50 anos do Núcleo Apuí: a expansão da UDV no nordeste do Brasil
Luisa Marques Torreão Sá Lasserre*
| 2 Julho, 2026

Todo começo tem uma história e toda história tem um começo. É como uma árvore que nasce de uma pequena semente — semente que brota nos galhos de outra árvore. Nasce feito um cipó, crescendo do alto até a base do tronco que o hospeda; começa a fincar raízes que logo descerão mais fundo e se tornarão resistentes. Dentro de algum tempo, a árvore original se transformará: o Apuí terá abraçado e tomado conta dela por inteiro, mostrando a força que a natureza tem.
Como a frondosa árvore que lhe dá nome, o Núcleo Apuí chega aos 50 anos com raízes bem consolidadas na história da União do Vegetal (UDV), sendo o primeiro de todo o Nordeste e anterior até mesmo à formação da 4ª Região, onde está localizado — que também este ano completou, em março, 40 anos de criação, sendo hoje a maior Região em número de sócios. Não é um Núcleo que teve início como hoje vemos acontecer: um desmembramento de outro Núcleo com um terreno próprio e pelo menos três Mestres, membros da Direção e do Corpo Instrutivo. Em 1976, quando a nossa história de expansão pelo Nordeste começou, estava prestes a fazer apenas cinco anos que o Mestre Gabriel havia desencarnado. A UDV era uma religião recém-criada, ainda se estruturando.
Foi no dia 2 de julho daquele ano, em pleno feriado da independência da Bahia, que um dos discípulos que receberam a Estrela de Mestre das mãos do Mestre Gabriel, Raimundo Nonato Marques, chegou a Salvador em busca de recomeçar a vida. Ele pertencia ao Quadro de Mestres do Núcleo Caupuri, em Manaus-AM, e trazia 10 litros de Vegetal e uma cópia do Estatuto do Centro, entregues por Mestre Florêncio, seu tio. Nonato tinha como propósito cumprir o que escutou dele: “Vai e cria um Núcleo lá na Bahia”. Foi o que ele fez.
A palavra dita pelo M. Florêncio encontrava ressonância na própria palavra do Mestre Gabriel, que, em 1971, havia falado a seu irmão Antônio Gabriel que um dia teria um Núcleo na Bahia e ele seria Mestre. Antônio, que pensava não saber sequer falar direito, ouvia aquilo como algo muito difícil e distante de acontecer. Só alguns anos depois, comprovaria a certeza do que escutou do irmão.
A Bahia, afinal, tem um diferencial por ser a terra onde nasceu José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel, e onde sua família de origem permaneceu morando por muitos anos — ainda hoje com alguns descendentes. Foi por conta disso que, em março de 1971, o Mestre aqui retornou para rever os familiares, abraçar mais uma vez a mãe e os irmãos e contar a eles que havia criado uma religião no norte do país.

Nessa ocasião, ele trouxe uma pequena quantidade de Vegetal, que bebeu com seu irmão Dionísio, segundo relata Lourdes da Costa, filha do Dionísio. Era a primeira vez que a União chegava a terras baianas, mas ainda não de forma definitiva. O Mestre Gabriel ficou poucos dias e precisou retornar. Os discípulos o aguardavam em Manaus e Porto Velho.
Assim, quando Nonato chegou, no dia 2 de julho de 1976, dava continuidade a toda essa história e, ao mesmo tempo, o primeiro passo para a construção de algo novo, um Núcleo que expandiria a União do Vegetal por todo o nordeste do Brasil. Naquele mesmo dia, encontrou-se com Marival, que tinha se associado ao N. Caupuri. Com a presença dele e de alguns conhecidos, realizou-se a primeira Sessão no dia 2.
Na casa onde Nonato se hospedou, no bairro da Boca do Rio, aconteceram as primeiras Sessões, e foi também aonde chegou um dos primeiros discípulos, Hírcio Peixoto, que deu importante suporte para a continuidade dos trabalhos. No apartamento dele, no bairro da Barra, foi feita a primeira Sessão do dia 22 de julho, aniversário da União do Vegetal.
