Conselheira Francisca: a primeira professora
| 4 Maio, 2026

Na travessia do tempo que forma os alicerces da União do Vegetal, algumas pessoas se tornam marcos vivos. Não por cargos ocupados ou palavras bonitas, mas pelo que fizeram com silêncio, firmeza e coração aceso na fé alimentada pela obra do Mestre Gabriel.
A Conselheira Francisca, conhecida como a primeira professora da Escola 22 de Julho, foi uma dessas presenças significativas e silenciosas na União do Vegetal. Em 15 de outubro de 2025, aos 91 anos, ela fez a passagem deste plano deixando o seu legado.
Em homenagem aos 92 anos que faria no 17 de abril passado, o Blog da UDV traz um texto do Mestre Silas Paixão que conta um pouco da história de vida dessa distinta senhora:
Francisca dos Santos Macedo, a Conselheira Francisca, nasceu no dia 17 de abril de 1934, em Afonso Pena, hoje Acopiara, no estado do Ceará. Era uma dos seis filhos de Seu Joaquim Miguel de Santana e Dona Irineia Josefa do Espírito Santo. Moravam em casa de taipa e viviam da lavoura. Francisca chegou a estudar em um lugarejo ali perto, onde aprendeu as primeiras letras do alfabeto.
A vinda para a Amazônia
Francisca tinha um caderno de anotações e nele deixou registrado alguns acontecimentos de sua vida. Segundo registrou, em 1943 uma grande seca assolou a região onde a família morava no Ceará. Não havia água, os rios e as lavouras secaram e, sem recursos para manter a sobrevivência, seu Joaquim resolveu alistar-se como Soldado da Borracha e embarcar com a família para a região amazônica, para trabalhar na extração do látex da seringueira. Francisca tinha então oito anos de idade. Embarcaram no porto de Fortaleza/CE, no navio Pará, do Lloyd Brasileiro, a mesma embarcação que tempo depois transportaria José Gabriel da Costa – o Mestre Gabriel. Todas as despesas de vestuário, alimentação e tratamento de saúde eram mantidas pelo governo brasileiro até que as pessoas se instalassem.
A viagem, em plena Segunda Guerra Mundial, foi uma aventura. Durante o trajeto, houve uma epidemia de sarampo, na qual algumas crianças faleceram, e, por não haver condições para sepultamento, os corpos eram lançados ao mar, no Oceano Atlântico. Certa noite, houve também um grande alvoroço: avisaram que um submarino alemão rondava o navio, perseguindo-o com o objetivo de afundá-lo. Mães rezavam e choravam; apagaram-se as luzes e o navio parou em alto-mar, entre o Ceará e o Maranhão. A viagem continuou sob a vigilância de aviões aliados, e, ao chegarem ao porto de São Luís/MA, houve a necessidade de trocar de embarcação, passando para o navio Siqueira Campos.
Chegando a Belém/PA, houve vacinação para todas as pessoas. Havia muitos doentes e foi necessário esperar alguns dias para continuar a viagem. Embarcaram em um navio pequeno que seguiu pelo rio Solimões até Manaus/AM, onde permaneceram por alguns dias e realizaram exames médicos. Depois seguiram em embarcações menores pelo rio Acre, até o então território do Acre, onde foram viver nos seringais. Seu Joaquim faleceu de malária em 1945, ficando dona Irineia viúva, com três filhos, pois outros três já haviam falecido.
O encontro com o Mestre
Francisca continuou seus estudos e concluiu o 2º grau em pedagogia, já em Porto Velho, à época, Território Federal do Guaporé. Casou-se com José Raimundo Macedo, e tiveram três filhos: Francisco, José Raimundo e João Bosco. Residiam na Rua Benjamin Constant em Porto Velho, nº 1403, bairro Olaria, bem próximo da casa de Mestre Gabriel e da Mestre Pequenina. Com esforço e muita luta, Francisca ingressou no Magistério. Francisca e sua irmã, Josefa Miguel dos Santos, lecionavam na Escola Samaritana, no bairro Olaria.
O filho caçula de Francisca precisou de um curador por motivo de uma doença para a qual a medicina não tinha cura. Ele tinha três anos de idade. Indicaram a ela a casa de Mestre Gabriel. Ao chegar, perguntou: “Aqui mora um curador que cura criança?” Ele respondeu: “Sim, senhora.” Então a convidou para entrar e ofereceu um banquinho para que se sentasse com a criança. Pediu à sua companheira (Mestre Pequenina) que trouxesse uma colher de Vegetal em um copo, e deu à criança. A partir daquele dia, seu filho ficou curado.
Nesse mesmo ano, Francisca recebeu um convite para comungar o Chá Hoasca, por meio de suas amigas dona Eulália Castelo Maia e sua mãe, Antônia Castelo. Quando chegou ao endereço onde serviam o Vegetal – rua Abunã, nº 1215, no bairro Olaria -, viu que o dirigente dos trabalhos era o mesmo curador que havia curado seu filho. Era o dia 7 de maio de 1967. Francisca gostou da experiência e continuou frequentando as Sessões, associando-se no dia 27 de junho do mesmo ano. Ela conta que:
“A casa de Mestre Gabriel era uma casinha pequena, coberta de palha em uma parte e de telha em outra. Não havia móveis, pois haviam chegado do interior. Havia uma mesa e dois grandes bancos que os discípulos Antônio Cavalcante de Deus (apelidado Gia) e José Luiz de Oliveira haviam providenciado. A salinha ficava cheia de pessoas que vinham comungar o Vegetal, onde o Mestre Gabriel, chamando, ensinando e mostrando a burracheira — grande riqueza de conhecimento espiritual — dizia a todos que toda a sabedoria que tinha era para distribuir com seus discípulos. Assim, podia-se entrar nos encantos da Natureza Divina e ver as maravilhas do Vegetal. Viajávamos na burracheira a outros países, falávamos com nossos parentes em outros estados. Vínhamos às nossas casas ver nossos filhos. Repleta de uma força e de uma luz tamanha! Assim eram as Sessões dirigidas pelo nosso Mestre Gabriel”.
