As mãos, o coração de um semeador

| 02 Março, 2020

 Edson Lodi*

Telluride, Colorado, EUA. Lua crescente, janeiro de 2020.

Mestres Florêncio e Edson Lodi. De acordo com Mestre Edson Lodi, a foto foi tirada na mesma época do acontecimento relatado no texto | DMC/SG.

Em 1977, recém-chegado à União do Vegetal, fui até a cidade de Manaus (AM), onde fiquei hospedado na casa de Mestre Florêncio e da Conselheira Sueli, irmãos que então não conhecia.

Foram dias de intenso aprendizado. Eu pouco sabia de União do Vegetal, e alguns acontecimentos marcaram profundamente minha caminhada – e continuam vivos em minha memória até hoje.

Certa manhã, Mestre Florêncio – então conhecido como Mestre Cruzeiro – me chamou para ir até a casa onde morava antes de ter-se mudado para a residência que havia comprado recentemente. Ele pegou algumas ferramentas e me disse que iria transplantar os pés de Chacrona plantados no quintal da casa antiga, que era alugada.

Eu já havia participado de um Preparo de Vegetal em Brasília, inclusive dirigido por ele, e conhecia as folhas, mas até então não havia visto nenhum pé de Chacrona.

Ao chegarmos lá, me encantei com os verdes da Chacrona, os quais se transluziam em tênues luminárias. E, principalmente, com os cuidados – que me lembraram carinhos de mãe – de um homem cuja amorosidade abrandava o sol forte daquela manhã manauara.

Mestre Florêncio ensinou-me a cavar em volta de cada pé, recomendando muita atenção para não machucar as raízes. Elas, disse-me ele, sustentam as plantas e absorvem a água e os alimentos de que precisam.

Aquelas mãos calejadas no duro ofício de serralheiro tocavam aquelas plantas em zelos de pássaros construindo ninhos; seu coração sertanejo vibrava pleno de uma verdejante convicção – ainda veria as Chacronas crescerem altaneiras e generosas. Seus modos de gentil jardineiro fizeram com que aquelas palavras, que tantas vezes ouvira em outras ocasiões, sustentassem enraizadas verdades para mim.

Ele pegava cada planta retirada da terra como se colhesse favos de uma colmeia, de onde se desprenderia a dulcíssima claridade, que por sua vez iria nutrir os corações com o tesouro maior de Mestre Gabriel: o néctar da finíssima luz de Hoasca.

Dos cuidados e do labor de Mestre Florêncio, percebia que o suor a escorrer de sua fronte morena era como gotas iluminadas de amor, e assim ele encharcava cada pé de Chacrona.

As plantas foram colocadas na carroceria da camionete e abrigadas para que não sentissem o forte calor daquele dia inesquecível. Durante a viagem, com as mãos ainda sujas de terra e o coração carregado de benditas e invisíveis sementes, ele ia ensinando – falou-me de Mestre Gabriel e da importância do plantio:

– Na época em que nós chegamos, e que estávamos iniciando a União do Vegetal, tinha muito Mariri e Chacrona na floresta. A preocupação do povo era muito pouca neste sentido de plantar Mariri e Chacrona. O Mestre Gabriel, às vezes, falava que nós temos de se preparar pra plantar Mariri e Chacrona, que no decorrer dos anos a União do Vegetal iria crescer e que a gente iria precisar de plantar o Mariri e a Chacrona com abundância.

Perguntei ao Mestre Cruzeiro por que ele iria transplantar aquelas plantas e de onde elas tinham vindo.

– O primeiro Núcleo da União do Vegetal foi o Caupuri. Eu tinha de fazer um jeito de plantar Mariri e Chacrona pra gente sobreviver no futuro sem precisar de tanto sacrifício. No início, em Porto Velho, se plantava muito pouco, tinha alguns pés de Mariri no quintal do Mestre Gabriel, na Olaria e por ali perto. Também no quintal da casa do Mestre Adamir. Mas não havia ainda um plantio definitivo, projetado. Eu comecei a plantar aqui em Manaus, trouxe folhas de Chacrona e uns pés de Mariri lá do Jaru. Então comecei plantando no terreno da minha casa.

Ao chegarmos a sua residência, fomos plantar aquelas dádivas da natureza com os mesmos cuidados com que foram retiradas do local onde se encontravam. Havia luzeiros em nossas mãos.

Possivelmente por me ver encantado com tantas belezas que despontavam dos pés de Chacrona, Mestre Florêncio contou-me de um Preparo de Vegetal na Olaria, quando Mestre Gabriel falou, respondendo a uma pergunta:

– Na floresta, por onde você olha é um jardim, o jardim da natureza. Por exemplo, um Chacronal florado dentro da floresta, tem jardim mais bonito que um Chacronal dentro da floresta? As sororocas, o palmeiral – tudo é um jardim dentro da floresta.

Assim que Mestre Gabriel concluiu sua oratória, Mestre Florêncio faz pela primeira vez a Chamada Jardim do Chacronal. A força da inspiração era tanta que nem sequer pediu licença ao Mestre Gabriel.

Com o tempo, aquelas Chacronas de seu quintal, no bairro Japiim, atenderam a muitos preparos em Manaus, e suas sementes deram origem a muitos outros pés de Chacrona no belíssimo e fecundo plantio do Núcleo Caupuri.

