Mestre Braga: um discípulo obediente
Valéria Valim*
*19 janeiro, 2017
Nasceu entre nós um amor filial. “Não sei quem adotou quem”, como disse ele à um dos médicos da equipe que o assistiu em Brasília-DF.
Nestes anos que o assisti como médica, inteiramos 10 anos em 2016, só posso dizer que ele é obediente. Por sua obediência, conseguiu chegar a mais de uma década de diabetes, com boa visão, bom funcionamento dos rins, boa circulação, um bom coração. Se em algum momento, forçou a matéria, foi pela obediência à missão de servir a esta Sagrada Obra, nossa União do Vegetal. Quem anima a matéria é o espírito, e sua matéria refletia a força de seu espírito, sem esmorecer.
Já fazia um tempo, talvez 2 anos, que alguns sinais anunciavam um adoecimento e busquei por várias vezes, até com métodos invasivos, de rotina e mais modernos, alguma doença. Hoje sei que era seu organismo lutando para se manter em equilíbrio.
Lutou, como um comandante que sempre foi, em 18 dias de internação, nos ensinando a lutar, confiar, ser firmes, amorosos, pacientes, serenos e obedientes. Até mesmo os que o conheceram ali primeira vez, reconheceram um homem diferente, um grande homem.
Surpreendeu aos médicos que ainda não são da União do Vegetal, com sua consciência lúcida, que ficou clara todo o tempo apesar da anemia, falta de oxigênio, infecção, acumulo de toxinas pela falencia dos rins e uso de morfina. Uma matéria sem este grau de espírito estava sujeita a desorientação como primeiro sinal.
Seu Braga, nosso Mestre Braga, nosso amigo tão querido não se revoltou em nenhum momento, não reclamou, engoliu todos os comprimidos, fez o que era preciso e desejou felicidades à todos que ali chegavam para visitar ou cuidar.
Quando percebi que o tamanho da infecção pulmonar estava crescendo exponencialmente e se confirmou ser mesmo um fungo, mesmo ainda sem nenhum sinal de falta de ar, senti um frio na espinha, um aperto no coração e pedi ao Mestre que preservasse sua consciência e que o sofrimento fosse o menor possível.
Nestes anos, conversamos em alguns momentos que sua vontade era estar encarnado enquanto sua matéria estivesse em condições de cumprir sua missão, que não queria cano no corpo e que se fosse possível que o liberasse para desencarnar em sua casa. Não deu para estar em casa, mas sua casa veio até ele e pode sentir a presença de sua família unida.
Respondeu quando lhe perguntaram: Como está se sentindo hoje, Seu Braga? “Judiado, mas feliz! Feliz pela família que tenho!”. “Se algum não está aqui é porque não pode”. “Estamos eternamente ligados”.
Quando lhe contei que estava com uma leucemia aguda, ele disse que pedia ao Mestre Gabriel que lhe concedesse mais alguns dias para que ele pudesse limpar o ar em volta e elevar seu espírito para o lugar que tinha escolhido para ele. E assim, o fez, com toda certeza!
Cinco dias antes da passagem, iniciou falta de ar e necessidade de oxigênio. Bebemos Vegetal nas 3 noites que antecederam a passagem. No dia 16/01 quando a falta de ar começou a apertar ele me perguntou: “Dra. Valera pra que lado que eu vou? A senhora ainda está esperançosa?”. No comando de sua vida, no dia seguinte ele nos deu, especialmente à sua família e amigos, um dia de esperança, um dia que valeu a pena viver. “Porque a esperança nunca hei de perder”. De banho tomado no chuveiro, recebeu amigos sentado na poltrona, se alimentou do amor da família e de sopa da caridade feito por sua eterna amada. Se despediu dela naquele fim de tarde com um até amanhã.
Na noite do dia 17/01 a falta de ar já não podia ser controlada. Nesta noite, ficamos com ele, eu e Mestre Rossano. Eu e Mestre Braga já sabíamos. Ele disse ”Um filho de Deus”. Eu chamei Rossano e expliquei que estava chegando a hora da passagem.
Como sempre fiz, expliquei ao Mestre Braga que para lhe dar mais conforto depois que bebêssemos o Vegetal iriamos dar um medicamento para que dormisse e não sentisse tanto desconforto, que não iria interferir no tempo para desencarnar mas era para dar conforto. Esperei seu consentimento. Mesmo com meu pequeno tamanho, disse que firmasse seu pensamento em seu lugar no Universo.
Comungamos o Vegetal mais uma vez. Mestre Rossano conduziu este momento, elevou nossa burracheira e chamando a Luz de Hoasca. Agradeço ao Mestre Gabriel por trazer Paz a este Sublime momento. Dormiu tranquilo e o momento se aproximava com serenidade.
Mestre Braga aguardou com pulso cheio a família pela manhã, que cuidou de seu corpo, o barbeou, banhou, massageou numa demonstração de profundo afeto. E somente depois, no comando de tudo e driblando todos, simplesmente, voou.
Sentiremos saudades sempre, como ele sentia do Mestre Gabriel. Agradeço pela graça e oportunidade de ter conhecido este grande senhor. Mestre Braga, meu paciente obediente. Eu te amo e estarei sempre pronta a lhe servir.
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*Valéria Valim é Médica Clínica Geral e Reumatologista e cuidou diretamente da saúde de Mestre Braga ao longo de 10 anos. Valéria Valim é também membro do Corpo do Conselho do Núcleo Divino Espírito Santo, em Santa Leopoldina – ES.