A paz dos Yudjá no Alto do Xingu

| 7 Agosto, 2020

Duarte Antônio Guerra*

Um tradição de paz ensinada e aprendida na terra dos Yudjá | Foto: Denise Farias.

Talvez pelas histórias que ouvia meu velho pai contar, de índios e sertanistas, de um período épico da história de nosso país, isso ficou tão fortemente calcado em minha memória, que contava histórias do Xingu aos meus dois filhos mais velhos, dizendo a eles que um dia iria para lá.

Em outubro de 2011, realizei esse sonho de minha mocidade: conhecer o Xingu. O convite veio cerca de um ano antes, quando o Departamento Médico-Científico (Demec) do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal iniciou um chamado para os profissionais de saúde que pudessem se voluntariar para uma ação em saúde no Parque Indígena.

Tal movimento se iniciou com o Mestre Eduardo Biral (Núcleo Porto Seguro – Eunápolis/BA) –  conhecedor dos povos daquela região, por ter trabalhado décadas de sua vida como dentista lá – com o apoio dos Mestres Edison Saraiva (Sede Geral – Brasília/DF) e Ariovaldo Ribeiro (Núcleo Rei Davi – Mogi das Cruzes/SP), à frente do Demec à época.

Ao chegar no Xingu, naquele outubro de 2011, em um final de tarde sob ameaça de chuva, parece que encontrara uma parte de mim. Senti uma alegria inata ao adentrar o Parque Indígena com sua bonita floresta ladeando a estrada de acesso por 40 km, até chegar ao rio Xingu, o mais bonito que já vi. Esse sentimento só fez aumentar ao chegarmos à aldeia Piaraçu, do povo Mebengôkre (Kayapó), e, depois, ao inesquecível banho de rio que tomamos ao final da tarde.

Dias mais tarde, porém, por ossos do ofício que realizávamos, nos dirigimos à aldeia Pakayá, do povo que se autodenomina Yudjá, também conhecido como Juruna. Ao adentrar a aldeia, o sentimento de paz que me tocou é algo que ainda hoje me socorre em momentos de angústia, na lida do dia-a-dia. Difícil descrevê-lo no todo, mas algo que percebi naquela aldeia cabe aqui nas linhas que agora escrevo.

As ocas dispostas em círculo, cobertas de palha artisticamente trançadas, o pátio da aldeia cuidadosamente varrido, uma escola indígena em que se percebia presente o asseio, mas, muito mais que tudo isso, os jurunas.

Os olhares amistosos, a fala lenta e em tom baixo na sua língua nativa, um português arrastado, apenas falado pelos homens, a atitude carinhosa e tímida das crianças e respeitosa dos jovens, que se levantaram das cadeiras para que sentássemos, as jovens senhoras com seus bebês em panos de algodão a tiracolo, tudo aquilo me fez sentir na pele a realidade de algo tão fino e de que somos tão carentes, que se resume em três letras: Paz!

O que senti àquele primeiro encontro me cativou de tal forma que deles, até hoje, não consegui me distanciar. Ao contrário, senti e sinto cada vez mais presente no coração a amizade e o respeito que tenho por esse povo, que me recebeu também como um irmão, e isso me faz querer sempre fazer por merecer ter a confiança deles, estar perto deles.

Tanto assim que, após essa primeira visita, tantas outras vezes retornei ao Xingu nestes 9 anos, para estar entre os Yudjá e, também, colaborar com eles dentro de minhas possibilidades, de médico e pertencente ao Quadro de Mestres da União do Vegetal.

Em algumas dessas ocasiões, fui acompanhado de minha família e, ao voltar de uma dessas expedições, meu filho mais velho, adolescente à época, consignou em seus escritos algo que, vez por outra, lembro e que me conduz pelo sentimento às aldeias de meus irmãos Yudjá. Escreveu ele: “Há paz entre os Juruna”.

Talvez ele tenha sentido, percebido algo parecido com o que eu senti naquela primeira vez e que sinto sempre que estou por lá. Alguns que lá estiveram comigo a trabalho também sentiram. E nestes dias em que essa palavra tão curta, tão ampla, carece de estar entre nós, volto meu pensamento ao rio Xingu, entre os rios Manissauá-Missu e Ayawá-Missu. Lá, bem ali, onde estão os Yudjá, onde está a Paz Juruna, e trago-a aqui bem para perto do coração.

Leia mais a respeito do trabalho da UDV no Xingu: A União do Vegetal na terra dos Yudjás

* Duarte Antônio Guerra é integrante do Quadro de Mestres do Núcleo Florestal (Alta Floresta-MT), Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Responsável pelo trabalho que a União do Vegetal realiza junto aos índios Yudjá.

  • Nota dos Editores do Blog: o presente texto é o primeiro de uma série de crônicas das vivências do Mestre Duarte Guerra no Xingu.