principal o atendimento na área de saúde, alguns indígenas da etnia yudjá nos procuraram para saber se tínhamos conosco o que denominavam “remédio do Biral”, fazendo alusão ao Vegetal. Eles haviam ouvido de integrantes de outras etnias que comungaram o Chá Hoasca pelas mãos do mesmo. Ao respondermos afirmativamente, ficou marcada uma Sessão na aldeia Pakayá para o dia seguinte.

O trabalho com os yudjá

Como se fosse hoje, lembro-me de nossa chegada à oca na aldeia Pakayá, onde fulgurava uma fogueira a um canto que iluminava parcialmente o ambiente. Redes atadas nos esteios nos esperavam. À luz que iluminava as paredes e as palhas, Mestre Biral distribui o Vegetal pela primeira vez aos yudjá. Naquele momento, não sabíamos que ali se iniciava um novo capítulo da história de nossa União, em cumprimento à palavra do Mestre Gabriel, quase cinquenta anos depois.

Ao final da Sessão, a palavra de um senhor chamado Pinicanhahã resumiu o que foi aquela primeira experiência para eles, ao dizer que na burracheira ouviu “música juruna antiga” – talvez um sinal da ligação ancestral deste povo com o Vegetal.

Àquela Sessão, seguiram-se mais duas ainda naquela expedição, com número crescente de participantes – a primeira com 6, a segunda com cerca de 20 e a terceira com mais de 30 participantes.

Pouco tempo depois de retornar para Alta Floresta (MT), onde resido, recebo um telefonema que para mim representa um fino liame na construção do que estava por vir. Nele, Mahurimã Juruna, que havia conhecido o Vegetal em uma visita aos Ashaninka, me diz: “Fizemos uma reunião e decidimos que vamos continuar com este Remédio (Vegetal), porque não temos mais coragem de fazer trabalho de pajé e este remédio vai nos dar essa força”.

Alguns meses depois, ainda em 2011, é nossa vez de receber os yudjá em nossa casa, o Núcleo Florestal, em Alta Floresta (MT), quando vieram nossos novos amigos Taradju e Yakarewá para participar de uma Sessão conosco, trazendo consigo o convite do cacique de uma das aldeias yudjá para que fizéssemos uma nova expedição ao Xingu. Em janeiro de 2012, lá estávamos de volta, desta vez para atender mais de 60 pessoas em duas Sessões realizadas.

Ao longo daquele ano, outras vezes nos dirigimos ao Xingu e, ao final de 2012, os mais de 400 yudjá – todos da etnia – haviam bebido o Vegetal. No início de 2013, tivemos o primeiro Preparo de Vegetal no Xingu, com a emblemática presença de Mestre Jair Gabriel, cuja palavra deu início a este movimento.

Logo no início do trabalho com os yudjá, a palavra de Yabaiwá Juruna, uma das lideranças mais jovens deste povo, na segunda vez em que bebeu o Vegetal, que a esta altura já denominavam de Wapá (remédio), parece explicar este crescente e impressionante interesse deste povo pelo Vegetal: “Nós estamos felizes por ter reencontrado este Wapá, porque nossos avós diziam que tínhamos perdido e precisávamos reencontrar”.

As histórias desse reencontro, que testemunhamos ao longo destes nove anos, continuarão a ser contadas aqui no Blog da UDV.

Nota dos Editores do Blog: o presente texto faz parte da série Crônicas do Xingu, que traz os relatos das vivências do Mestre Duarte Guerra com a etnia yudjá.

| Clique aqui e assista ao vídeo A UDV na Terra dos yudjás.

Leia também:

*Duarte Antônio Guerra é integrante do Quadro de Mestres do Núcleo Florestal (Alta Floresta – MT), Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e responsável pelo trabalho que a União do Vegetal realiza junto aos índios yudjá.