A primeira professora
Devido às idas e vindas aos seringais, os filhos de Gabriel e Pequenina — Jandira, Carmiro e Salomão — estavam com dificuldades em acompanhar a escola. Sabendo que Francisca era pedagoga e lecionava no Território do Guaporé, o Mestre a convidou para ensiná-los em casa, como reforço escolar. A ideia alcançou a vizinhança e 18 crianças passaram a frequentar a “Escola 22 de Julho”, que funcionava na sede da União do Vegetal, recebendo lições das professoras Francisca e Josefa. Isso ocorreu em 1968, e Francisca recorda que o Mestre mandou colocar uma placa na frente da casa onde dizia “Escola Particular”.
Certa vez, com autorização do Mestre Gabriel, Francisca organizou uma festinha infantil no Dia das Crianças, com um concurso que elegeria a rainha da escola. A festa foi realizada em frente à casa, com um palanque para a coroação das meninas Jandira, Érica Mendes e Ana Maria, respectivamente rainha, 1ª princesa e 2ª princesa, coroadas com coroas, faixas branca, rosa e azul, e vestidos na cor da faixa. Mestre Gabriel tirou fotografias com sua filha, muito feliz, sorrindo com os filhos e os discípulos, alegre por aquela vivência.
A Escola 22 de Julho funcionou por aproximadamente um ano, até que a diretora de Educação e Cultura do Território do Guaporé, Marise Castiel, soube que estavam lecionando no “mariri”, como a seita era conhecida na cidade naquela época. Então, uma comissão de técnicos em educação visitou a escola para verificar as condições, com a finalidade de incluí-la na rede escolar de ensino, pois havia grande necessidade de escolas. Contudo, devido à limitação do espaço físico, não houve aprovação, e a escola precisou ser desativada naquele momento.
Confiança no Mestre e caminhada na União
Em sua caminhada, Francisca tomou uma difícil decisão. Seu marido não seguia na União e censurava sua caminhada, maltratando-a. Após refletir bastante, decidiu separar-se. Alguns dias depois, foi comunicar ao Mestre Gabriel, pedindo um conselho se deveria voltar com o marido, mesmo com os maus-tratos, pois achava penoso criar os filhos sozinha. Mestre Gabriel lhe deu forças, dizendo que ela tinha condições de criar os filhos caso desejasse manter a decisão. Com essa palavra, ela se fortaleceu. Enfrentou muitas dificuldades, mas criou os filhos sozinha, sustentou a casa com seu trabalho e nunca se afastou da União do Vegetal.
Francisca relata que Mestre Gabriel demonstrava cuidado e carinho com as mulheres, dentro e fora das Sessões: “Mestre Gabriel era uma pessoa de grande educação, um homem educadíssimo, que tinha grande respeito pelas mulheres nas Sessões.”
O Mestre chamava Francisca e Josefa de “professoras” e pedia aos discípulos que as buscassem para as Sessões e os trabalhos. Josefa faleceu em 14 de abril de 1994, aos 54 anos de idade. Francisca lembra dela como uma pessoa muito dócil, que falava pouco e com muita calma:
“Chegamos à União do Vegetal no mesmo dia e hora, pois morávamos perto. As mesmas experiências que eu passei, ela também passou, pois éramos muito unidas. Mestre Gabriel a observava nas Sessões, e, algumas vezes, colocava uma música chamada “Lionora”, que trouxe da Bahia quando esteve lá em 1971. Ela tinha o apelido de Lionora, e ele achava engraçado aquela pessoa tão quieta”.
Em 22 de julho de 1970, Mestre Gabriel anunciou o concurso para Mestre, no qual os discípulos deviam contar a história da Hoasca. Algumas mulheres participaram, incluindo as irmãs Francisca e Josefa, além de Eulália e Dionéia. “Dirigimos Sessões contando a História da Hoasca, Josefa no dia 8 de dezembro de 1970 e eu no dia 12 de dezembro de 1970.
Professora por vocação, Francisca era reconhecida por sua alegria, carinho, prestatividade e sabedoria. Carinhosamente chamada de “Nenen” por sua família, era uma Conselheira respeitada da União do Vegetal, onde encontrava paz e espiritualidade. No dia 6 de janeiro de 1972, ela e Josefa receberam o direito de usar uma lua nova bordada em branco no uniforme, como símbolo de Organ. Foi convocada ao Corpo Instrutivo no dia 20 de novembro de 1972 pelo Mestre Monteiro e ao Corpo do Conselho no dia 10 de fevereiro de 1975 pelo Mestre Janico. Aos 91 anos, seguia na União e estava associada ao Núcleo Mestre Gabriel (Porto Velho-RO), quando fez a passagem no dia 15 de outubro de 2025, deixando sua contribuição pioneira à primeira escola da União do Vegetal.
*Silas Paixão pertence ao Quadro de Mestres do Núcleo Estrela do Norte (1ª Região, Porto Velho/RO).
Colaboração: Mestre Ricardo Teixeira pertence ao Quadro de Mestres do Núcleo Mestre Iagora (1ª Região, Porto Velho/RO).
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