A maternidade como caminho de evolução espiritual: a vivência da Conselheira Béia
| 10 Maio, 2026

Ana Beatriz Guedes Neves, conhecida no âmbito da União do Vegetal como Conselheira Béia, é um testemunho de dedicação à família e à maternidade. Sua vida tem números que chamam atenção e revelam uma rotina de entrega.
É mãe de 9 filhos (alguns gestados, outros que a vida generosamente colocou em seu caminho), avó de 17 netos (e mais um que chega em junho) e bisavó de 3 bisnetos.
Em uma entrevista concedida aos irmãos Vitor Mesquita e Fábio Gabriel, C. Béia falou um pouco da sua trajetória como mãe, e trouxe finos conselhos falando simplesmente de sua própria vida e escolhas.
Neste Dia das Mães o Blog da UDV* escolheu reunir os principais pontos daquela entrevista e compartilhar experiências importantes de serem resgatadas pelas mães, como a presença verdadeira, rotina, disciplina, intuição e fé.
A trajetória da Conselheira Béia revela uma forma de viver a maternidade que vai além do cuidado cotidiano. Trata-se de um caminho em que a espiritualidade se revela e vai sendo construída nas escolhas simples do dia a dia, com presença e confiança em Deus.
Casou-se jovem, com seu companheiro de jornada, Mestre Edison Saraiva, e cedo decidiu que sua principal missão seria cuidar dos filhos. Abriu mão de ter uma carreira profissional para estar acompanhando de perto o crescimento deles. Não foi uma decisão fácil do ponto de vista material. Como ela disse: “Passamos muito aperto, porque era só o Edison trabalhando. Financeiramente não era fácil, mas a gente dava um jeito. Fazendo de coração, Deus não deixa faltar”.
Para ela, essa presença não é apenas física. É atenção, escuta ativa e convivência. Brincar com os filhos, participar das atividades, criar momentos dentro de casa – tudo isso constrói vínculos que sustentam a família ao longo do tempo. Ao olhar para trás, ela é direta:
“Não me arrependo nem um minuto. Eu brinquei muito com meus filhos; brinquei mesmo, de tomar banho de chuva, de acampar, tomar banho de cachoeira. Sempre aproveitei muito a presença deles e procurei dar o meu tempo realmente para eles”.
Intuição: um chamado espiritual
Um dos pontos mais marcantes da entrevista é quando ela fala do valor da intuição na maternidade. Para a Conselheira Béia, essa capacidade não é apenas emocional – é espiritual. É um canal de percepção que precisa ser cultivado e que a rotina corrida da vida moderna tem sacrificado. Ela observa que a correria dos tempos atuais tem afastado muitas mães dessa escuta interior: “A intuição é Deus mandando recado: ‘Olha teu filho’”.
Dentro disso aconselha que as mães mantenham o coração aberto e o pensamento elevado, especialmente nos momentos de recolhimento: “Se você dorme com um pensamento voltado para ele, você recebe o que teu filho está precisando”.
Ela fala de uma prática importante e fina: a ligação da maternidade com a espiritualidade. Não se trata de controlar tudo, mas de estar disponível para perceber e agir no momento certo, movida por essa ligação com o Superior.
Fé como sustentação
A base dessa construção é a fé. Influenciada pela mãe, que tinha forte religiosidade, Conselheira Béia conta que desenvolveu uma confiança constante em Deus e em Nossa Senhora. Para ela, viver sem essa referência torna a caminhada mais difícil: “A vida aqui neste planeta sem acreditar numa força superior fica difícil”.
Essa fé não é abstrata. Ela se expressa na oração diária, no pedido de orientação e na entrega dos desafios. Reconhece que não pode resolver tudo na vida dos filhos, mas pode oferecer presença, apoio e oração: “A gente pode estar perto, ser um abraço, um apoio moral”.
