Os 50 anos da publicação do primeiro Estatuto da UDV

Eduardo Roizen*

| 7 janeiro 2018

“Pequenina, quando precisar, aqui sou Eu!”

Mestre Gabriel ao entregar o Estatuto à sua companheira, Mestre Pequenina.)

Publicação no Jornal Alto Madeira em 7 de janeiro de 1968 | DMC/Sede Geral.

Há exatos 50 anos, no dia 7 de janeiro de 1968, foram publicados, no jornal Alto Madeira (Porto Velho-RO), os Estatutos da Associação Beneficente União do Vegetal, que posteriormente viriam a se constituir no primeiro Estatuto da nossa religião, registrado em cartório.

O registro desse primeiro Estatuto marcou o início do processo de institucionalização da UDV perante o governo brasileiro. É fruto do trabalho e da dedicação do Mestre José Gabriel da Costa e dos seus primeiros discípulos.

O primeiro documento

Ainda em 1965, o discípulo Hilton Pereira Pinho (um dos primeiros Mestres formados pelo Mestre Gabriel) deu a ideia de se criar uma associação para que pudessem cobrar uma mensalidade e custear as despesas com os Preparos de Vegetal. Logo de início, Mestre Gabriel não aprovou a ideia. Mas após o terceiro pedido do Hilton, ele decidiu autorizar a criação da associação. Foi elaborado então o primeiro Regimento Interno com 16 artigos, que não chegou a ser registrado em cartório.

Pouco depois, Hilton propôs que esse documento fosse lido nas Sessões e, a princípio, somente ele fazia essa leitura. Percebendo a necessidade de esclarecer um pouco mais desse documento para a irmandade, Hilton também deu a ideia de ser feita uma explanação a respeito do Regimento Interno. Daí em diante, ele próprio passou a fazer a leitura e a explanação. Mais na frente, outros discípulos começaram a ser escalados para também cumprir essas funções.

Perseguição das autoridades

Em razão da incompreensão das autoridades da época, houve algumas investidas contra o Mestre Gabriel e a UDV. Isso motivou a publicação e o registro em cartório dos Estatutos da Associação. É o Mestre Raimundo Monteiro de Souza quem conta sobre essas perseguições:

“Já tinha ocorrido a prisão do José Rodrigues Sobrinho, que estava conduzindo o Mariri para Porto Velho. Foi preso, e apreendido o Mariri também. Foi preciso o Mestre Gabriel ir lá na delegacia depor e conseguir soltar e tirar o Mariri para ser preparado.

Depois, na sequência, ele sofreu uma outra investida. Foi chamado na Secretaria de Segurança. Lá foi solicitada a documentação. E lá ficou retido o documento. Mas nós tínhamos cópias. Nesse dia tínhamos um Preparo. E o Mestre Gabriel disse: ‘Os senhores vão preparando o Vegetal que depois eu vou’.

Quando ele chegou, estávamos preparando o Vegetal. E contou como foi. Naquele momento, vi descer lágrimas dos olhos dele, pelas coisas que ele ouviu quanto ao uso da Hoasca.

Depois, mais na frente, ele sofreu a intervenção da polícia, quando foi preso”.

O próprio Mestre Gabriel, ao narrar sua prisão, relata:

“Me prenderam à meia-noite. Foram obrigados a me soltar de manhã, porque não podiam me acusar de maneira nenhuma. Não apareceu acusação. E eles mesmos não podiam me acusar”.

Resposta à sociedade

Após sua prisão, o Mestre Gabriel pediu ao Mestre Hilton Pereira Pinho para que escrevesse seu pensamento. O texto, intitulado Convicção do Mestre, foi publicado no jornal Alto Madeira em dois momentos: nos dias 6 e 17 de outubro de 1967, e teve como objetivo dar uma resposta às autoridades e à sociedade de Porto Velho a respeito da prisão do Mestre Gabriel. Essas duas publicações foram custeadas pelo Mestre Antônio Domingos Ramos.

Continuando o trabalho de estruturação da Associação, em 1º de novembro de 1967 foi eleita a primeira Diretoria, que tomou posse em 6 de janeiro de 1968. Foi elaborado então o primeiro Estatuto da Associação Beneficente União do Vegetal, publicado no jornal Alto Madeira em edição de 7 de janeiro de 1968. Posteriormente, o documento foi registrado em cartório e aprovado pelo juiz de direito da Comarca de Porto Velho, em 12 de março de 1968.

O Mestre José Luiz de Oliveira narra esses acontecimentos:

“Em 1967 houve a Convicção do Mestre. O que fala nela: a prisão do Mestre. E daí nós abrimos os olhos e tivemos de organizar a União do Vegetal, legalizar a União do Vegetal, que até então não tinha nenhum registro em cartório. Não funcionava legalmente no que diz respeito à situação jurídica.