14 respostas
  1. Flávia Ilíada Furtado Coelho de Oliveira
    Flávia Ilíada Furtado Coelho de Oliveira says:

    Que presente de texto!
    Parabéns pelo trabalho com esses povos originários e gratidão pela generosa partilha. Votos de guarnição e perseverança para que continuem rendendo bons frutos.

    Responder
  2. Júnior
    Júnior says:

    Belíssimo trabalho desses irmãos! Gosto de ouvir o M. Biral contando a respeito deste trabalho e da ligação e respeito que os índios têm pelo vegetal. É possível ver a satisfação que ele tem em auxiliar nossos irmãos indígenas e meu desejo é que esse trabalho se fortaleça cada vez mais! Parabéns!!

    Responder
  3. Jairo Santos
    Jairo Santos says:

    Grato, muitíssimo grato à UDV e aos Mestres Jair Gabriel, Biral e Duarte Guerra por essa história que representa bem um cumprimento da palavra de Mestre Gabriel. Em 2019 me encontrei com Karin Juruna, um jovem professor yudjá, que me falou do bem que o Vegetal vem propiciando a todos seus irmãos, restaurando a força da ancestralidade, o respeito e a alegria de viver.

    Responder
  4. Luciano Godinho Almeida
    Luciano Godinho Almeida says:

    Bela matéria! Bonito ver a União auxiliando esses índios a reencontrar com o Vegetal num resgate cultural. Sempre vi no trabalho do M. Biral com os índios, um trabalho de amor, sempre escutamos dele algumas histórias aqui no N. Porto Seguro e é possível perceber uma alegria nessa missão.

    Parabéns à todos que colaboram com essa causa.

    Responder
  5. Joao Afonso
    Joao Afonso says:

    Gratidão por esse belo trabalho junto aos nossos irmãos indígenas. Sou filiado ao Núcleo Florestal e conheço esses dois senhores, M Duarte e M. Biral, pessoas dedicadas às causas nobres da UDV!
    Desejo prosperidade à todos.

    Responder
  6. José Ferreira
    José Ferreira says:

    Excelente texto de vivências com nossos manos do Xingu. Ouvi por algumas vezes o M. Biral e o M. Duarte contando essas vivências. É muito gratificante ver essas palavras de nosso Mestre sendo cumpridas. Gratidão, nobre amigo M. Duarte, por compartilhar tão bonitos momentos que já vivestes lá com nossos irmãos.

    Responder
  7. Luciana de Oliveira Souza -SG
    Luciana de Oliveira Souza -SG says:

    Gratidão a todos que vem realizando este belo trabalho, proporcionando mais fortalecimento entre os nossos irmãos indígenas com a chegada do wapá.
    Desejo prosperidade a todos os envolvidos!
    LPA⚘

    Responder
  8. Tito Liberato
    Tito Liberato says:

    Que história bem escrita e comovente.
    Belíssimo trabalho de resgate, sempre respeitando essa cultura ancestral e milenar que tem tanto a nos ensinar.
    Parabéns.

    Responder
  9. Almir Nahas
    Almir Nahas says:

    Bela crônica, amigo M. Duarte. Na tônica de um bonito e bem significativo trabalho que está dando seus frutos. Parabéns a todos os diretamente envolvidos!

    Responder
  10. Delson Pereira de Souza
    Delson Pereira de Souza says:

    Sou Engenheiro e licenciado em química e fico encantado pela forma simples e discreta com que a UDV consegue sincronizar ciência e espiritualidade aglutinando várias etnias em torno deste sagrado e misterioso chá. Parabéns às todas autoridades da irmandade responsáveis por essa união com os nossos irmãos indígenas….

    Responder
  11. Ricardo Augusto R. Mendonça
    Ricardo Augusto R. Mendonça says:

    Emocionante esta história e o reencontro dos índios com o Mariri.
    Gratidão, pois acende uma chama em querer conhecer e contribuir mais com a obra do Mestre, que veio pra pra trazer mais União.

    Responder

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *