[…] A claridade daquele 10 de fevereiro de 1922
Luisa Torreão*

Aquela não era uma sexta-feira qualquer na casa da família Gabriel da Costa. Os raios daquela manhã ensolarada traziam os primeiros sinais de que estava para nascer mais um filho, o oitavo do casal Prima Feliciana e Manoel Gabriel. Pai e filhos, trabalhando ou brincando ali por perto, aguardavam a boa nova. No quarto do casal, a parteira, comadre Pequena, e a sogra, dona Vitalina, auxiliavam a mãe na chegada do menino. Logo a sombra do cajueiro que refrescava a residência familiar não estaria mais inclinada no terreiro.
Em seu ponto mais alto, o Sol resplandecia a claridade daquele 10 de fevereiro de 1922, quando, ao pino do meio-dia, nasceu José Gabriel da Costa. De longe, soavam as badaladas do sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores, localizada no distrito do Retiro — distante cerca de cinco quilômetros do terreno da família, situado em área rural pertencente ao município de Coração de Maria, na Bahia. Muitos anos depois, quando voltou para rever sua família, em 1971, o José, já conhecido como Mestre Gabriel — fundador do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal —, revelou a seu irmão Antonio que aquele sino da igreja tocou em seu nascimento e ele estava lembrado.
A infância não foi muito diferente da de seus irmãos e tantos outros meninos da região, estudando pouco na escola, trabalhando no cultivo de alimentos, brincando solto no quintal com o que a natureza oferecia e participando das rezas e atividades religiosas de uma família cristã. Ainda assim, seus irmãos, mais tarde, reconheceram que havia algo de diferente no José, que costumava se destacar em tudo o que fazia.
Família de origem
Para nós da União do Vegetal, a porta para conhecermos mais da família de origem do Mestre Gabriel abriu-se quando ele visitou a Bahia em 1971, fazendo com que o Antonio depois viajasse a Porto Velho, tornando-se, mais do que um irmão de sangue, também um discípulo. Foi por Antonio Gabriel que as histórias da infância deles chegaram até nós. E foi para reencontrá-lo que os primeiros irmãos que deram início ao Núcleo Apuí, na Bahia, viajaram a Coração de Maria e Pé de Serra, no fim de 1977, onde conheceram os familiares do Mestre Gabriel.
Em uma dessas ocasiões, recolheram uma verdadeira pérola: o depoimento de dona Prima a respeito do nascimento do filho José, resultado de um parto sem dor, como ela mesma chegou a dizer na ocasião. Um dos trechos que ficaram gravados provocou risadas naqueles que estavam presentes, ao ouvirem a espontaneidade do relato. A seguir, reproduzimos a transcrição dessa gravação, cedida pelo Mestre Anchieta Torreão de Sá, um dos que participaram daquelas viagens de encontro com a família do Mestre.
“Quando o menino nasceu, a finada minha sogra Vitalina falou ‘ah, comadre Pequena, o menino já nasceu, vem cortar o imbigo. Aí comadre Pequena levantou, chegou, cortou o imbigo, botou dentro da bacia pra dar banho, lavou, passou sabão, passou sabão, passou sabão… quando deu fé, a espuma do sabão tava dessa altura dentro da bacia. Aí eu falei ‘oh gente, não deixa lavar, como é que lava esse menino dessa moda, aí jogaram no mato, tornaram a botar água pra enxaguar, por isso que ele ficou enxaguado. Nunca me esqueci disso.” — Prima Feliciana da Costa
Da família de origem, quem também esteve presente na ocasião da visita do Mestre Gabriel, em 1971, e no posterior encontro com os irmãos da União do Vegetal foi Maria de Lourdes da Costa, filha de Dionizio, um dos irmãos mais velhos do Mestre Gabriel. Na época do encontro com o tio, era ainda uma garota, bastante impressionada com aquela presença firme e amorosa que tanta alegria levou aos familiares. Hoje ela é sócia do Centro e frequenta o Núcleo Coração de Maria, localizado no terreno onde nasceu José Gabriel. Abaixo reproduzimos seu depoimento durante o Encontro Regional do Departamento de Memória e Comunicação da Diretoria Geral (DMC) da 4ª Região, em dezembro de 2025:
