Mestre Jair Gabriel, do seringal para a beira do mar

André Manta*

Mestre Jair Gabriel, um dos primeiros discípulos de Mestre Gabriel

Cheguei na casa do Mestre Jair na orla de Salvador e o encontrei pintando. Artista plástico, ele hoje passa a maior parte do tempo dedicado à sua arte. E como são vivas suas pinturas, feitas de pontos e cores que ganham formas de grande beleza e expressividade. Um talento reconhecido no Brasil e no exterior, com exposições em países como França, Itália, Portugal e Alemanha. Mas quem vê seus quadros pelo mundo, muitas vezes não imagina a trajetória desse homem que viveu a infância e parte da adolescência na Floresta Amazônica.

Nascido em Porto Velho em 24 de abril de 1950, Jair Gabriel da Costa é filho de Raimunda Ferreira da Costa, a Mestre Pequenina, e de José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel, criador do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.

Clique aqui e assista a entrevista com Mestre Jair Gabriel da Costa

Com menos de um ano de idade, Jair foi com os pais para os seringais da Amazônia. José Gabriel retornava à floresta para trabalhar de novo como seringueiro. Seu objetivo, contudo, era encontrar o tesouro que lhe estava destinado: a União do Vegetal, que ele criou em 22 de Julho de 1961 no Seringal Sunta, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia.

Foi nesse ambiente de seringueiros lutando pela sobrevivência que Jair Gabriel cresceu. Sua primeira responsabilidade, com apenas 7 anos, era dar comida aos porcos que o pai criava. Com 10, ganhou sua primeira “caneta”, a faca de cortar seringa com a qual auxiliava a família na lida do dia a dia. Folga, só no domingo, quando a diversão era caçar e pescar. Morria de medo de onça, e nas estradas de seringa não se separava da espingarda, sua principal aliada para enfrentar o perigo.

Um dia tornou-se o herói dos irmãos mais novos, Carmiro e Jandira, ao enfrentar um carneiro que o pai criava e que sempre corria atrás deles. Num descuido, foi supreendido pelo bicho, mas agarrou-lhe pelos chifres e saiu rolando com ele, dando mordidas no animal. Daí em diante, o carneiro passou a temê-lo, e Jair ganhou a admiração dos irmãos.

O início da UDV

Na primeira vez que o Mestre Gabriel bebeu o Vegetal, em 1º de abril de 1959, Jair estava presente, e participou de todas as Sessões que o pai realizou no seringal. Foi Jair quem primeiro reconheceu o Mestre, aos 9 anos de idade, quando nos encantos da burracheira viu o pai com uma coroa na cabeça, como se fosse um Rei.

Quando a família mudou-se para Porto Velho, em janeiro de 65, Jair tinha 14 anos e nenhuma experiência do que era viver na cidade. Mas a adaptação tinha que ser rápida. Com pouco tempo já estava trabalhando com os irmãos na olaria que o pai adquiriu para fabricar tijolos. Aos 18 anos entrou no Exército, uma “escola” que segundo ele mesmo conta foi muito importante na sua formação.

Viu os primeiros discípulos chegarem, e a União do Vegetal começar a crescer. Naquela época, o Mestre Gabriel usava a casa da família na Rua Abunã Nº 1215 para fazer as Sessões. Quase não havia cadeiras e as pessoas sentavam em bancos, tamboretes e até tijolos. Mas ninguém se incomodava, pois o talento do Mestre e a riqueza dos seus ensinos superavam qualquer desconforto.

Voltando àqueles dias, Mestre Jair lembra que ele próprio não fazia distinção entre o Pai e o Mestre. Desde criança, sempre viu José Gabriel da Costa como uma autoridade. Um homem que agia com firmeza e respeito, cumpria sua palavra, dedicava-se à família e não media esforços para auxiliar as pessoas.

Quando José Gabriel da Costa desencarnou em 1971, Jair tinha 21 anos. Foi um momento difícil, mas ele buscou força nos ensinos que aprendeu e nos exemplos que herdou do pai. Arranjou emprego em Manaus e morou na casa do Mestre Florêncio. Quando voltou a Porto Velho, casou-se e foi trabalhar no Departamento de Estradas e Rodagem. Depois ingressou na Polícia Civil de Rondônia, onde seguiu carreira até se aposentar.

Na União do Vegetal, quem o convocou para o Corpo Instrutivo foi o próprio Mestre Gabriel. O CDC, Jair recebeu das mãos do Mestre Monteiro, e a Estrela de Mestre foi entregue pelo Mestre Janico (João Ferreira de Souza) em 1976, quando este ocupava o lugar de Mestre Geral Representante do Centro.