Já se passaram muitos anos, e hoje o plantio de Mariri e de Chacrona é uma realidade na União do Vegetal. Técnicas agroflorestais avançadas oferecem excelente qualidade às nossas plantas sagradas, e com a implantação do sistema de agrofloresta (SAF) podemos ter, em cada Núcleo da União do Vegetal, um jardim da natureza, conforme as palavras de Mestre Gabriel.

Todo aquele que traz sementes e canteiros em suas mãos deve recordar-se de que o principal nutriente é o amor, a dedicação, a perseverança, tão bem demonstrados pelos exemplos do saudoso Mestre Florêncio – o incansável semeador.

*Edson Lodi é integrante do Conselho da Representação Geral do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.

16 respostas
  1. Francisco Roberto Pereira
    Francisco Roberto Pereira says:

    Muito bonito e importante este relato de um trabalho que expressa o sentimento e compromisso com Mestre Gabriel em sua missão.

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  2. Leonardo Pauperio
    Leonardo Pauperio says:

    Que bonito exemplo do Mestre Florêncio de dedicação ao plantio da União do Vegetal. Que possamos preservar em nós também um sentimento de devoção e amor por essas plantas sagradas!

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  3. selzer francisco
    selzer francisco says:

    Lindo texto, me fez viajar até a presença desses pés de chacrona retirados da casa antiga e replantados. Muito bom conhecer essas historias e esses personagens que engrandecem essa União do Vegetal.

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  4. Karla Marcelina Soares da Silva
    Karla Marcelina Soares da Silva says:

    Como fico feliz cada vez que vejo alguém como M. Edson Lodi falar sobre a história do meu amado sogro, um semeador das plantas que unidas nos trazem a Luz. M. Florêncio não era um semeador das plantas, mas um semeador dos ensinos do Mestre um semeador de alegrias. Gratidão a todos que fazem a história dele ser sempre contada para que todos que estão chegando na União possam conhecer esse grande homem esse grande amigo do Mestre Gabriel.

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  5. JOAQUIM JOSE DE QUEIROZ
    JOAQUIM JOSE DE QUEIROZ says:

    Homem de muitas e belíssimas historias, o Mestre Florêncio sempre será FLORES. E seu exemplo se imortaliza todas as vezes que revivemos os ensinos por ele semeados. Tive a honra de ouvir o seu cantar e posso afirmar com toda certeza que o Mestre Gabriel sempre foi o seu guia, e dessa forma todos os seus passos foram guiados na direção de sua estrela e assim ele – Mestre Florêncio – ofereceu ao Mestre o melhor de si, e nos presenteou com seus cantos e encantos. Sementes que iluminam o céu e a terra de luz e esperança.

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  6. Raquel Martins da Silva
    Raquel Martins da Silva says:

    Bonito relato e exemplo de amor a essa obra de nosso Mestre Gabriel. Sinto gratidão pelo Mestre Gabriel e também pelos Mestres que vem dando continuidade aos trabalhos necessários para que hoje possamos ter essa obra de pé e cada dia mais próspera assim como nosso Mestre previu.

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  7. Ana Paula
    Ana Paula says:

    Graças ao trabalho de Mestre Florêncio, hoje o Núcleo Caupuri até abastece outros núcleos… hoje, 2 de março de 2020, vamos colher Chacrona para enviar para o Núcleo Grande Ventura, em São Paulo, gratidão

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  8. Dariane Katia Baratto Stedile
    Dariane Katia Baratto Stedile says:

    Que alegria saber mais um tanto da história da União do Vegetal. O chacronal tem a beleza de um jardim e faz esse jardim florescer em meu coração. Sou grata e me sinto feliz quando estou podendo auxiliar no manejo do Chacronal de nosso Núcleo Cores Divinas. É feito com respeito e amor, semeando e plantando as plantas sagradas. Belo exemplo Mestre Florêncio.

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  9. Francisco Antônio Lima Dias
    Francisco Antônio Lima Dias says:

    O pensamento de um bom jardineiro é plantar com amor, zelar com carinho as plantas sagradas, assim ensinou Mestre Florêncio, um homem dedicado ao plantio e a UDV.

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  10. Ailton Carvalho
    Ailton Carvalho says:

    Muito verdadeira essa história e muito viva na lembrança de Mestre Edson Lodi, onde ele presenciou o início do trabalho de plantio na UDV, vendo um homem ensinando a fazer um transplante de uma planta sem danificar e raiz. E assim ele ensinou pra mim e pra mais algumas pessoas como plantar e zelar das plantas com amor. E chegou o tempo de Mestre Florêncio mandar demolir essa casa e precisou transplantar mais uma vez os pés de chacrona e fizemos com muito amor e alegria para o terreno do Núcleo Caupuri, e desses pés nasceram milhares de outros pés de chacrona. Hoje temos um dos maiores chacronal na UDV e isso me alegra muito em ter feito parte deste trabalho que meu pai começou..Grato Mestre Edson pela lembrança.

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  11. Augusto Pessoa Lobo
    Augusto Pessoa Lobo says:

    Quem planta colhe, nessa vida recebemos também o que outros plantaram antes e devemos deixar pro futuro algo bom pra colherem. Sagrado jardim, sou grato por estar aqui UDV.

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  12. Thomas Nooney
    Thomas Nooney says:

    Muito lindo palavras M. Edson Lodi,
    Tenho muito gratidão no meu coração por esse caminho.
    Nosso Plantio, nomeado em memória de Florêncio Siqueira de Carvalho está crescendo bem.
    Espero que um dia volte aqui.

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