Mestre Zé Luiz: um discípulo cuidado por seu Mestre

Otávio Castello*

| 27 Agosto, 2026

No dia de hoje, 27 de agosto, celebramos os 89 anos de vida do Mestre José Luiz de Oliveira. Pessoa de grande relevância para a União do Vegetal, venceu dificuldades e também cruzou adversidades de saúde que impressionam. Com bom humor e com um coração confiante no seu guia espiritual, o “compadre Zé Luiz” venceu, e vem vencendo, as provas da vida e ensinando pelo seu exemplo.

Para honrar a sua trajetória neste caminho do Mestre, o Blog da UDV convidou o médico e amigo do Mestre José Luiz, o Dr. Otávio Castello, para contar um pouco da sua experiência acompanhando este senhor em diversas situações de saúde, desde 2001.

O texto original do Dr. Otávio deveria ter sido publicado no livro “Hoasca: remédio para o espírito – histórias de Mestre Zé Luiz”, da editora Pedra Nova, publicado em 2022. Porém, naquela ocasião, não foi possível. Hoje, alguns anos depois, o artigo chega ao Blog da UDV como uma singela homenagem a este pioneiro da União do Vegetal! Boa leitura!

A história de José Luiz de Oliveira, o Mestre Zé Luiz, é indissociável do desenvolvimento de nosso Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, por sua participação em importantes momentos da UDV.

Mestre Zé Luiz chegou à União em 1965. Ao buscar uma carga de tijolos na olaria de Mestre Gabriel, de cima de seu caminhão, avistou latas onde pedaços de cipó eram fervidos. Foi o suficiente para querer conhecer aquele remédio para o espírito. A oportunidade para ser adventício veio no dia seguinte, numa Sessão com experiências marcantes, como a revelação de que o Mestre o tinha ligado no Vegetal havia alguns anos.

Chegou trabalhando. Imediatamente liderou o assentamento de um piso de cimento queimado onde as Sessões aconteciam. Convocado para o Corpo Instrutivo dez dias depois de sua primeira Sessão, é um dos Mestres da UDV feitos por Mestre Gabriel. Nessas seis décadas, juntamente com sua família, tem mantido sua vida dedicada à União com incontáveis contribuições na edificação de pessoas e do próprio Centro.

Do nascente ao poente: a missão que salva o vivente
Entre tantos acontecimentos de sua vida, destacam-se alguns relacionados a sua saúde, que também demonstram como nosso Mestre zela por seus discípulos.

O ano era 1969. Para um Preparo de Vegetal, chegou bem cedo e estacionou seu caminhão voltado para o nascente. Após algumas horas de atividades, Mestre Gabriel pediu  a ele que fosse à cidade para buscar alguns mantimentos e mercadorias – ao que atendeu prontamente.

Ao regressar, M. Zé Luiz encontrou aquela vaga ocupada. Estacionou seu caminhão em outra, então voltado para o poente.

Horas mais tarde, durante uma distribuição de Vegetal, percebeu na Burracheira: “de manhã, eu estacionei de frente para o nascente; ao voltar, de frente para o poente”. Naquele momento intuiu estar recebendo um aviso, de que estaria exatamente na metade de sua vida.  Investigou se aquilo era o Mestre lhe avisando quando iria desencarnar. Estando com 32 anos, portanto, seria aos 64.

Após a distribuição, contou ao Mestre e pediu dele uma confirmação se aconteceria daquele jeito mesmo. Mestre Gabriel se concentrou e disse: “é, compadre… tá bem parecido que é isso mesmo”.  E acrescentou: “mas, olha, se chegando aos 64 você estiver numa missão importante na União do Vegetal, isso que você viu pode ser modificado e você viver mais tempo”. Assim, M. Zé Luiz seguiu sua caminhada, mantendo essa lembrança.

Após 32 anos, ele morava em Brasília-DF e era o Mestre Geral Representante. Não temia a morte, mas ao chegar aos 64 anos, passou a ter mais cuidados com sua saúde. Numa consulta de check-up em dezembro de 2001, foram programados exames de rotina – inclusive cardiológicos. Sem pressa, porque não tinha nenhum sintoma ou queixa relevante.

Entretanto, inesperadamente passou a ter dor no peito e falta de ar nos primeiros dias de janeiro de 2002, durante uma viagem ao Nordeste. Levado ao médico, recebeu tratamento para um problema digestivo. De volta a Brasília, a dor piorou. Foi solicitado que viajasse para São Paulo-SP, o que só aceitou após cumprir com a responsabilidade de dirigir a Sessão de Reis (6 de janeiro) na Sede Geral, mesmo com aqueles sintomas.

Ao chegar ao hospital da Escola Paulista de Medicina, eu já o aguardava no serviço de emergência. Me relatou a respeito do alerta que recebera do Mestre, 32 anos antes. Enquanto o ouvia, observei no eletrocardiograma sinais de gravidade de um infarto iminente. Respondi que, se o Mestre tinha dito aquilo foi para deixá-lo prevenido e alerta, não tardando para procurar atendimento no caso de alguma alteração, e expliquei que naquele hospital existiam os recursos  para o tratamento  e que daria tudo certo.

