UDV participa de fórum sobre psicoativos na Unicamp

Pablo Diogo (texto) e Amauri Moreira de Carvalho (fotos)*

Mesa debate uso terapêutico de “psicodélicos” | Foto: Amauri Moreira de Carvalho.

Aconteceu no Centro de Convenções da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nos dias 21 e 22 de novembro, o fórum “Caleidoscópio dos Psicodélicos: ciência, saúde e sociedade”. O evento, foi organizado pelo LEIPSI – Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos, que é ligado a Unicamp (Campinas – SP) , e reuniu 24 palestrantes, entre pesquisadores, ativistas e representantes das religiões hoasqueiras. Luiz Fernando Milanez, coordenador da Comissão Científica da Diretoria Geral do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal e membro do Quadro de Mestres do Núcleo Alto das Cordilheiras, em Campinas, foi um dos palestrantes.

O fórum, que contou com a presença do diretor da Faculdade de Medicina, Ivan Toro, na cerimônia de abertura, foi organizado pelo psiquiatra Luis Fernando Tófoli. Tófoli é professor do Departamento de Psiquiatria da Unicamp e um destacado pesquisador na área de estudos sobre o Chá Ayahuasca – Hoasca ou Vegetal como denominado na UDV.

O psiquiatra contou que o evento foi um esforço para trazer o debate sobre a pesquisa e o uso destas substâncias para dentro da Academia. “Ainda há pouco espaço para encontros assim na Universidade. Normalmente, só se fala destas substâncias sob uma ótica negativa. A própria Ayahuasca sofre com isso”, disse.

Participação da União do Vegetal

Luiz Fernando Milanez, coordenador da Comissão Científica da Diretoria Geral do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.

Durante o evento foram realizadas duas conferências e seis mesas redondas, que abordaram aspectos culturais, sociais e biológicos do uso de substâncias psicoativas. Luiz Fernando Milanez participou, junto com representantes das demais tradições hoasqueiras, de uma mesa intitulada “ As Interfaces do uso religioso da ayahuasca”. Sua palestra tratou das atividades da Comissão Científica da UDV, na qual ele atua como coordenador.

Na palestra, falou brevemente das origens da UDV e do modo como a instituição se organizou para colaborar com as autoridades federais, inicialmente através da criação de um Centro de Estudos Médicos, em 1985, e posteriormente por meio do Departamento Médico e Científico, atual DEMEC, criado em 1997.

Milanez lembrou que foi através do intercâmbio entre a União do Vegetal e cientistas de várias áreas que foi possível realizar, pela primeira vez na história, estudos biomédicos com o Chá Hoasca, no início dos anos 90. “Desta forma, as primeiras pesquisas realizadas no âmbito do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, foram as de caráter médico-científico no sentido de atestar a inofensibilidade do Chá Hoasca”, destacou.

Saiba mais: Pesquisas científicam comprovam inofensibilidade do Chá Hoasca.

A partir do fim dos anos 90, comecaram a surgir também as primeiras pesquisas em ciências sociais a respeito da UDV. Devido ao crescimento do número de estudos, surgiu a necessidade de se dispor de uma Comissão Científica “cujo objeto não fosse somente as pesquisas de caráter médico, mas que pudesse tratar também de outros campos do conhecimento”, disse.

Chá é comparável a meditação

A quarta mesa tratou das pesquisas sobre o uso de psicoativos para o tratamento de problemas de saúde. Rafael dos Santos, da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, apresentou os resultados de vários estudos que mostram benefícios no uso do chá para tratamento da depressão e da ansiedade. Um dos experimentos, aliás, registrou que até mesmo uma dose única de Hoasca é mais eficaz do que o placebo no tratamento de sintomas recorrentes de depressão.

Santos ressaltou que vale a pena investigar os potenciais benefícios do chá para outros problemas, tais como controle de comportamento violento e de câncer. E aproveitou para fazer uma ressalva quanto a existência da substância DMT (presente nas folhas da Chacrona) no cérebro humano. “Embora muitas pessoas repitam que o DMT existe naturalmente no cérebro humano, isso nunca foi confirmado pela pesquisa”, disse.

O psiquiatra Dartiu Xavier, da Universidade Federal de São Paulo, participante dos estudos pioneiros com a Hoasca realizados com sócios da UDV, apresentou diversas pesquisas demonstrando benefícios no uso de plantas psicoativas para o tratamento de problemas de saúde.

“A medicina usou plantas para curar durante séculos, mas hoje há muito preconceito e resistência ao uso delas. Mas o uso de uma planta psicoativa pode fazer bem. Depende de para quem ela é prescrita, em que momento, e em qual quantidade”, comentou. Ele também apresentou gráficos demonstrando a atividade mental de pessoas sob efeito do chá, e comparou ao que é registrado nos momentos de meditação profunda. “É como se a pessoa [sob efeito do chá] estivesse num estado de meditação quimicamente induzido”, disse.

Algo semelhante foi dito pelo pesquisador Dráulio de Araújo, do Instituto do Cérebro, de Natal-RN, que proferiu a conferência “Psicodélicos e Neurociências”. Ao analisar os efeitos da Hoasca na atividade cerebral, ele destacou sua capacidade de alterar o modo usual de atividade mental, favorecendo um estado mais tranquilo. Araújo, inclusive, citou a expressão “concentração mental”, adotada pela UDV para explicar o uso do chá, como uma descrição adequada dos efeitos da bebida no organismo humano.

*Membros do Quadro de Sócio e Corpo do Conselho do Núcleo Menino Galante (Mairiporã – SP), respectivamente. 

6 respostas
  1. Almir Nahas
    Almir Nahas says:

    Parabéns pela iniciativa de participar do fórum. A interação do Centro com a comunidade acadêmica gera excelente oportunidade de compartilhar conhecimento e ampliar a visão.

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  2. Virginia Barbosa
    Virginia Barbosa says:

    Enquanto sócia da UDV e praticante de meditação vejo que esta pesquisa confirma o que sinto e percebo no meu próprio funcionamento mental e psíquico há alguns anos. Acredito que o Vegetal tem uma capacidade de propiciar e manter a concentração mental as vezes por mais tempo que a prática meditativa – principalmente, se a mesma não for constante devido as condições externas, quase sempre. Grata por compartilhar o resultado destes estudos. Tenho interesse em assistir estas apresentações futuramente, há possibilidade de receber algum informativo com antecedência?
    abraços fraternos,
    Virginia

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  3. Marcio Cardenuto
    Marcio Cardenuto says:

    A amplitude que se obtém quando dos estudos com este Chá e deste Chá, sempre, transcende todas as expectativas e caminha para compreensão da união necessária à nossa vida melhor por aqui. Também cumprimento pela iniciativa.

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  4. Marcelo Yanagita
    Marcelo Yanagita says:

    Legal! Compartilhando conhecimentos científicos e religiosos, também mais uma forma de mostrar as pessoas os benefícios que o Vegetal traz pra nós.

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  5. Doroteia Oliveira
    Doroteia Oliveira says:

    Ótima oportunidade para desmitificar o efeito do Chá Hoasca no organismo humano, sua reação nas pessoas e sua melhora na vida. (para enfatizar a pureza da realidade, benefícios do chá em minha vida). A conduta moral e as boas práticas de convivência social demonstram a positividade de quem é usuário deste chá (bebo, de livre e espontânea vontade há 20 anos, me sinto muito bem).

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