Fiel à missão do Pai, Mestre Jair deu continuidade aos trabalhos da UDV, junto com os outros Mestres da Origem. Em 1984, quando tinha 34 anos, deu início ao Núcleo Mestre Iagora, em Porto Velho, sendo o seu primeiro Mestre Representante.

Nos encantos da Bahia

Alguns anos depois, circunstâncias de vida fizeram com que seu casamento terminasse, e ele passou um período só. Mas no início dos anos 90, numa viagem com a mãe à Bahia, encontrou-se pela primeira vez com Ermanna. A italiana que vivia em Salvador despertou o sentimento do rondoniense. E como na música de Caymmi que diz”quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar”, os dois se casaram e formaram uma nova família “baiana”.

Jair Gabriel fazia assim o caminho de volta de seu pai, que em 1944 saiu da Bahia em direção à Rondônia para cumprir o seu destino.

O fato é que a Bahia cativou Mestre Jair. Mas ele também soube cativar os baianos com o carisma do seu jeito caboclo. Quando ele chegou a Salvador, só existiam dois núcleos, o Apuí e o Serenita, onde Mestre Jair frequentou até o dia 2 de fevereiro de 1997, quando foi designado para começar um novo núcleo, o Salvador, do qual foi Mestre Representante por dois mandatos (seis anos).

Foi também na Bahia onde ele conheceu o artista plástico e sócio do Núcleo Apuí, Edison da Luz, que lhe apresentou as telas, as tintas e os pincéis. Foi como quebrar a dormência de uma semente, e a expressão artística de Jair Gabriel começou a germinar, fazendo brotar um jardim de criatividade e inspiração.

Hoje, ao vê-lo pintar, fico imaginando o que passa pela sua cabeça quando ele pensa na sua própria caminhada, ou então quando ele vê o crescimento da União do Vegetal e lembra como tudo começou. O que eu sei é que é um verdadeiro encantamento ouvir suas histórias. Por isso, neste dia do seu aniversário, meu desejo é de muitos e muitos anos de vida, para ele contar ainda mais histórias, ser feliz com sua arte e continuar transmitindo esses ensinos tão preciosos que o Mestre Gabriel nos deixou.

* André Manta é Mestre Representante do Núcleo Estrela da Manhã (Salvador – Bahia)

7 respostas
  1. Carlos Amaral
    Carlos Amaral says:

    Mestre Jair nos cativa pela sua simplicidade e seu jeito cabloco de ser, um talento admirável dentro dos encantos. Felicidades, Mestre Jair, que essa data se repita por muitos e muitos anos.

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  2. Guida
    Guida says:

    Mestre Jair é um caboclo fino, “catigoria“! Uma pessoa sempre disposta a aprender e a ensinar! Quem tem o privilégio do seu convívio pode reconhecer em simples gestos a grandeza do seu coração, os tesouros da sua amizade! Vida longa ao Mestre Jair!!!!!

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  3. Anselmo nery
    Anselmo nery says:

    Sou grato à Ddeus por existir a União do Vegetal e por estar na UDV e ainda mais poder estar perto de pessoas como o Mestre Jair. Desejo também saúde, paz, harmonia e prosperidade na sua vida e desejo poder assistir muitas sessões dirigida pelo senhor. Que o Mestre continue te abençoando. Feliz aniversário.

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  4. Leonardo Pauperio
    Leonardo Pauperio says:

    Bonito texto escrito pelo Mestre André Manta, que nos permite conhecer um pouco mais da história e da vida do Mestre Jair.
    Considero o Mestre Jair Gabriel uma pessoa bem importante para a 4a Região e para toda a União do Vegetal. A forma como nos conta a sua trajetória desde os seringais, os acontecimentos daquela época, as pessoas com quem a família dele conviveu, o modo sempre amigo e fraterno como o Mestre Gabriel acolhia e ensinava a todos, sempre fazendo o Bem pelas pessoas.
    É sentindo alegria que me uno a todos os irmãos nesta celebração de mais um aniversário do Mestre Jair, desejando saúde, prosperidade e muita disposição na sua caminhada.

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  5. Aurenita Torreão
    Aurenita Torreão says:

    Conheço Mestre Jair desde de 1971, quando estive em Porto Velho, quando passei uns dias na casa do meu irmão que morava lá. Mestre Gabriel já tinha tinha feito a passagem. Depois ele (Mestre Jair) morou um tempo em Manaus, onde eu morava com minha familía. Ele frequentava minha casa. Depois em 1977, vim morr aqui na Bahia, onde depois nos encontramos aqui, onde pude conhecer melhor como Mestre, Pessoa que com seu Jeito simples me cativou e pude conhecer mais as histórias de sua família e de Mestre Pequenina, Pessoa de Fibra, um exemplo pra nós como Mestre e Mulher batalhadora que ainda tem muito o que nos ensinar.

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