Mestre Cícero, um nordestino caboclo na Amazônia

Mestre Cícero Lopes

Mestre Cícero Alexandre Lopes faria hoje 87 anos de idade. O Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, por intermédio de seu Blog, presta-lhe uma homenagem transcrevendo alguns trechos de sua biografia publicada no livro RELICÁRIO, Imagens do Sertão, de autoria do jornalista Edson Lodi*.

Cícero Alexandre Lopes nasceu no dia 5 de junho de 1929, no estado do Rio Grande do Norte. Ele tinha estatura pequena, menos de um metro e setenta, e o corpo bem constituído por fortes músculos, adquiridos pela lida árdua e constante na busca da sobrevivência.

Cabeça chata, movimentos lentos, porém firmes ao caminhar. Olhos inquisidores habituados a enquadrar imagens e a buscar além das aparências. E a guardá-las em seu coração nordestino. Sua índole era a de um homem de bem, e suas ações revelavam bons sentimentos. Em sua casa pequena e modesta cultivava o hábito de hospedar irmãos, que vinham principalmente do sul do país.

Seu linguajar simples e direto, essencialmente caboclo, deixava a impressão, para os que não o conheciam bem, de ser um homem rude. Impressão que logo se desvanecia quando a pessoa se aproximava e percebia, então, o carinho e a atenção para com todos os que buscavam por ele.

Ao nos debruçarmos sobre alguns acontecimentos narrados por Cícero Alexandre Lopes, e que de alguma forma marcaram sua caminhada, algo chama atenção: o cuidado que ele tinha em examinar seus sonhos e encontrar neles respostas para algumas situações. Em pelo menos dois, Mestre Gabriel apresenta-se a ele em sua dimensão mais clara – aquela em que o sonho assemelha-se a uma revelação espiritual.

A lealdade e o amor ao Mestre Gabriel e à União do Vegetal são marcas – além de tantas outras recolhidas e expostas ao longo deste trabalho – que foram impressas por ele na instituição e que ainda hoje servem de exemplo e fundamento para a formação de novos dirigentes.

Mesmo com todos os dramas da vida por que passou, em nenhum momento se afastou do convívio com a irmandade e com a União do Vegetal. Soube agir com firmeza e perseverança para superar todos os obstáculos e continuar servindo à sua religião.

Um sonho torna-se realidade: é anunciada a missão

Antes de ter comungado o Vegetal pela primeira vez, sonha com o chá Hoasca. Esta revelação marca a vida de Cícero Alexandre Lopes. E a transforma.

Ele vê um homem alto, moreno e magro que estava próximo a uma mesa rústica, de madeira. Em cima daquela mesa havia um copo cheio de um líquido denso, que parecia vinho de buriti. Cícero se vê chegando. Entra na sala e aquele homem lhe entrega o copo com aquele líquido. No momento em que ia beber, acorda.

Aproximadamente trinta dias antes do sonho, Cícero encontrou-se com seu irmão Moisés, também fotógrafo, que havia sido chamado para trabalhar em uma entrevista feita com Mestre Gabriel. Moisés:

— Cícero, fui fazer uma reportagem com um homem que nunca vi daquele jeito. Primeiro ele contou tudinho e os homens escrevendo. Depois contou novamente a história para ser gravada. Quando foram ver, a história do gravador que ele contou para a outra não tinha diferença num ponto só.

A memória de Mestre Gabriel, ao contar e recontar a mesma história em todos os detalhes, chamou também atenção a Cícero.

“Fiquei curioso, conta ele, com vontade de conhecer aquele homem. Estava na macumba, passei dois anos na macumba do Seu Belém. Ele bebeu o Daime 18 anos com o Mestre Daniel [Daniel Pereira de Matos, criador do Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus – Fonte de Luz, primeiro da linhagem conhecida como Barquinha] e sempre me falava do Daime. Disse a ele que queria beber o Vegetal. E ele contou que tinha um homem que dava Vegetal, de nome Gabriel. Pedi para ir até lá. Nessa brincadeira passou um mês sem me levar”.

Após a visão, que aconteceu alguns dias após ter-se encontrado com Mestre Gabriel pela primeira vez, Cícero bebe o Vegetal como adventício, em 1968, num preparo realizado na Olaria, num dia de sábado. E quando isso finalmente acontece, Mestre Gabriel indica-lhe o caminho a ser seguido. Cícero conta:

“Quando Mestre Gabriel fez a ligação, perguntando se tinha burracheira (já tinha me ensinado como falava), pôs a mão na minha cabeça e ficou olhando para a minha cara, e disse: “Siga sua missão”. O tempo fechou como se tivesse desaparecido no mundo. Tive muita burracheira nesse dia. Tudo que via, conhecia. Falava comigo mesmo, fiquei admirado”.

