Os 109 anos do Mestre Vicente Marques

Giuliano Villa Nova *

| 6 janeiro, 2017

Mestre Vicente Marques em sessão no Núcleo Caupuri (Manaus-AM) | DMD/Núcleo Caupuri.

“Meus poderosos irmãos.” A frase é inconfundível para quem conheceu aquele senhor de olhos azuis, nascido há exatos 109 anos, em 6 de janeiro 1908. Mestre Vicente Marques da Silva, natural de Juazeiro do Norte, no interior do Ceará, tinha na afirmação – com a qual gostava de iniciar sua oratória, dentro das sessões da União do Vegetal – uma de suas marcas registradas. Também faziam parte de suas características pessoais a seriedade e a dedicação à família e ao trabalho.

Filho mais velho do casal João e Maria do Carmo, Vicente Marques teve uma infância humilde, ao lado dos outros nove irmãos – mais quatro homens e cinco mulheres. Ainda na infância, já ajudava o pai, que era pedreiro, a erguer casas e fornalhas de engenhos de cana-de-açúcar, que existiam às dezenas na região onde nasceu. Anos mais tarde, tornou-se escultor e especialista em artefatos de marmorite.

De acordo com relatos de quem conviveu com ele, tinha grande facilidade para mentalizar um trabalho a ser feito, e executar com perfeição aquilo que o cliente pedia. Algumas das obras que ajudou a construir estão expostas em locais públicos do Crato (CE) e de Manaus (AM), dentre outras cidades.

Família

Ainda jovem, Vicente Marques conheceu a simpática e sorridente Maria, que anos mais tarde ficaria conhecida em toda a União do Vegetal como Dona Mariquinha, que chegou a Corpo do Conselho. Superando muitas dificuldades, o casal trabalhou para construir uma grande família, que auxiliou a expandir a UDV pelo Brasil, ao longo dos anos.

No total, Vicente Marques e Mariquinha tiveram 22 filhos, sendo que 13 chegaram à idade adulta: Ivan, Ivaldo, Ivonete, Idevaldo, Raimundo Nonato, Cecília Maria, Ivânia, Aurenita, Júlio César, Vicente Filho, Francisco, Walker e Marlúcia. Todos eles conhecem a União do Vegetal e comungaram o Vegetal. Alguns ainda continuam inclusive fazendo parte da Direção da UDV. Dentre os filhos, destaca-se Raimundo Nonato Marques, que chegou a ser Mestre Geral Representante, mas hoje não está na UDV.

Mesmo com uma família tão numerosa, Vicente Marques – que a essa altura da vida já tinha se tornado maçom – e Mariquinha decidiram sair do interior do Ceará e se mudar para Cruzeiro do Sul, no Acre, onde Manoel Florêncio, pai dela, tinha uma fazenda. Esse trajeto percorrido pela família foi um acontecimento épico, que durou milhares de quilômetros, a bordo de um trem e de barco.

Encontro com Mestre Gabriel

Sem sucesso em terras acreanas, Vicente Marques resolve se mudar para Manaus, onde os cunhados Geraldo e Florêncio Siqueira de Carvalho já estavam estabelecidos. Foi na capital do Amazonas que o patriarca da família Marques tornou-se testemunha da história da Obra do Mestre Gabriel. Em 1967, ele participou da primeira Sessão realizada em Manaus. Naquela oportunidade, bebeu o Vegetal, distribuído pelo Mestre Florêncio (Florêncio Siqueira de Carvalho), junto com Ozélia (hoje Conselheira, companheira do mestre José Carvalho) e uma pessoa chamada Sávio.

Tempos depois, Vicente Marques conheceu o Mestre Gabriel pessoalmente, por quem tinha grande respeito e consideração. A recíproca era verdadeira, tanto é que durante algum tempo, foi designado como Representante do Mestre Gabriel, ficando como responsável pelo Vegetal em Manaus.

Ainda na presença do Mestre Gabriel em matéria, Vicente Marques chegou ao Corpo do Conselho. Anos mais tarde, chegou ao Quadro de Mestres, fazendo parte da Direção do primeiro Núcleo de Manaus, o Caupuri.

Os 80 anos

Um dos momentos mais marcantes de sua vida, segundo relatos de familiares, foi a comemoração do aniversário de 80 anos, que aconteceu exatamente na casa onde nasceu, em Juazeiro do Norte, em 1988. Na oportunidade, estiveram presentes todos os seus irmãos e irmãs, em uma celebração simples, mas muito alegre, como era a característica da família. Atualmente, apenas uma de suas irmãs, Maria de Lurdes, está viva.

Mestre Vicente Marques esteve por alguns anos enfermo e desencarnou em Manaus, em 1994, aos 86 anos. Naquela cidade, seu nome foi eternizado, com a criação do Núcleo Mestre Vicente Marques, em 30 de abril de 1997, um desmembramento do Núcleo Tiuaco.

Em breve, mais detalhes de sua rica história serão contados em um livro, que está em fase final de pesquisas e redação.

*Giuliano Villa Nova é integrante do Quadro de Mestres do Núcleo Tucunacá e monitor local do Departamento de Memória e Comunicação (DMC).