Mestre Zeca Eliseu: memória viva dos seringais
Joaquim Gabriel de Souza da Silva*
15 Julho, 2026

No mês de julho, comemora-se a recriação da União do Vegetal e, em homenagem aos que vivenciaram os primeiros momentos dessa religião em meio a floresta amazônica, o Blog da UDV publica este texto em homenagem ao Mestre Zeca Eliseu, que conviveu com o Mestre Gabriel nos seringais da Amazônia.
José Eliseu da Costa, conhecido na irmandade da União do Vegetal como Mestre Zeca Eliseu, nasceu em 4 de setembro de 1941, no seringal São Gabriel, no então Território do Acre. De família simples e trabalhadora, desde cedo dedicou-se ao labor nos seringais da Amazônia. A vida diária de um jovem seringueiro conduziu-o aos caminhos do conhecimento e aos mistérios que a natureza revela. Iniciou ainda muito cedo o trabalho no corte da seringa, auxiliando a família dele e garantindo-lhe o sustento necessário. Jovem esperto e dedicado, ele demonstrava gosto pelo aprendizado e interesse em compreender os ensinamentos sobre a vida espiritual.
Durante o período em que trabalhava no seringal Guarapari, foi convidado para participar de uma festa tocando violão — instrumento que, desde jovem, costumava tocar nos barracões para animar as pessoas. Relembra que, naquele dia, enquanto se dirigia para a festa, passou em frente à colocação em que Mestre Gabriel trabalhava, mas não parou para conversar e seguiu adiante.
Ao chegar ao barracão, começou a tocar o violão e, em certo momento, viu quando Mestre Gabriel chegou com um pandeiro, juntando-se a ele na música. Naquela ocasião, ouviu falar a respeito do Mestre, que ainda não trabalhava com o Vegetal, mas já era conhecido como “Sultão das Matas” e pelos trabalhos que realizava.
O encontro com o chá Hoasca
Ouvindo falar a respeito do chá Hoasca, interessou-se em conhecê-lo. No ano de 1963, enquanto trabalhava no seringal Providência, nas proximidades do rio Mamu, foi que ele bebeu o Chá pela primeira vez com um dos discípulos de Chico Lourenço, um senhor chamado Renato.
Mestre Zeca Eliseu narra:
“Eu bebi o chá, mas não senti nada e não via nada, então disse ao Mestre (Renato) e ele me chamou para repetir a dose. Fiquei deitado na minha rede e cochilei. Quando me alertei, já estava com uma burracheira muito forte e me sentindo sufocado, então eu aloprei e disse pra tirar porque eu não aguentava mais. O Mestre (Renato) veio, molhou minhas mãos com Vegetal e assoprou meus braços, dizendo que ia sair ‘aos graus’. Logo pedi para não tirar mais, porque eu estava gostando… e entrei nos encantos, vendo aquelas maravilhas.”
Aquela Sessão marcou a caminhada dele. Bebeu o chá novamente com um dos discípulos de Chico Lourenço e, em seguida, encontrou-se com o Bacurau, que distribuía o Vegetal pela União do Vegetal, seguindo a linha do Mestre Gabriel.
Quando chegou para beber o Vegetal pela União, conheceu logo um dos primeiros amigos que fez: o Cruzeiro (Mestre Florêncio), que anos mais tarde chegaria a Porto Velho e se tornaria Mestre, recebendo a Estrela pelas mãos do Mestre Gabriel.
Nesse dia, ele relembra:
“Cheguei para beber o Vegetal com o Bacurau e, na época, o Florêncio estava presente, mas era chamado de Cruzeiro. O Cruzeiro sempre foi muito inteligente. Bebemos o Vegetal e, depois que despediram a força, uma pessoa ficou perdida nos encantos. Então, pedi ao Mestre (Bacurau) para beber mais Vegetal e ir buscar essa pessoa que estava perdida. O Florêncio também pediu. Então bebemos e, pelo merecimento, viajamos juntos na burracheira, encontrando a pessoa dentro da floresta, encantada dentro de um jarinauá** muito lindo. Então toquei nele e ele despertou.”
Foi assim que Zeca Eliseu iniciou a caminhada dentro da União do Vegetal. Interessou-se em aprender as chamadas e, logo, Mestre Bacurau colocou-o para dirigir as Sessões e para servir o Vegetal. Com a ida de Mestre Bacurau para Porto Velho, Mestre Zeca Eliseu também viajou até lá para visitar o Mestre Gabriel e conhecer mais a respeito da União do Vegetal. Chegando, começou a participar das Sessões.