As palavras de Mestre Gabriel foram cumpridas ao longo do tempo. Cabe a Cícero a honrosa missão de ser o principal guardião da memória visual do recriador da União do Vegetal, trabalho que se destaca entre tantos relevantes serviços prestados à instituição.

Interessante observar que uma afirmação de Mestre Gabriel, em uma doutrina feita tempos depois, insere-se perfeitamente no que foi dito para Cícero, então adventício:

“Cada um tem a sua missão dentro da União do Vegetal. Agora, eu tô sabendo a missão de todos. Mas a pessoa mesmo não sabe o que é que assume”.

Na primeira vez em que bebe o Vegetal, outro acontecimento chama atenção a Cícero. Durante a burracheira, ele passa a mão na testa e percebe que está sangrando. Aquela sensação passou depois de algum tempo, e ele não deu muita importância ao fato. Quando a sessão terminou, que ele se preparou para ir embora, aconteceu um pequeno acidente. Estava chovendo e escuro, Cícero escorregou e bateu com a testa no caminhão de Mestre Gabriel, estacionado próximo ao local onde haviam bebido o Vegetal. Quando o sangue escorreu-lhe da testa, Cícero imediatamente lembrou-se do que havia visto na sessão, durante a burracheira.

Devoção

Ao afirmar a alegria que teve em conhecer Mestre Gabriel e ao sentir respeito por aquele homem, Cícero torna-se imbuído de profunda devoção. Ele constata que, para respeitar o Mestre Gabriel, foi preciso primeiro respeitar a si mesmo. Há nessas palavras uma espécie de juramento, de comprometimento moral e ético. E nesse amor ao seu guia espiritual e a si mesmo, Cícero conscientiza-se de que é preciso fazer as coisas como é para fazer, ser um homem sério para melhor servir ao seu mestre.

“Estou aqui na União do Vegetal porque vi sinceridade, amor e a paz dentro de Mestre Gabriel. Isto me fez desligar das orgias, das coisas que vivia fazendo, pensando que tava fazendo certo. Devo tanto que nem sei o quanto ao Mestre Gabriel por ele ter me acolhido do jeito que era. Só não era ladrão, mas era muito violento, e hoje venho procurando paciência, paz para tratar as pessoas direito. Tudo isto eu devo a ele, que me acolheu e doutrinou. Me entreguei a ele para ser um homem verdadeiro. Não acreditava em nada, só gostava de farrear, brincar e fazer tudo o que queria. Foi quando encontrei o Mestre Gabriel, com aquela paciência, delicadeza. Recebendo as pessoas cheias de vaidades e outras coisas ruins. Hoje vejo que cada um de nós deve procurar a paz para distribuir com quem precisa. Peço a ele que me dê forças em toda minha vida, que não seja mais preciso me afastar da União do Vegetal. Achei e vejo que ele merece nosso respeito, são os frutos de um homem sério. Foi assim que cheguei para ele mais de perto. Vi diversas vezes o destacamento dele em três cantos. Ficava olhando e pensando: será minha visão? Podia ser, mas não era, era ele mesmo. Não tenho dúvidas perante o Mestre Gabriel de que ele recebeu todo o poder da União, todos os segredos e mistérios. E qual é o nosso objetivo? Trabalhar para um dia todos se unir uns com os outros.

O primeiro fotógrafo de Rondônia

Cícero Alexandre Lopes foi possivelmente o primeiro fotógrafo no então Território Federal de Rondônia. Ensinou a toda uma geração, e entre as pessoas que aprenderam a fotografar com ele encontram-se seus irmãos, que se estabeleceram nesse ramo comercial em Porto Velho (Natal Fotocolor), e Francisco Herculano de Oliveira, o Mestre Herculano.

Inicialmente trabalhou como fotógrafo lambe-lambe nas praças e outros espaços públicos de Porto Velho, exercendo importante papel na popularização da arte fotográfica naquela sociedade. Não se tem notícia de quando exatamente Cícero passou a utilizar-se de novos equipamentos fotográficos, mas certamente a criatividade e a fina sensibilidade tátil adquirida como lambe-lambe lhe foram extremamente úteis.

Existem diferentes formas de se olhar o mundo e de se ler uma imagem, o que nos possibilita perceber novas dimensões da fotografia já vista e revista tantas vezes. Para este livro foram selecionadas algumas imagens feitas por Cícero, com o intuito de apresentar o contexto histórico em que foram registradas, e com ele a possibilidade de um novo entendimento sobre elas.

O olhar do Mestre

Em todos os templos da União do Vegetal existe afixada na parede principal a foto de Mestre Gabriel. Essa imagem em preto e branco, obtida em um de seus aniversários, chama atenção a quem ali penetra.