“O Mestre Gabriel, quando ele chegou lá em casa, foi a coisa mais extraordinária que podia acontecer na nossa vida. Ele chegou de repente, só ficou dois dias, mas foi o suficiente pra explicar o que era a União do Vegetal, o benefício que ela trazia para as pessoas. Foi um tempo muito bom. Ele ajudou muito meu pai, não com dinheiro, mas ajudou espiritualmente. Foi o que ele disse: ‘eu poderia lhe ajudar bastante, se eu tivesse com dinheiro aqui, mas não tenho. Se você for comigo pra lá, a coisa vai mudar também pra você, lá eu posso lhe ajudar muito mais do que aqui, mas aqui eu só posso lhe ajudar de uma maneira diferente, então eu vou lhe ajudar espiritualmente’. E ajudou, que a vida da gente mudou muito desse dia em diante, nunca mais o meu pai passou pela situação que passou, a vida dele foi melhorando, melhorando, até chegar o limite de viver em paz, sem dificuldade. E aí vó Prima, cada vez que a gente conversava as coisas do Mestre Gabriel, ela contava as histórias dele quando era pequenininho, as brincadeiras, e eu adorava, não dava sossego a ela. Pra mim, foi a coisa melhor do mundo que aconteceu na minha vida, eu ter conhecido o Mestre Gabriel. E foi um exemplo na minha vida, na nossa família também. Vai continuar sendo assim até que Deus me leve e um dia eu tenha condição de chegar perto dele. A honra que eu tenho por essa religião é muito grande, vocês não fazem ideia.” — Maria de Lourdes, sobrinha do Mestre Gabriel
A família constituída e a União do Vegetal
O Mestre Gabriel saiu de Coração de Maria para Salvador aos 18 anos, onde trabalhou e residiu. Em 1944, partiu para a Amazônia, onde iniciou suas idas aos seringais como “soldado da borracha”. Em 1947, casou-se com Raimunda Ferreira, a Mestre Pequenina, em Porto Velho (RO), após conhecerem-se no hospital onde ele trabalhou um período como enfermeiro prático e ela havia levado uma irmã de criação para ser atendida.
Desse matrimônio, constituíram a família que serviu de base para a criação da União do Vegetal, que tem por um dos seus princípios fundamentais a família — como não poderia ser diferente, para quem veio de um seio familiar de valores cristãos, tendo vivenciado a importância do trabalho, do lugar do homem e da mulher, bem como da ligação com Deus, e assim deu continuidade em sua própria história. Mestre Gabriel e M. Pequenina tiveram 11 filhos. Três deles hoje dão continuidade ao trabalho da União do Vegetal, sendo eles: Getúlio, Mestre Jair (atual Mestre Geral Representante) e Conselheira Jandira.
Em 22 de julho de 1961, no Seringal Sunta, Mestre Gabriel declarou a União do Vegetal criada diante da família e das poucas pessoas que o acompanhavam. Foram anos de luta e sacrifício. Em janeiro de 1965, trouxe a recém-criada religião para a sociedade em Porto Velho e deu o primeiro passo de estruturação institucional. A seguir, apresentamos trecho de um depoimento da Mestre Pequenina gravado pelo Departamento de Memória e Comunicação (DMC), em que ela retrata um pouco de sua vivência com o Mestre:
“A primeira pessoa que ele deu o Vegetal foi para mim. E, nessa luta, nós tivemos grande sofrimento dentro da União do Vegetal. Hoje não me arrependo porque sempre ele dizia que andava atrás de um tesouro e esse tesouro é a União do Vegetal. É um tesouro que é uma riqueza, que não tem quem roube. E cada um de nós, que vamos tendo essa joia em nossas mãos, cada um deve ter zelo para que não fuja esse poder de nós. Porque a União do Vegetal é um caminho maravilhoso, um caminho de flores, de felicidade para a humanidade. […] As palavras do Mestre Gabriel de a União do Vegetal entrar no mundo dando a paz para a humanidade, tudo isso eu tô vendo. Ele, lá de onde está, também está vendo. Sua vontade é minha também. Porque sou uma mulher que sei perfeitamente que nasci para ele. O destino da minha vida já veio traçado para ele, e ele para mim. […] O Mestre Gabriel é um homem que teve na Terra, que só posso dizer da bondade que ele tem, um homem pacífico, um homem trabalhador, um homem amigo.” — Mestre Pequenina
Neste 10 de fevereiro, dia de festa, luz e alegria, consagrado em toda a nossa União, rendemos nossa homenagem a este homem de origem simples, bem como a sua família, que serviu de esteio para nos ofertar este tesouro, a União do Vegetal. Salve 10 de fevereiro! Salve o Mestre Gabriel!
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*Luisa Torreão é membro do Corpo do Conselho do Núcleo Apuí (Salvador-BA, 4ª Região) e é Diretora-Adjunta do Departamento de Memória e Comunicação da Diretoria Geral.
Colaboraram para a produção deste texto:
Lucas Nahas – Diretor do DMC-DG;
José de Anchieta Torreão de Sá – Mestre Assistente Geral;
Jairo Santos e seu livro “Mestre Gabriel: Coração de Maria e sua família de origem”;
Ênio Cordeiro – Coordenador Regional do DMC na 4ª Região; e
Renato Hoisel Arléo – auxiliar do DMC na 4ª Região.
**A ilustração de Jeferson Alves faz parte do livro “Mestre Gabriel: Coração de Maria e sua família de origem”, de autoria de Jairo Santos.
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