O exame de cateterismo identificou e tratou a obstrução de duas importantes artérias do coração. Ao acordar da anestesia, noticiei o sucesso do procedimento, assim como a gravidade do caso, pois uma delas estava 80% entupida e a outra, 98%, sendo uma  que frequentemente causa infarto fulminante. Mas o procedimento foi um sucesso e as duas tinham sido recanalizadas.

Sentindo a emoção, Mestre Zé Luiz perguntou: “então quer dizer que eu podia ter morrido?”. Respondi que sim, reafirmando que daquela situação estava salvo. As lágrimas de ambos selaram o vínculo que temos cultivado desde então.

Nos dias seguintes,  convalescendo no hospital, com sua inteligência e bom humor, impressionou os médicos e enfermeiros – a quem frequentemente divertia com suas rimas e trovas até mesmo para responder a perguntas simples sobre sintomas.

Dos acontecimentos  bem-humorados, um ficou marcado. Para realizar uma radiografia, o hospital exigia que fosse levado em cadeira de rodas. Na falta de um padioleiro, eu mesmo a empurrei. Chegando ao setor do exame, encontramos uma sala de espera abarrotada. Mestre Zé Luiz, acostumado a ser confundido com o humorista Renato Aragão (Didi Mocó, de “Os Trapalhões”), percebeu naqueles pacientes um alvoroço – alguns apontando para ele e cochichando.

Ao se aproximar, cada vez mais pessoas apontavam para ele que, fazendo gaiatice, as cumprimentou imitando o gesto com a mão e falando alto o bordão: “vocês aí, da poltrona!”. Teve quem achou que era o Didi e veio pedir autógrafo! E virou notícia: no dia seguinte, o diretor do hospital me perguntou se Renato Aragão estava internado sob meus cuidados.

O Mestre sempre cuidando de seu discípulo
Nos anos seguintes, Mestre Zé Luiz ainda teria de cruzar algumas situações delicadas de saúde. Além de ter sido submetido a mais três cateterismos para recanalização das artérias do coração um deles de alto risco –, implantou um marcapasso e trocou uma válvula do coração, meses antes de inteirar 85 anos. Este sofisticado procedimento foi realizado em São Paulo, por um experiente professor de cardiologia.

Os médicos do nosso Centro que o acompanham relatam que, durante tantas ocorrências, de uma maneira ou de outra, os recursos sempre se apresentam quando se fazem necessários. Algumas vezes de uma maneira tão inesperada e misteriosa que fica evidente a mão do Mestre Gabriel cuidando de seu discípulo.

Foi o que ocorreu numa madrugada de 2009, quando estava hospedado na casa do Mestre Estácio que também foi um experiente cirurgião e homeopata. Ao sentir uma fortíssima dor na barriga, Mestre Zé Luiz chamou pelo Dr. Estácio, pedindo socorro.

A cirurgia de urgência salvou-lhe a vida, resolvendo uma ruptura súbita do intestino um tipo de acontecimento que pode ser fatal, se não for imediatamente tratado. Não poderia ser mero acaso. Com frequentes viagens, em tantos lugares onde se hospedava, aquele problema tinha de acontecer justamente no dia em que o recurso para ser salvo estava no quarto ao lado!

Assim também aconteceu em 2018, quando sua cardiologista, Janaína Moura (Conselheira na União do Vegetal), suspeitou de um infarto em andamento e tomou imediata providência, mais rápido do que teria feito habitualmente,  mas que percebeu ser necessária. Da mesma forma, a atitude de um cirurgião brasiliense, que por intuição antecipou, já tarde da noite, uma intervenção marcada para o dia seguinte. Durante o procedimento ficou claro que sua decisão, baseada mais no sentimento do que na razão, foi crucial para salvar a vida do paciente.

“… uma força de viver!”
Além de reverenciarem como Mestre Gabriel sempre se apresenta nos momentos de necessidade de saúde de M. Zé Luiz, seus médicos caianinhos também destacam o reconhecimento de outros médicos, que frequentemente se lembram e perguntam por ele.

Por exemplo, o Dr. Espírito Santo, que operou seu intestino. E o professor de cardiologia da USP, que, após a troca da válvula, confidenciou a mim estar impressionado como o paciente, embora tão idoso, se mostrava uma pessoa com vigor e “com grande força interior… uma força de viver!”.

Assim, Mestre Zé Luiz vem superando desafios com sua saúde, pedindo a seus médicos para fazerem de tudo a fim de ter condições para realizar seu trabalho pela União do Vegetal e cuidar de sua esposa, Conselheira Emanuela, e família.

A esse Mestre e dileto paciente, nossa gratidão e singela homenagem por seus 89 anos. Saúde e prosperidade, para que continue na missão de nos ensinar, doutrinar e nos alegrar com sua “força de viver”.


*Otávio Castello é médico geriatra e integrante do Corpo Instrutivo do Núcleo Rei Hoasqueiro (Brasília-DF).