UDV faz doação de mudas de Mariri e Chacrona para o povo Guarani
Elis do Nascimento Silva*
| 1º Abril, 2021
No dia 26 de fevereiro de 2021, o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal realizou um importante movimento de doação de mudas de Mariri e Chacrona ao povo Guarani da Terra Indígena Amâncio, tradicionalmente denominada Tekoá Yvyju Mirim, localizada em uma área próxima ao Núcleo Luz Abençoada, em Tijucas, Santa Catarina. O povo Guarani tem na sua memória ancestral o uso tradicional e religioso do Vegetal pelos seus antepassados.
Devido aos trabalhos, pesquisas e iniciativas voluntárias que realizo com o povo Guarani há mais de dez anos como antropóloga, tenho cultivado laços de amizade e confiança com alguns indígenas desta etnia. Ao saberem do meu pertencimento à esta religião que faz o uso ritual do Chá Hoasca, uma amiga e liderança feminina guarani desta aldeia fez a mim um pedido de mudas de Mariri e Chacrona para plantarem em seu território, visto o conhecimento que possuem dos benefícios à saúde que estas plantas podem trazer para sua comunidade, atualmente composta por nove famílias.
Este pedido aconteceu em uma das visitas que fiz à esta aldeia para levar as doações de alimentos de uma campanha que o Departamento de Beneficência dos Núcleos Luz Abençoada e Estrela Dalva (Florianópolis- SC) realizou no início deste ano junto à irmandade, visando auxiliar nossos irmãos e famílias indígenas a encontrarem mais facilidade para atravessar este momento da humanidade.
Com a autorização e importante apoio do Mestre Assistente Geral, Paulo Afonso Amato Condé, do Mestre Central da 9ª Região, João Bosco Carneiro Xavier e do Mestre Representante do Núcleo Luz Abençoada, Leonardo Davi Pereira Machado, foi possível atendê-los com a doação de 50 mudas de Mariri e 20 mudas de Chacrona, as quais estavam sendo zeladas e cultivadas com amor pela equipe do Departamento de Plantio e Meio Ambiente (DPMA) no viveiro do Núcleo Luz Abençoada.
Contamos com o valoroso auxílio e acompanhamento do Coordenador Regional do DPMA, Mestre Saulo Augusto Teixeira (Núcleo Estrela Dalva), e do Mestre Artur Schneider Filho (Responsável pela Distribuição Autorizada de Vegetal de Imaruí – SC) para levar as mudas de nossas Plantas Sagradas para a aldeia, onde fomos bem recebidos com alegria pelo cacique e vice-cacique, suas famílias e crianças presentes.
A felicidade e o brilho nos olhos de nossos irmãos Guarani ao receberem essas mudas de Mariri e Chacrona ficaram gravados no meu coração, confirmando o quanto esse presente divino da natureza pode trazer esperança de dias melhores e a força da renovação para o nosso bem viver. Sinto-me grata e honrada em participar deste gesto especial de fraternidade da UDV ao povo indígena Guarani, que fica também registrado nesta bela história da 9ª Região e desta Sagrada Obra.
Meus agradecimentos às autoridades do Centro por atenderem a esse pedido, à prestimosa atenção do Mestre Assistente Geral Carlos Teodoro Irigaray, como também aos irmãos do Quadro de Mestre e à amiga Conselheira Maria Alice Corrêa (Núcleo Alto das Cordilheiras- Campinas-SP) que auxiliaram na realização harmoniosa deste movimento.
Ligação do povo Guarani com o Império Inca
O povo Guarani é uma grande nação indígena originária da América do Sul pertencente ao tronco linguístico Tupi e à família Tupi-Guarani, cujo território tradicional vai desde o litoral Atlântico até a região pré-andina. Atualmente, sua população é estimada em aproximadamente 280.000 pessoas, estando distribuída em comunidades localizadas no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia.
São reconhecidos entre os povos indígenas como guardiões das sementes de milho verdadeiro (avaxi ete´i), as quais salvaguardam e passam de geração em geração há milhares de anos até os dias atuais. Possuem uma forte espiritualidade que norteia todo o sistema de vida Guarani (o qual eles denominam Nhande Reko), fazendo parte de sua tradição o cuidado com a palavra, os cantos e cerimônias espirituais, a prática da agricultura tradicional e as caminhadas em seu território, tendo como uma das motivações a busca pela “Terra Sem Males” (Yvy Mara Ey).
Caminho de Peabiru
Um dos extensos caminhos antigos que faziam no continente antes da colonização européia é o Caminho de Peabiru (na língua tupi, “pe” – caminho; “abiru” – gramado amassado), uma rede de rotas que liga o litoral do Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico e possui conexões com estradas incas, tendo como um dos destinos principais a cidade de Cusco, no Peru. Segundo registros históricos e o que pude ouvir de um dos anciãos e reconhecida liderança espiritual do povo Guarani, hoje com 111 anos, eles realizavam este caminho até o Império Inca em busca de conhecimento espiritual e trocas de bens materiais, sendo presente na memória ancestral de seu povo o uso tradicional e religioso do Vegetal pelos seus antepassados.
*Elis do Nascimento Silva é integrante do Corpo Instrutivo do Núcleo Luz Abençoada (Tijucas – SC).