UDV celebra o centenário de José Rodrigues Sobrinho
| 25 Março, 2026
Eldo Rodrigues de Oliveira*

Vida, caminho e memória de um “soldado da borracha” e mensageiro da União do Vegetal.
Mestre José Rodrigues Sobrinho – o querido Zezé, como era carinhosamente chamado pela irmandade do Núcleo Estrela Guia, em Ji-Paraná/RO – nasceu em 30 de março de 1926, na cidade de Socorro, Piauí. Ainda jovem, alistou-se como “soldado da borracha”, integrando a grande leva de nordestinos enviados à Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial.
Essa migração marcou profundamente sua vida. Numa época de extrema necessidade, o governo brasileiro recrutou milhares de trabalhadores para suprir a escassez mundial de látex, essencial para a produção de pneus, botas, isolantes e outros materiais utilizados pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A promessa era de salário digno, assistência médica e retorno assegurado – mas a realidade foi muito diferente. Os “soldados da borracha” enfrentavam jornadas exaustivas na mata fechada, diversas doenças, condições precárias de alimentação e moradia, além do isolamento nos sertões amazônicos. Muitos jamais conseguiram voltar. Foi nesse universo duro, de sofrimento, coragem e resistência, que a história de Zé Rodrigues começou a se moldar.
A vida de José Rodrigues Sobrinho não foi apenas percorrida, foi vivida como quem atravessa rios grandes, carregando nas mãos o peso da dor e o remédio da esperança. Enfermeiro nos seringais, caminhou entre árvores gigantes e barracões silenciosos, onde a floresta engolia homens e segredos. Ali, por quase duas décadas, cuidou de febres, feridas e almas cansadas, remendando vidas sob o zumbido dos insetos e o sopro úmido do Amazonas.
Primeiros passos na Amazônia e o encontro com Mestre Gabriel
Zé Rodrigues dizia que chegou a Porto Velho em 12 de dezembro de 1944, onde trabalhou em diferentes atividades: na prefeitura, no Hospital São José e na Maternidade Darcy Vargas, atuando como atendente de enfermagem – função pela qual se considerava “enfermeiro parteiro”.
Em sua juventude, durante a viagem de navio de Belém/PA a Manaus/AM, conheceu um baiano de semblante sereno e olhar profundo: José Gabriel da Costa, futuro Mestre Gabriel.
Foi no balanço daquele navio que encontrou seu Mestre. Contava que, ainda ali, sobre o rio e o silêncio da noite, ouviu de Mestre Gabriel que ambos já haviam caminhado lado a lado em outra vida e trabalhado juntos em outras encarnações – um relato que Zé Rodrigues carregou consigo com profunda convicção. Tornaram-se amigos rapidamente. Esse encontro ecoaria por toda a sua vida.
O Vegetal e a caminhada espiritual
Em 1955, trabalhando no Seringal Rio Água Branca, no Alto Guaporé (Costa Marques/RO), foi convidado por moradores locais a beber um chá misterioso com os índios “que fazia ver Deus, as coisas do céu, da terra e do mar”. Era o Vegetal, preparado do cipó Jagube e de folhas que depois soube serem a Chacrona. Bebeu três vezes naquela localidade e ali mesmo aprendeu seus primeiros conhecimentos sobre o preparo do Chá Hoasca.
Mudou-se depois para Jaru/RO, indo trabalhar no Seringal Primavera, onde começou a preparar o Vegetal e distribuí-lo a algumas pessoas, sempre com respeito e simplicidade.
Quando Mestre Gabriel recriou a União do Vegetal e se estabeleceu em Porto Velho/RO, soube que José Rodrigues Sobrinho, em Jaru, já distribuía o Vegetal a algumas pessoas. Então, percorreu a poeira quente da BR-364, acompanhado do então Mestre Modesto Alves, para encontrá-lo. Durante três dias, orientou Zé Rodrigues com dedicação, ensinando-lhe a forma correta de preparar o Vegetal conforme os preceitos da UDV, o nome correto do cipó Mariri e da árvore Chacrona, o tempo do cozimento, as chamadas e a condução adequada das Sessões, consolidando ali um marco importante em sua missão espiritual.
Foi então que o Mestre Gabriel lhe confiou a missão de mensageiro da União do Vegetal, afirmando que a União seria um dia conhecida em todo o mundo. Zé Rodrigues passou a conduzir o Vegetal preparado em Jaru para Porto Velho, trazendo também Mariri e Chacrona colhidos na região – e assim fez durante anos.
Mestre Gabriel também o advertiu de que, pela distribuição do Vegetal, poderiam ser presos – e de que isso seria parte do caminho necessário para o registro da União do Vegetal. Tempos depois, o episódio de fato ocorreu, conforme consta no documento lido em todas as Sessões de Escala da UDV, conhecido como “Convicção do Mestre”.
A presença de Mestre Zé Rodrigues na história da UDV
O nome de José Rodrigues Sobrinho permanece vivo no documento “Convicção do Mestre”. Em toda Sessão de Escala, seu nome é lido, pois carrega consigo a presença firme do Mestre Gabriel, trazendo ensinamentos que fortalecem a fé e orientam o caminho dos discípulos. Além disso, esse documento guarda um registro histórico precioso: ele menciona José Rodrigues Sobrinho como o primeiro a ser preso. Sua prisão, longe de representar qualquer desonra, tornou-se um marco de coragem e fidelidade, evidenciando a determinação daqueles que sustentaram a Luz da Hoasca mesmo sob intensa pressão e adversidades.
Lembranças da convivência: o Zé Rodrigues do dia a dia
Zé Rodrigues entrava no Núcleo como quem chega a um terreiro de luz, espalhando simpatia, deixando no ar o perfume discreto de quem vive em paz consigo mesmo. Apreciava um bom café, gostava de caminhar pelo Núcleo aos sábados, passando perto da cozinha e brincando com as irmãs, dizendo “olha o preto!” – pedindo, na verdade, um café bem quente, que parecia acender nele mais um amanhecer.
Andava sempre arrumado, cabelo penteado e perfumado, como se cada encontro fosse um agradecimento à vida. Carregava no peito uma gratidão constante pelo Mestre Gabriel, e essa gratidão se derramava no olhar, num gesto, num silêncio cheio de entendimento.
Assim foi Zé Rodrigues: um homem simples, encantador, cuja memória continua soprando como um canto manso dentro do coração da irmandade. Conheci esse querido irmão e tive o bom merecimento de caminhar ao seu lado, e o que ficou não foi apenas lembrança, mas um eco suave de ternura, uma presença doce que não se desfaz.

