Convicção do Mestre chega aos seus 50 anos

Thiago Beraldo*

| 6 de Outubro 2017

Foto: M. Cícero Alexandre Lopes

Neste 6 de outubro de 2017, está inteirando 50 anos que União do Vegetal publicou no Jornal Alto Madeira, de Porto Velho (RO), o artigo intitulado Convicção do Mestre, lido no ínicio de todas as Sessões de Escala mensais do Centro e algumas Sessões de Escala anuais. O texto foi uma resposta às autoridades e a sociedade da cidade à prisão a qual José Gabriel da Costa (Mestre Gabriel, o criador da UDV) foi submetido um pouco antes, por distribuir aos seus discípulos o Chá Hoasca (denominado também como Vegetal pelos sócios da UDV). O artigo foi publicado novamente, no Jornal Alto Madeira, no dia 17 de outubro de 1967.

Naquela época, Porto Velho era pequena e a notícia da prisão se espalhou rapidamente pela cidade. Além disso, não existiam computador, redes sociais e a televisão ainda era uma coisa rara. O Jornal Alto Madeira era o meio de comunicação mais utilizado e eficaz para manter-se informado. Assim, Mestre Gabriel viu uma forma de demonstrar o que é se defender sem ofender, através da publicação de uma matéria paga contando a prisão sem atacar ou dizer que as autoridades estavam erradas.

Em 1967, o governo militar  endureceu o regime com a outorga de uma nova constituição e ampliação da censura à imprensa. Era nesse cenário que a União do Vegetal estava iniciando sua organização em Porto Velho.

Após a prisão

Depois que Mestre Gabriel foi solto, Mestre José Luiz de Oliveira conta:

“Nós estávamos reunidos na casa dele, na Sede, cada um dando uma parcela de colaboração pra processar o delegado por invasão domiciliar após as 23 horas, quando ele entrou e disse assim: ‘Pra que é a UDV? O que tenho ensinado? É pra pregar a Luz a Paz e o Amor. Não é desta forma que combatemos o mal. Não é desta forma que vamos responder que temos Luz, Paz e Amor, tentando prejudicar alguém. Já que vocês estão fazendo cota, vamos aproveitar este dinheiro pra fazer uma publicação, dar uma resposta as autoridades. E assim nasceu a Convicção do Mestre”.

Mestre Raimundo Carneiro Braga, o Mestre Braga (in memorian), resumiu bem o que foi aquele acontecimento:

“Isso aconteceu, verdadeiramente pra gente poder libertar o Vegetal. As autoridades não conheciam o que era o Vegetal e estava aumentando o número de adeptos na UDV. E as autoridades observavam, principalmente, por que era coisa desconhecida. Até que um dia, eles prenderam o Mestre Gabriel. E eles viram que a nossa reação não foi de pessoas más, que têm mau pensamento – principalmente a de Mestre Gabriel. Nos comportamos de maneira pacífica e, por causa disso, voltamos a beber o chá.”

Centenário, Alto Madeira deixou de circular

Em abril passado, a versão impressa do Jornal Alto Madeira inteirou 100 anos de circulação, mas em 30 de setembro deste ano encerrou suas atividades. O jornal impresso circulou pela derredeira vez em primeiro de outubro passado com a edição de número 28.347. O site do veículo ainda está no ar na Internet, mas o seu conteúdo não é mais atualizado (www.altomadeira.com). O Alto Madeira foi o mais importande de Rondônia e chegou a integrar a vasta rede de jornais dos Diários Associados, o maior e mais influente grupo de comunicação do Brasil durante muitos anos, especialmente nas décadas de 1950,1960 e 1970.

Veja abaixo o artigo publicado no Jornal Alto Madeira, em edição de 6 de outubro de 1967:

“Convicção do Mestre

            Quando foi preso em Jarú, José Rodrigues Sobrinho, por estar preparando o vegetal, que chamam pelo nome de Oasca, o Mestre da União do Vegetal, José Gabriel da Costa, foi chamado pelo senhor Delegado de Polícia da Capital para fornecer alguma explicação sobre aquele líquido (CHÁ) “Misterioso”. O senhor delegado, não encontrando nenhum crime penal no Código Civil Brasileiro, deu cobertura à União com as seguintes palavras: Não posso proibir as sessões de vocês; mas também não posso dar licença.

            Aconteceu que, na ausência do senhor Delegado e do senhor Diretor do S.I.C., o Delegado do Trânsito, inocentemente, fez um ataque na residência do Mestre, que no momento doutrinava religiosamente 38 discípulos, dos 198 que vêm lhe acompanhando. Os discípulos perderam a cabeça e ficaram sem direção à falta do seu Mestre, que foi preso.

