Mestre Gabriel: dons, ofício e profissões – 3

| 24 Janeiro, 2021

Ilustração: Rafael Pita

A consolidação dos trabalhos em Porto Velho

Tito Liberato*

Mestre Gabriel e sua família chegaram a Porto Velho na virada de ano entre 1964 e 1965. Com o início de um novo ciclo do Sol, principiava também uma nova fase da família e da UDV, religião que criara ainda na floresta, em 22 de julho de 1961.

Após sobreviver com as poucas reservas financeiras acumuladas e sem conseguir trabalho na cidade, começam a passar dificuldades, a ponto de a família cogitar retornar aos seringais. Ao saber da intenção, dois dos seus discípulos, Hilton e Ramos, que adiante estariam entre os primeiros Mestres formados, pedem que a família não retorne. Para viabilizar a permanência, disseram que ele e alguns amigos iriam conseguir um terreno para o Mestre Gabriel construir uma olaria.

Mestre Gabriel aceita, sob a condição de que trabalharia para pagar pelo terreno e assim o fez. Após verem que a olaria não tinha bom lucro porque se gastava demasiado com o transporte para os clientes, os amigos se organizaram e ofereceram um caminhão, aceito com a mesma condição e igualmente quitado com os frutos do trabalho. Durante toda a vida em Porto Velho, Gabriel viveu da renda obtida com a olaria e o caminhão, que também usava para fazer fretes, chegando ainda a empregar alguns amigos dos tempos dos seringais, como Bacurau e Pernambuco.

Outra atividade que desenvolveu nesse período foi de membro da associação dos oleiros, que ele auxiliou a formar, organizando assim a produção, venda e concorrência, beneficiando todos os trabalhadores da região.

Embora tenha chegado a ter 198 sócios, Mestre Gabriel sempre lutou pelo seu sustento, não aceitando qualquer tipo de vantagem. A mensalidade cobrada dos sócios era apenas e tão somente para custear as despesas de manutenção dos trabalhos da União do Vegetal.

Honra pelo trabalho

Tudo que precisava, mesmo que se tratasse de um serviço fornecido por um amigo, Mestre Gabriel fazia questão de pagar, chegando a deixar de ir ao consultório de um dentista que era seu discípulo porque ele não queria cobrar. Honrava seu trabalho como forma de sustentar sua família e igualmente prezava pelo trabalho dos outros.

Uma vizinha da família ficou viúva, com 5 filhos para cuidar. A filha do Mestre Gabriel, Jandira, viu-a chorando por não ter como comprar alimentos e contou para o pai, que a partir de então passou a mandar entregar alimentos todo mês em sua casa, pedindo ao dono do armazém que não revelasse que ele pagava. Dali em diante, quando saía para trabalhar dizia: “Meu Deus, faça com que meu negócio tenha prosperidade para minha família e para aquela viúva”.

No terreno em que residia havia, além de uma casa onde morava, uma outra conjugada, que foi cedida para a realização das Sessões. Mas, sabedor da importância dos estudos e querendo beneficiar as crianças da vizinhança, cedeu também o espaço para funcionar uma escola durante o dia.

Quando esteve em tratamento no hospital em Messejana (CE), tratava de forma tão terna e simpática os médicos, trabalhadores e pacientes que foi eleito representante do Conselho Comunitário.

Árduo trabalho

Agricultor, comerciante, motorneiro, seringueiro, noteiro, enfermeiro, motorista, oleiro, Mestre Gabriel exerceu todas essas profissões para ganhar o pão de cada dia e sustentar a família na jornada por este chão, e ainda auxiliar os seus irmãos, mas o que lhe deu mais árduo trabalho foi criar a UDV.

Seu irmão Antônio chegou a lhe perguntar por que insistia com essa religião e Mestre Gabriel disse que era o melhor jeito que tinha encontrado para tirar a maldade do coração do ser humano. Este é seu mais nobre e principal ofício, ensinar seus irmãos a viverem fraternalmente e assim promover uma paz no mundo. Para este trabalho, Deus lhe deu os dons de que precisava, e a missão foi cumprida com louvor, nos legando uma religião que, do coração da Floresta Amazônica, tem circulado o mundo, reunindo pessoas de diversas profissões e níveis de instrução, irmanando a todos sob o manto deste símbolo que sempre o guiou: Luz, Paz e Amor.

*Tito Liberato é integrante do Corpo do Conselho e Monitor do Departamento de Memória e Comunicação (DMC) da Sede Geral da UDV (Brasíli-DF).

