Mestre Sinval, 80 anos de determinação

| 21 Março, 2023

Giuliano Villa Nova*

Fotos: DMC do Núcleo Tucunacá

Uma semente plantada no coração de um sertanejo germinou e, com muita determinação e força de vontade, cresceu, deu frutos e se tornou uma árvore frondosa. Assim pode ser resumida a história do Mestre José Sinval Camurça, que no dia 6 de março anterior, inteirou 80 anos de vida – boa parte deles dedicados ao Centro Espírita Beneficente União do Vegetal e à edificação da atual 11ª Região.

Nascido em Quixadá, a 170 Km de Fortaleza, no Sertão Central do Ceará, Sinval é filho de agricultores, cresceu em um ambiente simples, com uma família grande e acolhedora. Quando chegou à juventude, buscou diversas linhas religiosas para seguir – entre elas a religião católica, terreiros de umbanda, entre outras. Queria encontrar seu lugar. Depois de muito peregrinar pelo Brasil, desde o Nordeste, passando pelo Centro-Oeste e o Norte, embarcou para Porto Velho.

Em novembro de 1971, o cearense chegou à capital do então Território Federal de Rondônia. Para se manter, passou a trabalhar como taxista. Nesse ofício, conheceu João Ferreira de Souza, o Mestre Janico, que o convidou para conhecer a religião que já seguia: a União do Vegetal. Fazia apenas dois meses que o fundador desta, Mestre José Gabriel da Costa, havia feito a passagem. Sua memória, seus exemplos e seus ensinamentos estavam ainda muito vivos na lembrança daqueles primeiros irmãos, especialmente os Mestres da Origem, formados por ele.

Nesse contexto, Sinval foi muito bem recebido pela irmandade da Sede, que ainda funcionava na casa de Mestre Pequenina, companheira de Mestre Gabriel, e sua família. De imediato, ele se identificou com o Vegetal e decidiu se associar. Em nenhum momento, porém, esqueceu sua terra natal, e assim surgiu o sentimento de levar o Chá Hoasca para o Ceará.

Compromisso

Sinval ainda não era casado, mas já tinha o compromisso com Fátima, hoje Conselheira Fátima, que ficou residindo em Quixadá enquanto o amado buscava melhores condições de vida. Conversavam esporadicamente pelo telefone, em ligações cheias de saudade e, de certa forma, dúvida: será que ele voltaria ao Ceará?

Em um belo dia, por volta de 1978, Sinval retornou à cidade natal com uma quantidade de Vegetal. Distribuiu para Fátima e alguns familiares. Depois de casados, Sinval e Fátima seguiram para Porto Velho, onde ele já havia conseguido meios para iniciarem a vida juntos. A exemplo do marido, Fátima também foi calorosamente acolhida pela irmandade. Após terem a certeza de que haviam encontrado um caminho religioso para seguirem juntos, a vontade de plantar a semente da União no Ceará aumentou.

Em novembro de 1979, o casal chegou a Fortaleza. Sinval saiu de Rondônia com a notícia de que ali residia Miguel Gomes Filho – hoje Mestre Miguel –, que havia conhecido o Vegetal em São Paulo. O pensamento era o de unir esforços para começarem a UDV nesta localidade. Sinval e Miguel se conheceram e desenvolveram uma amizade, que dura até hoje.

Com poucas condições materiais, iniciaram a distribuição do Vegetal em Fortaleza, oficializada em 17 de outubro de 1980, em Sessão dirigida no apartamento de Miguel por Raimundo Nonato Marques (Mestre Nonato), com autorização do então Mestre Geral Representante, Mestre Braga.

Plantio

A determinação de Sinval, no entanto, não terminou aí. Identificado com a natureza, ele teve a visão de que era preciso desenvolver o Plantio de Mariri e Chacrona para atender às pessoas que chegavam para conhecer o Vegetal. Na época, no entanto, essas plantas não existiam em solo cearense. Sinval pesquisou em algumas localidades do Estado, mas não as encontrou.

Ele continuou as buscas na região de Belém, onde se deparou com o que tanto buscava. Em inúmeras ocasiões Sinval esteve nas florestas daquela região em pesquisas, que havia aprendido a fazer em Rondônia. Acompanhado por alguns irmãos, igualmente determinados, superava a falta de recursos materiais e levava as plantas para serem preparadas no Ceará. Dessa forma, foi o pioneiro do Plantio em Fortaleza, responsável pelas primeiras mudas de Mariri e Chacrona no terreno do atual Núcleo Tucunacá, que originou a 11ª Região. Na continuação, Sinval se destacou por ensinar a plantar, a cultivar e a zelar pelo Plantio. “Qual é a melhor maneira de plantar o Mariri?”, é uma das perguntas que gosta de deixar no ar. E antes que o interlocutor responda, afirma: “Com amor!”

José Sinval Camurça também foi o primeiro Presidente do então Pré-Núcleo Tucunacá e, anos depois, foi fundador dos Núcleos Fortaleza (1993) e Flor Divina (2005). Atualmente está associado no Núcleo Tucunacá, com sua esposa, Conselheira Fátima, e sua filha Silvane. A ele registramos nossa gratidão por todo o trabalho realizado para edificar a UDV nesta região, desejando vida longa, saúde e prosperidade.

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*Giuliano Villa Nova é integrante do Quadro de Mestres do Núcleo Tucunacá e Diretor Adjunto do Departamento de Memória e Comunicação (DMC) da Diretoria Geral