Depois disso, o Vegetal foi suspenso na Bahia pela Sede Geral e passaram-se alguns meses sem Sessões, até que Augusto Queixada, discípulo da época do Mestre Gabriel, que estava afastado, ficou mandando Vegetal, sem uma vinculação direta. As Sessões não tinham lugar certo para ser realizadas; algumas vezes, ia-se às praias. “Se não chover, tem Sessão”, brincavam — falando sério. E, ainda assim, a turma animada não passava uma semana sem se reunir.
Em meados de 1977, o Mestre Roberto Souto foi o primeiro Mestre da Origem a visitar a irmandade. Pouco depois, em novembro, os primeiros irmãos da Bahia viajaram às cidades de Feira de Santana e Pé de Serra para encontrar a família de origem do Mestre Gabriel, o que possibilitou a Antônio Gabriel, que já tinha participado de Sessões em Porto Velho e Manaus, tornar-se um dos sócios fundadores do N. Apuí. O primeiro Preparo de Vegetal aconteceu nos primeiros dias de 1978, com uma mensagem trazida de Rondônia por Anchieta.
A primeira sede
Com a decisão de que só haveria Sessão quando tivessem um local apropriado, uma casa foi alugada no bairro de Itapuã. Ali estabeleceu-se a primeira sede do Núcleo, no primeiro semestre de 1978. A primeira Sessão foi também quando todos vestiram a camisa verde do uniforme.
Mestre Anchieta conta que o primeiro Preparo feito na casa de Itapuã não teve cobertura contra a chuva e a fornalha foi um simples buraco cavado no chão e rodeado de blocos, onde ficavam panelas pequenas de 40 litros. Naquele local, chegaram novos irmãos para dar continuidade à obra. Era tudo muito simples, com poucos recursos, mas muita vontade de conhecer aquele novo mundo (da Hoasca) que se apresentava para eles.
Foi ali que a irmandade voltou a ficar ligada à Sede Geral da União do Vegetal. Em 22 de maio de 1978, Raimundo Nonato Marques foi designado responsável pela Distribuição Autorizada de Vegetal de Salvador. E, em 2 de novembro, a Sede Geral autorizou a criação do Núcleo Apuí. O registro foi feito com 17 sócios fundadores, que frequentavam à época, tendo a primeira Diretoria eleita e Nonato como Mestre Representante. O nome do Núcleo foi escolhido por ter sido um pedido do M. Florêncio, pela ligação com o Núcleo Caupuri.
Em junho de 1978, Mestre Pequenina visitou a irmandade e dirigiu uma Sessão na casa de Itapuã. Ela foi a primeira a ir a Pé de Serra e conhecer os familiares de seu esposo, inclusive sua sogra, dona Prima — acompanhada por sua filha Jandira e Édison Saraiva, que pertencia ao Corpo do Conselho.
Na época, o Mestre Geral Representante era o Mestre Janico, que foi quem autorizou a criação do N. Apuí. Ele veio na sequência, em agosto de 78. Durante a estada, dirigiu Sessões, viajou a Pé de Serra e convocou Antônio Gabriel e Anchieta para o Corpo do Conselho. Após M. Janico ter retornado para Porto Velho, Nonato também convocou Antônia e Alberto Herrera para o CDC, formando ali os primeiros Conselheiros do Núcleo Apuí.

Terreno atual
A casa alugada em Itapuã sediou o N. Apuí até 1980. Ainda nela, houve a primeira entrega de Estrela de Mestre, em 10 de fevereiro daquele ano, a Idevaldo Marques. Com a chegada de Sérgio Hazim à União, ele doou o terreno localizado no município de Lauro de Freitas para ser a sede definitiva do Núcleo. O Templo começou a ser construído em junho de 80, sob a responsabilidade de Alberto Herrera, e foi inaugurado em 22 de julho do mesmo ano, quando Alberto também recebeu a Estrela. Antônio Gabriel foi convocado na sequência, em 1º de novembro de 1980, e Anchieta, no dia 10 de fevereiro de 1981. Em visita ao Núcleo, o Mestre Luís Cardoso foi quem identificou um pé de Apuí já existente no terreno.