Fontes:
– Livro Mestre Gabriel, o Mensageiro de Deus (Ruy Fabiano)
– Agenda Institucional UDV 60 Anos (2021)
– Alto Falante Histórico, edição de maio de 2020 (Caminho de Flores)
– Tese de Doutorado “O exemplo na vida de quem prega: uma análise do campo ayahuasqueiro feita a partir de e com os sócios o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (Patrick Walsh Neto).


Conheça os textos da Série “Mestre Gabriel: dons, ofício e profissões”: 

18 respostas
  1. Eduardo Wanderley de Almeida
    Eduardo Wanderley de Almeida says:

    Belíssimo trabalho.
    Tanto das ilustrações do Rafael Pita
    Quanto dos textos do Tito Liberato.
    Grato a vocês e todo o Departamento de Memória e Comunicação por esses trabalhos incríveis.

  2. Ana Lúcia Mendonça Fragassi
    Ana Lúcia Mendonça Fragassi says:

    Merecimento meu, poder conhecer tão real história de Amor ao próximo, trazendo ensinos de como viver com dignidade. Linda narração do conselheiro e linda aquarela de Rafael Pita.

  3. Kleber Roberto de Azevedo Botão
    Kleber Roberto de Azevedo Botão says:

    Muito gratificante estar aqui neste lugar sagrado, onde Eu, meus familiares e amigos podemos sempre aprender com todo está História deste Homem digno, honrado, que com muita determinação e consciência esteve nesta Terra construindo a União do Vegetal no coração dos Homens e Mulheres… Graças a Deus sempre poderemos aprender com as experiências de Vida do Mestre Gabriel !! Viva a UDV !!!

  4. Julia Lemos
    Julia Lemos says:

    Esse texto é ótimo para percebermos que o Mestre Gabriel, nosso guia espiritual, estava sempre ensinando através do seu próprio exemplo, valores como honestidade, honra, dignidade, responsabilidade, amor no coração, sabedoria, e tantos outros que poderiam ser nomeados! Saber de tudo isso nos dá a certeza de que estamos sendo guiados verdadeiramente por um ser de luz, que sempre teve luz, paz e amor em seu pensamento e sentimento! Viva o Mestre Gabriel, hoje e sempre!!

  5. Lucas Carvalho
    Lucas Carvalho says:

    Um verdadeiro trabalho em prol do desenvolvimento do ser humano, o Mestre Gabriel sempre olhando e auxiliando a todos, sem exceção de ser ou não ser da União, isso nos mostra um grande valor, em que se deve ajudar o próximo e sempre valorizar os esforços do trabalho independente de quem seja. Um ótimo texto que traz em essência a missão de ajudar o próximo que tem o Mestre Gabriel.

  6. Vitor Collyer
    Vitor Collyer says:

    Um texto muito bonito que fala como o Mestre Gabriel sempre suou muito para sustentar a família e recriar a UDV. Mas esse esforço valeu muito a pena, pois trouxe esse grande tesouro que é a nossa União!!! Viva o Mestre Gabriel! Viva a UDV!

  7. Adriana Mignot
    Adriana Mignot says:

    É como canta o Juraildes da Cruz:
    ” …o que fez foi ensinando, não fez de outra maneira…

    …ensinando que quem direito anda, direito tem. Portanto, boa prece é a prática do bem. Trabalhava e ganhava o pão na olaria , mas no Coração reinando Sabedoria.
    Caboclo do Sertão, Ser tão Harmonia, onde a Humildade é a Ordem do dia ”

    Viva o Mestre Gabriel, sempre!

    Gratidão, manos que fazem o Site e o Blog Oficial da UDV!

  8. Joana T. Mariano
    Joana T. Mariano says:

    Mais uma bonita produção da equipe do Blog, num momento tão especial para todos nós, caianinhos. Escrita e ilustrações belíssimas. Merecida homenagem ao Centenário do Mestre e felizes somos por podermos fazer parte desse caminho de vitórias, Viva os 100 Anos do Mestre Gabriel!

  9. Alba Regina Souza Liberato de Mattos
    Alba Regina Souza Liberato de Mattos says:

    Belo relato do amor de um Mestre pela humanidade que sofre a míngua do conhecimento espiritual. Tocante pela sensibilidade da linguagem, pelas ilustrações, tudo conduzindo o leitor a imaginação viva do que foi a caminhada do Mestre José Gabriel da Costa. Parabéns aos organizadores do DMC pela veiculação do belo trabalho.

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