Depoimento do Mestre Vicente de Paula
O respeito que Zé Rodrigues inspirava pode ser sentido no relato do Mestre Vicente de Paula, que deixou registrada esta memória:
“Quando eu estava perto de receber a Estrela, o Mestre Zé Luiz pediu para o Mestre Zé Rodrigues e o irmão Pojô, na época, para fazer uma pesquisa de Mariri comigo na floresta, lá no sítio da irmã Ana, que hoje é Conselheira Ana. E nós fomos. Quando entramos na floresta, ele falou assim: ‘–Se encontrar Sororoca e Palmeiral, a gente encontra o Mariri’.
Entramos naquela floresta e passamos quase meio dia andando. Quando chegamos, ele disse: ‘–Oh, Conselheiro Paulo, Vicente de Paula sabe andar bem na floresta’.
Foi uma experiência muito boa, ele orientando. Ele andava muito rápido. Para acompanhar, precisava ter habilidade. Era uma pessoa experiente na mata e dizia: ‘–Se marca o rumo do Sol; por onde entra, tem que sair’. Uma observação que também me chamou a atenção foi que, ao adentrar na floresta, ele sempre solicitava licença para entrar. Quando encontrava um pé de Mariri, cumprimentava dizendo: ‘–Bom dia, Marechal! Peço sua licença’. Em seguida, com o terçado, retirava uma pequena casca, examinava seu aroma, mordia um pedaço e comentava: ‘–Este está fiche’**. Depois disso, pedia novamente licença para realizar a colheita.”
**O termo “fiche” ou “ficho” é uma terminologia cabocla, muito usada para dizer que o Mariri é sadio e possui boa seiva.
Fé, gratidão e despedida
Zé Rodrigues casou-se uma vez, mas, quando a esposa pediu que ele escolhesse entre ela e o Vegetal – “ela ou o Chá Hoasca” –, escolheu a União do Vegetal e viveu para a UDV.
Pesquisava, colhia e preparava o Vegetal com devoção. Mesmo já idoso, usava a faixa de Mestre Assistente por vontade própria. Zé Rodrigues preparava o Vegetal todos os anos, sempre próximo ao seu aniversário, no dia 30 de março. Era um costume que mantinha desde que chegou à União do Vegetal. Nesse dia especial, além de preparar o Vegetal, ele gostava de contar a História da Hoasca, fortalecendo ainda mais o sentido daquela data.
Como realizava esse Preparo anualmente na mesma época, passou a chamar o chá de “o Vegetal do meu aniversário”… coisas do Zé Rodrigues – um homem simples, que sempre respeitou profundamente os ensinamentos do Mestre Gabriel e zelava, com dedicação sincera, pelas coisas da União do Vegetal.
Sem família consanguínea por perto, encontrava nos irmãos da União do Vegetal a sua verdadeira família. E era assim que ele celebrava a vida: preparando, a cada ano, o Vegetal que ele próprio chamava de “o Vegetal do aniversário”.
Homem de “letra bonita e desenhada”, deixou muitas anotações preciosas, memórias de uma época e testemunho de uma alma simples e profunda.
Seu caderno, já amarelado pelo uso, tornou-se bússola e testemunho. Cada página guardava a voz do Mestre, cada linha era um passo na trilha da missão.

Desencarnou em 27 de abril de 2008, aos 82 anos, deixando saudade imensa.
Em sua homenagem, o Núcleo da UDV em Seringueiras/RO recebeu seu nome: Núcleo Mestre José Rodrigues Sobrinho – eternizando seu legado entre nós.

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*Eldo Rodrigues de Oliveira é Mestre Assistente Central da 15ª Região.
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