Depois de Nonato, o primeiro Mestre a assumir a Representação do Núcleo foi o Mestre Anchieta, que ocupou o lugar por quase 14 anos, distribuídos entre períodos diferentes. Também já estiveram à frente da Representação os Mestres: Noé, Renato, Laert, Alessandro, Virgílio e, agora neste triênio, Alexandre Rosa. Do Apuí, nasceram diretamente, como desmembramento, os Núcleos: Serenita (1986), Reis Magos (1989), Vento Divino (1998) e Mestre Antônio Gabriel (2018); além dos Núcleos que ajudou a formar no Ceará (N. Tucunacá) e em Pernambuco (N. Cajueiro).
Ao longo dos anos, muitas coisas aconteceram e muitas mãos trabalharam juntas em obras e reformas no nosso espaço físico, mas, bem mais importante, em prol da transformação na vida de cada um. Neste lugar, pessoas chegaram e escutaram a palavra de Jesus trazida pelo Mestre, aprenderam o valor da família e, assim, seguem no propósito de manter a raiz da União do Vegetal em solo firme. Tristezas e alegrias compõem a história deste Núcleo, um dos mais antigos da União do Vegetal, para hoje termos um ambiente bem cuidado, com 158 sócios, muitas famílias, crianças e jovens.
É uma história de meio século, um tempo de maturidade, mas ainda em construção — e o trabalho continua. Muitos irmãos já passaram pelo N. Apuí, que tem a característica de formar pessoas e dirigentes, alguns dos quais hoje estão em outros lugares, dentro e fora do país, dando continuidade ao que aprenderam. É também um Núcleo que sempre se renova, com gente chegando e fortalecendo a irmandade neste trabalho de união. É mais uma casa do Mestre, sempre aberta a receber quem precisa. Raiz e tronco fortes deste nosso frondoso Apuí.
Neste momento em que o Núcleo Apuí completa 50 anos, o principal sentimento que me vem ao coração é o da beleza e da grandeza deste lugar de transformação. É muito bonito ver pessoas que chegam aqui, muitas vezes com a vida completamente atrapalhada, e que, por meio da luz da Hoasca e desta doutrina sagrada, conseguem transformar suas vidas. Muitas delas, inclusive, passam a servir à obra, assumindo responsabilidades e ajudando outros irmãos no mesmo caminho. Eu me sinto privilegiado por fazer parte desta sagrada ordem e grato por todos os benefícios que venho recebendo ao longo desta caminhada.
O aniversário do Núcleo representa, para mim, um momento de grande importância, não apenas na minha vida e da minha família, mas também na vida de tantas pessoas que chegam aqui precisando de luz, de orientação e de amparo. E encontram irmãos dispostos a estender a mão, dando continuidade a este trabalho sublime deixado pelo nosso Guia Espiritual, Mestre Gabriel.
Nestes 50 anos, meu sentimento também é de profunda gratidão aos fundadores e a todos aqueles que deram início. Pessoas que chegaram quando não havia nada e precisaram construir tudo com muito esforço, dedicação e fé. Hoje nós chegamos e encontramos uma estrutura consolidada, preparada para receber cada pessoa da melhor maneira possível. Por isso, temos o dever de reconhecer o valor daqueles que vieram antes de nós e de zelar por esta obra, para que ela continue cumprindo sua missão de transformar vidas e levar paz, amor e orientação a todos que aqui chegam.
Que o Mestre Gabriel, nosso Guia Espiritual, continue sempre presente em nossas vidas.
Mestre Alexandre Rebouças Rosa**

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*Luisa Marques Torreão Sá Lasserre é diretora-adjunta do Departamento de Memória e Comunicação da Diretoria Geral e integra o Corpo do Conselho do N. Apuí (Salvador-BA, 4ª Região).
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** Alexandre Rebouças Rosa é Mestre Representante do Núcleo Apuí (Salvador-BA, 4ª Região).
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