Criar é melhorar o que se recebeu
Outro ponto central da visão da Conselheira Béia é a continuidade entre gerações e a melhoria sempre. Para ela, cada pai e cada mãe recebem uma história – com acertos e falhas – e têm a oportunidade de fazer melhor. Seu objetivo sempre foi claro: “Quero fazer melhor do que meu pai e minha mãe fizeram”.
E projeta isso para a frente: deseja que os filhos façam melhor do que eles fizeram, e os netos melhor ainda. A maternidade, assim, se torna um processo contínuo de aperfeiçoamento.
Neste sentido, traz outro conselho fino: conhecer a história de vida do nosso pai e da nossa mãe, dos que vieram antes, nos dá alguma chance de compreender melhor determinados comportamentos e encontrar um caminho para o perdão e para a transformação.
“Depois que cresci, fui querer saber a história da minha mãe, como foi a criação dela. Ela sofreu algumas coisas. Aí comecei a entender. Tenho falado para algumas pessoas: vai procurar saber a história da tua mãe, vai procurar saber a história da tua avó, porque é uma sequência. Esse resgate com os pais é muito importante para a gente ir melhorando. Somos seres humanos, pessoas ligadas a pessoas, e temos que encontrar um jeito de viver, achar bom, superar.”
Rotina, disciplina e vigília: estrutura que educa
Na prática do dia a dia, a Conselheira Béia destaca a importância da rotina como base da educação. Para ela, a disciplina não se ensina apenas com palavras, mas com exemplos. Horários definidos, organização da casa e participação dos filhos nas tarefas domésticas eram parte natural da vida familiar. “Se você não tem uma rotina, seu filho não vai ter.”
A rotina não é rigidez, é direção. É o que permite dar conta das responsabilidades e formar hábitos que acompanham a vida adulta.
Na adolescência dos filhos, sua postura se manteve ativa e vigilante. Não delegava totalmente a formação dos filhos ao ambiente externo. Acompanhava de perto, observava, orientava. Sua visão é direta: a responsabilidade começa dentro de casa. E isso exige atenção constante, mesmo quando não é confortável.
“É bom também a gente desconfiar do filho da gente. Esse papo de ‘meu filho está em má companhia’, a ‘má companhia’ sempre é o outro, nunca é o nosso?! Eu revistava as mochilas deles, armário. Privacidade lá em casa nunca teve e eu não me arrependo.”
O servir
Conselheira Béia associa a maternidade ao serviço. Cuidar da família, acolher pessoas, ajudar quem precisa – tudo isso faz parte da mesma missão. Ela resume este princípio de forma simples: “Quando a gente serve, a gente está servindo a nós mesmos”.
Servir, para ela, é uma forma concreta de sentir a presença de Deus. Aprendeu com seus pais a servir e agradecer. Chegando à União logo se inspirou em Pequenina, Dionéia e Guiomar – Conselheiras que iniciaram os trabalhos da UDV em Porto Velho –; elas, e tantas outras nobres senhoras, que logo mostraram como fazer, reforçando a lição dos seus pais: “se faz o bem sem olhar a quem”.
A experiência da Conselheira Béia mostra que criar filhos é, também, um caminho de crescimento espiritual. Não há fórmulas prontas, mas há princípios: presença, fé, atenção, disciplina e serviço.
Em um tempo com muitas informações, fórmulas prontas e técnicas, seu exemplo aponta para algo essencial: a simplicidade vivida com constância e consciência. Uma maternidade que não faz barulho, mas constrói uma base sólida. E talvez seu ensinamento mais forte esteja justamente nisto: no que não precisa de grandes manuais, mas se revela no cotidiano bem vivido, dia após dia, nas pequenas coisas do dia a dia.
>> Veja a entrevista completa no YouTube clicando aqui.
*Equipe do Blog da UDV. Colaboração das irmãs Tainara Bomfim, mãe de cinco filhos, membro do Corpo Instrutivo do Núcleo Rei Hoasqueiro (8ª Região – Brasília/DF), e Renata Neves Pequeno, mãe de dois filhos, filha da C. Béia e do M. Edison Saraiva, e sócia na Sede Geral.
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