Durante uma Sessão na olaria dirigida pelo Mestre Gabriel, Mestre Zeca lembra que estava pensando naquele momento que “[…] ouvia as pessoas dizendo que, quando alguém matava seu semelhante, Deus virava as costas para aquela pessoa. Eu queria saber se isso era verdade, se realmente Deus virava as costas.”
E, sem que houvesse tempo de falar, o Mestre captou aquele seu pensamento e lhe respondeu: “Não tem como Deus virar as costas, porque Ele não tem costas, porque Ele é Luz.” Mestre Zeca Eliseu continua a explicação:
“Vou explicar para vocês: é como o fogo de uma vela; você não vê as costas, porque é luz. Assim também é Deus: Ele não tem costas porque Ele é Luz.”
Após a Sessão, Mestre Gabriel disse ao Mestre Zeca Eliseu que ele poderia distribuir o Vegetal, no seringal, para as pessoas. E completou:
“Você ainda não sabe administrar uma Sessão, né? Mas não tem problema, é só abrir a boca que eu falo por você.”
O Mestre Gabriel concluiu, dizendo-lhe ainda:
“Quando o senhor der o Vegetal a alguém, firme o pensamento primeiro em Deus; se não conseguir, firme o pensamento em mim, que é a mesma coisa; e, se mesmo assim não conseguir, firme o pensamento na União do Vegetal, que também é a mesma coisa.”

Mestre Zeca Eliseu deu continuidade à caminhada na Distribuição de Vegetal Divina Providência, juntamente com outros irmãos que residiam nos seringais. Com a licença concedida por Mestre Gabriel, permaneceu por mais de 15 anos bebendo o Vegetal e atendendo àqueles que desejavam conhecer a doutrina da UDV.
Enfrentou muitas dificuldades ao longo dos anos de trabalho dedicados à União do Vegetal. Em diversas ocasiões, bebiam o Vegetal apenas poucas pessoas. Mesmo assim, ele não se desanimava em falar a respeito da União. Em alguns momentos, sofreu perseguições de pessoas que não compreendiam os trabalhos da UDV, mas se manteve firme na vontade de contribuir para o engrandecimento da Obra.
Fala a respeito do Mestre Gabriel com amor e gratidão. Quando perguntado sobre qual mensagem gostaria de deixar para a irmandade da UDV, pediu que as pessoas procurassem seguir os mandamentos da nossa religião e relembrou a importância do amor ao próximo — que, segundo ele, é um dos mandamentos mais importantes e um dos mais difíceis de ser cumprido.
No ano de 1989, após a descontinuidade da DAV Divina Providência, recebeu o título de Mestre no Núcleo Mestre Iagora (Porto Velho-RO). Quem lhe entregou a camisa com a Estrela foi o Mestre Jair Gabriel da Costa, atual Mestre Geral Representante.
Pessoa simples, pai amigo e trabalhador, Zeca Eliseu continua a caminhada no Núcleo Mestre Pojó, em Extrema – RO, onde pertence ao Quadro de Mestres.
No dia 4 de setembro deste ano de 2026, Mestre Zeca Eliseu inteirará 84 anos de vida, repletos de histórias, pelejas e vitórias. O DMC registra esta singela homenagem em forma de gratidão, relembrando sempre o pedido do nosso Grande Mestre Gabriel: que sigamos com os primeiros irmãos.
–
*Joaquim Gabriel de Souza da Silva é membro do Quadro de Sócios do Núcleo Flor Divina (Fortaleza – CE, 11ª Região)
Colaboradores: Mestre Manoel Gomes da Silva (Núcleo Cajueiro Pequenino, Cascavel – CE, 11ª Região), e Mestre Cleiton Sena Silva (Núcleo Mestre Pojó, Extrema – distrito de Porto Velho – RO, 1ª Região).
Nota do autor: Esse texto foi escrito com base em uma entrevista feita pelo Mestre Manoel Gomes com o Mestre Zeca Eliseu, no distrito de Extrema – RO, no Núcleo Mestre Pojó, e também contou com a colaboração da família do Mestre Zeca.
**jarinauá é o conjunto de diversas palmeiras da espécie jarina juntas. Essa é uma espécie nativa da Amazônia e facilmente encontrada próxima de igarapés.
Português