Daí nós começamos a fazer um trabalho pra poder registrar de fato a União do Vegetal perante as autoridades constituídas. E pra isso teve necessidade de se organizar um Estatuto. E esse Estatuto inicialmente foi elaborado por mim e pelo Mestre Hilton.

A gente trabalhava alternadamente à noite, um dia na casa dele, outro dia na minha casa. E, no dia seguinte, nós íamos pra casa do Mestre Gabriel com o trabalho elaborado da noite anterior. E ele então fazia uma supervisão dentro daqueles seis, oito artigos no máximo que a gente fazia. Algumas palavras ele mandava trocar. Até que conseguimos organizar o Estatuto com 64 artigos.

Com esse documento, nós demos entrada em cartório e registramos a Associação Beneficente União do Vegetal, primeira denominação da nossa instituição”.

A ação contra o governo

Mesmo com o Estatuto da Associação registrado em cartório, a União do Vegetal ainda sofreu mais uma perseguição por parte das autoridades. Em 22 de fevereiro de 1970, o chefe de Polícia do Território fez um ataque à UDV, apreendendo a cópia do Estatuto da Associação e determinando o fechamento das atividades. Mas o Mestre Gabriel, consciente de sua missão, continuou distribuindo o Vegetal para os sócios, deixando somente de fazer Sessões de adventícios.

Em decorrência desses acontecimentos, o então presidente, Mestre Raimundo Monteiro de Souza, procurou um advogado e moveu uma ação judicial para liberar a UDV. É o próprio Mestre Monteiro quem conta:

“Eu sei que o governador ficou um pouco indiferente comigo, mas não me tirou do lugar. Porque naquela época eu estava passível, inclusive, de ser preso. Vivíamos num regime ditatorial, a ditadura militar. E era proibido por lei um funcionário público federal mover ação contra o Governo. Então, eu movi uma ação contra o Governo. Não fui demitido e permaneci no cargo de confiança em que estava. Porque eu fiz uma coisa consciente, confiado no Mestre, confiado na União do Vegetal, confiado no poder da União. Fiz tudo isso e não me aconteceu nada”.

De Associação a Centro Espírita

Por conselho de um advogado amigo do Mestre Gabriel, de nome Albino Lopes do Nascimento, a Associação Beneficente União do Vegetal passou a se chamar Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.

Em seu novo Estatuto, foi incluído que, “para efeito de concentração mental, os associados, de sua livre e espontânea vontade, bebem um chá, Hoasca, comprovadamente inofensivo à saúde”.

Esse novo Estatuto do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, com 46 artigos, foi registrado em cartório em 14 de julho de 1971.

E assim começou, com o Mestre José Gabriel da Costa e seus primeiros discípulos, a institucionalização da União do Vegetal. Um processo de fundamental importância para a realização da missão do Mestre, de um dia fazer a paz no mundo.

*Eduardo Roizen é Coordenador Regional do Departamento de Memória e Comunicação na 5ª Região e integrante do Corpo do Conselho do Núcleo Agulha de Marear (Maricá-RJ).

11 respostas
  1. Renato Barbosa
    Renato Barbosa says:

    Parabéns Eduardo Roizen pelo belo e explicativo texto !!!
    Momentos vivenciados pelo M.Gabriel e seus primeiros discípulos , neste processo inicial e , constante , da legalização da nossa sociedade .
    Dentro da peleja . Venceram . O Mestre Consciente de sua missão .
    Gratidão ao Mestre Gabriel e a seus primeiros discípulos !!!!!

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  2. Cristina Souza Criniti
    Cristina Souza Criniti says:

    Queridos irmãos reponsáveis por resgatarem a memória de nossa UDV, recebo como uma pérola esta publicação. Há de se ter sempre a força de Mestre Gabriel em nossas vidas, para fazermos valer todo empenho na construçao de um mundo de paz. Gratidão aos nossos dirigentes que continuam essa missão divina, com o apoio de todos os valorosos discípulos.

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  3. Eric Douglas
    Eric Douglas says:

    É reconfortante ler esses acontecimentos pois podemos ver com clareza a guarnição com que a União proporciona ao seus discípulos no cumprimento de suas missões e a consciência que o Mestre tem de sua missão de trazer a paz pro mundo! Viva o nosso grande Mestre Gabriel por nos deixar esse presente que é a União do Vegetal!!!

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  4. Aldo Rodrigues da Cunha Crivelaro
    Aldo Rodrigues da Cunha Crivelaro says:

    Reconhecemos mais ainda o esforço do nosso grande Mestre por nós, juntamente com os primeiros discípulos, pra que hoje possamos estarmos desfrutando do belo trabalho.

    Gratidão.

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