Inácia Romero do Nascimento: uma rosa no jardim da saudade

| 9 Março, 2021

Fabiana Campos Ferreira de Queiroz*

Dona Inácia Romero | Arquivo familiar.

“Num mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo.”
Antoine de Saint-Exupéry

Começo este texto lembrando de uma história que o Mestre Gabriel costumava colocar nas Sessões e que traz uma forte mensagem sobre a amizade. Trata-se da história do Pequeno Príncipe. Assim como o príncipe da história, que se sente responsável e cativado por uma rosa, me senti cativada e criei laços de amizade com uma pessoa singular e especial que conheci numa dessas idas e vindas proporcionadas por esta força de fraternidade e irmandade presente na União do Vegetal. Essa pessoa, que vivia neste imenso jardim, cheio de flores e rosas, e que teve uma vida dedicada à família e contribuiu com sua presença nos Núcleos que frequentou, atendia pelo nome de Inácia Romero do Nascimento**, ou simplesmente dona Inácia.

Pessoa extremamente agradável, que adorava cuidar das flores, cultivava seu lindo jardim, que era sua inspiração, e assim vivia a sua vida, com simplicidade e leveza, sempre enxergando e percebendo a verdadeira beleza da vida. E, ao estar sempre próxima das flores, sabia, intrinsecamente, que aquele tempo de dedicação a suas rosas, a suas flores, ao seu jardim, foi o que fez dela um ser tão especial, semelhante ao citado na obra do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Nunca tínhamos nos encontrado ou nos falado, mas, desde o primeiro momento, nasceu entre nós uma amizade sincera, que sei que continuará em outros tempos, pois a nossa jornada é extensa e repleta de encontros e reencontros, nos fazendo compreender que cada vez mais o que devemos fazer em nossas vidas é “desatar os nós e estreitar os laços”, como costumava dizer seu esposo e companheiro, Mestre Bartolomeu. Esses laços, se bem cuidados e conservados, nos servirão de abrigo e aconchego em outras existências.

Dona Inácia sempre foi uma mulher discreta, séria, mas com um semblante alegre, cativante. Ao lado de um grande homem, Mestre Bartolomeu, portou-se também como uma íntegra e grande mulher. Pessoa de grande valor que por diversas vezes abdicou de momentos familiares e pessoais para trabalhar por um bem maior, ao lado do seu marido, considerado um guia e um Mestre de tantas pessoas que necessitavam de atenção, orientação, apoio e amor.

Muitas dessas esposas, companheiras de Mestres, têm uma presença discreta, reservada e modesta, a exemplo de dona Inácia, que se mostrava sempre quieta, porém, ainda que sem chamar tanta atenção, estava presente e sempre pronta para auxiliar, dando conselhos, distribuindo sorrisos, espalhando amor e semeando bondade entre as pessoas que com ela conviviam. Essas virtudes, demonstradas nas longas e poucas conversas que tivemos, conquistaram minha amizade e cativaram o meu coração.

“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”

Por ter um bom coração e enxergar as coisas com o sentimento, teve o privilégio de conhecer o Mestre Gabriel e descobrir que tinha encontrado o seu lugar. Esse encontro mudaria para sempre sua vida e a faria participar de momentos importantes, únicos e sublimes, como o início e a fundação do Núcleo Mestre Ramos, em Ariquemes, e do Núcleo Rei Inca, em Goiânia, onde sua presença contribuiu para iluminar a vida de muitas pessoas que ali chegaram.

Transmitindo tranquilidade e segurança, ao cuidar bem de sua família, auxiliou o Mestre Bartolomeu no cumprimento de sua missão, sempre com uma presença discreta e pacífica. Teve uma trajetória de vida bem trilhada, deixando marcas permanentes em seus familiares e também fazendo parte da história da nossa UDV.

E assim fez também com todos aqueles que viveram próximo dela, amigos, familiares e irmãos da União. Se dedicou, de alma e coração, ao seu marido, Mestre Bartolomeu, aos seus filhos Azilda Ellena Cordahi, Waldivino Romero do Nascimento e Reissalo, e aos netos Sammy e Ana Clara. Mostrou ser uma mulher de fibra e determinada, quando ainda jovem, aos 37 anos de idade, perdeu seu companheiro e teve de batalhar para criar seus filhos. Mesmo assim, continuou zelando e cuidando do lar, seu eterno jardim, com tanto amor e dedicação que sabe, onde estiver agora, que deixou plantada na terra bons, valorosos e valiosos frutos.

“A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar.”

Foi tudo isso que percebi dela desde o primeiro momento em que a conheci, numa das visitas ao Núcleo Príncipe Ancarilho, em Guarapari-ES. Naquela ocasião, conversamos muito e, daquele momento em diante, nasceu uma verdadeira e sincera amizade, que continuou regada por meio de palavras meigas e sinceras ou mensagens respeitosas e amorosas.

Por isso, sempre que ouço a história ou leio o livro do Pequeno Príncipe, lembro-me da irmã Inácia, de sua vida e de nossa amizade e, assim como ele, posso dizer também: “Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”. Sei que ela deixou um pouco de si em muitos de nós e levou consigo muitas coisas de todos nós.

Aqui, por intermédio destas poucas palavras, fica minha eterna gratidão e singela homenagem a uma amiga muito especial que jamais sairá de minha memória, e que merece ser lembrada como uma mulher que desempenhou e cumpriu seu papel como amiga, esposa, mãe e, principalmente, discípula do Mestre Gabriel neste imenso jardim desta Obra Sagrada União do Vegetal.

*Fabiana Campos Ferreira de Queiroz é integrante do Corpo do Conselho do Núcleo Pau D’Arco e coordenadora do DMC da 10ª Região.

**Inácia Romero do Nascimento fez a passagem no dia 13 de janeiro de 2021, aos 71 anos de idade, em Vila Velha-ES. Inácia pertencia ao Corpo Instrutivo do Núcleo Príncipe Ancarilho, Guarapari-ES, 5ª Região da UDV.

Foto externa: chegada da família de Mestre Bartolomeu e d. Inácia em Goiânia-GO | Foto: Gilson Vargas.