            O Mestre na prisão examinou-se, momento em que alegrou-se, admirando a bondade de Deus, e disse: fui um grande malfeitor, já bebi cachaça, já andei no baixo meretrício, já andei armado e mal intencionado, já derramei sangue de meus irmãos. Pensava em desordem. Desejava o mal e desconhecia o meu Grande Deus. Com tudo isso, não cheguei a conhecer a prisão. Hoje, venho trabalhando pela perfeição, procurando tirar todos os meus irmãos da ilusão e do abismo em que vivia; venho chamando a todos a pedir a Deus como venho pedindo eternamente.

            Oh! Deus do Universo, derramai sobre mim, tudo quanto eu desejar no coração aos meus inimigos. E hoje me acho preso sem ter quem possa me acusar, sendo “Eu” acusado pela minha própria consciência. Que alegria eu sinto pela bondade de Deus. O Mestre, foi interrompido por um discípulo, momento em que meditava, sendo este um policial que derramava lágrimas. O Mestre entrou em sofrimento, sem demonstração, confortando-o com o símbolo da União: Luz, Paz e Amor.

            O Mestre posto em liberdade retornou a sua residência encontrando os discípulos revoltados procurando prejudicar o senhor delegado por meio Judiciário alegando invasão domiciliar após as 23:00 horas. Momento que entra a voz do Mestre: A União vegetal é para destruir o mal, com os ensinos que recebemos do Divino Mestre; pergunta o Mestre a seus discípulos: Como destruímos o mal? Responderam: Com Luz, Paz e Amor.

            Então diz o Mestre: se nos ofendermos por qualquer parte, desobedeceremos o Divino Mestre. O Caminho é este prestem atenção os que quizerem me acompanhar na missão. Podemos ser censurados por todos, mas não podemos censurar a ninguém. Podemos ter inimigos mas não podemos ser inimigos de ninguém. Podemos ser ofendidos por todos mas não podemos ofender a ninguém.Podemos até ser julgados por todos, mas não podemos julgar a ninguém. Podemos ser revoltados por todos, mas não podemos revoltar e nem ser revoltados por ninguém.

            Dizem os dicípulos ao Mestre: queremos compreensão destas palavras: responde o Mestre: fiquem com a memória presa estudando, até chegar os ensinos de Salomão na próxima Sessão do Grau S.I.C.P.M.R. Lembrem-se: o símbolo da União é Luz, Paz e Amor.”


 *Thiago Beraldo é  integrante do Quadro de Mestres no Núcleo Príncipe Teceu (Brasília-DF).

Esse artigo foi desenvolvido através de consulta ao Departamento de Memória e Comunicação da União do Vegetal e entrevistas realizadas por Mestre Yuggi Makiuchi, Conselheira Marisa Mendes Machado, Mestre Antônio Pedro Ferrão e Mestre Pachá.

10 respostas
  1. Maria Luiza
    Maria Luiza says:

    Sinto alegria em meu coração por esta data. Rico ensino que venho buscando seguir me revelando quem é Mestre Gabriel e sua grandiosa missão.
    Que em nossos corações a Convicção do Mestre se faça cada vez mais viva e que por ela conquistemos cada vez mais compreensão para seguir semeando a Paz!

    Responder
  2. Júlio César Teles De Sousa junior
    Júlio César Teles De Sousa junior says:

    Vejo a Convicção do Mestre como um tratado de moral e ética que serve a toda humanidade.
    Um exemplo na prática de amor ao próximo quando ele mesmo, dentro de uma situação particular, esquece de si e dá conforto à um discípulo.
    Grande exemplo de amor e humildade.

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  3. José Roberto
    José Roberto says:

    Para sempre o Jornal Alto Madeira será lembrado. Essa memória não Morre!!

    Viva a nossa UDV, viva nosso Mestre e sua convicção que vem servindo de amparo e orientação a todos chegam e permanecem em nossa sagrada União.
    Viva!!!!!

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  4. Marcio Rossi Gonçalves
    Marcio Rossi Gonçalves says:

    É oasca ou hoasca a grafia ?

    RESPOSTA: Caro Márcio, a grafia correta e adotada pela União do Vegetal é Hoasca. Porém, existem documentos histórios e até publicações em jornais que adotaram a grafia Oasca.

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  5. Leonardo Pauperio
    Leonardo Pauperio says:

    Um documento histórico e importante, através do qual o Mestre Gabriel nos ensina, pelo seu exemplo pacífico, a enfrentar situações adversas com paz e dignidade, respeitando os nossos semelhantes e reconhecendo a importância do amor na nossa vida.
    A “Convicção do Mestre” tem muitas coisas para estudar, é documento histórico repleto de significado espiritual, e também nos traz leis de convivência harmoniosa e fraterna.
    Que nós possamos a cada dia mais reconhecer este belo exemplo de respeito à compreensão das pessoas! Luz, Paz e Amor para todos nós!

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