A fronte de Mestre Gabriel está levemente iluminada. A luz espalha-se pelo arco e realça a palavra universal nele escrita. E brilha, ainda, em seu rosto grave e sério, como quem carrega uma cruz e semeia flores de cores vivíssimas pelo caminho. Será o espocar do flash ou vem essa luz de seu iluminado coração?

O olhar firme e penetrante de Mestre Gabriel – como quem vê os movimentos do presente e antevê cem anos à frente, em sincronia com o tempo – transmite a impressão de movimentar-se, acompanhando a pessoa que mira aquela foto.

“Em todo lugar, revela o fotógrafo, ele está olhando pra gente. Eu tinha muita prática e botava numa posição que dava pra saber, aonde você olhasse pra ele, ele estava olhando para o seu lado; isso é coisa profissional minha”.

O autor conta que a fotografia foi tirada na casa em que Mestre Gabriel e a família residiam, e que servia como Sede para a realização dos trabalhos da União do Vegetal:

“Foi numa sessão, na casinha velha, no aniversário dele, só não me lembro qual foi o ano. Eu disse que ia bater uma chapa, ele fez aquele gesto e eu bati. É o jeito dele mesmo”.

Mestre Gabriel encontra-se de pé, debaixo do arco. Está ereto e demonstra segurança, a confiança de quem sabe o que está fazendo. Tem-se a ideia de que está levemente inclinado para a esquerda, sem que com isso perca a estabilidade. E em seus ombros a responsabilidade não parece pesar nada mais que o necessário. O Mestre está em sua fortaleza.

A minha Estrela Guia

Mestre Cícero um nordestino caboclo na Amazônia

Tempos depois, em 1971, Cícero Alexandre Lopes é aprovado por Mestre Gabriel no concurso para Mestres e no dia 6 de janeiro de 1972, recebe a estrela de Mestre na União do Vegetal. Torna-se, portanto, membro do Conselho da Recordação dos Ensinos do Mestres Gabriel, que veria a ser criado em 1985.

Mestre Cícero foi Mestre Representante do Núcleo Estrela Guia, em Ji Paraná-RO, por mais de oito anos. Provavelmente, seu trabalho na Representação do Núcleo, iniciou-se em 1975.

Nesse período, participou diretamente da fundação de uma distribuição de Vegetal na cidade de Presidente Médici-RO, que desde 15 de novembro de 1996, recebeu o nome de Núcleo Mestre Cícero, cujo aniversário é também comemorado na mesma data que o de seu patrono, Cícero Alexandre Lopes.

Imagens a Recordar

Mestre Cícero

Neste final de semana, no Núcleo Samaúma (São Paulo), durante o 2º Encontro Internacional do Departamento de Memória e Documentação, ocorreu o lançamento oficial da Exposição Imagens a Recordar. Trata-se de um trabalho coordenado pelo Mestre Diro Oliveira e pelo Departamento de Memória e Documentação da 4ª Região (estado da Bahia). A Exposição será apresentada nos núcleos da UDV e nela está incluída um vídeo com depoimentos valiosos sobre o Mestre Cícero.


*Mestre Assistente Geral do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.

14 respostas
  1. Isabela Abes Casaca
    Isabela Abes Casaca says:

    Que belo texto! Com estas palavras poder conhecer mais a história do mestre Cícero.

    Igualmente emocionante, é poder participar desse encontro do DMD, e ver de perto a exposição.

    Memória e recordação!

    Responder
  2. Antônio Rodrigues de Souza
    Antônio Rodrigues de Souza says:

    Quero ser grato a Deus e ao Mestre Gabriel por estar na UNIÃO DO VEGETAL e sempre em busca de paz pro meu interior, luz pra minha consciência e amor em meu coração, sabedoria e harmonia equilibrio em minha vida que ainda estou vivendo graças os bons conselhos e orientações que recebi deste bom mestre e homem do bem que me orientou em meus primeiros passos neste caminho de LPA que é a UDV. Parabéns, Mestre Cícero por seu aniversário.

    Responder
  3. Rodrigo Polignano
    Rodrigo Polignano says:

    Realmente uma homenagem justa e de muito bom gosto. O vídeo está emocionante e a qualidade das fotos da exposição revelam o olhar apurado e artístico de M. Cícero. Parabéns pela bonita iniciativa.
    Abraços.

    Responder
  4. Marcus Emmanuel
    Marcus Emmanuel says:

    Brilhante relato!
    Eu que sou admirador do Mestre Cícero devido ao seu depoimento publicado na 1ª Agenda Comemorativa de 2011. Foi uma identificação imediata, onde li o relato e vi a mim.
    Reconheço o valor da preservação dessa memória que nos traz riquezas de detalhes…
    Uma dádiva!
    Grato, mestre Lodi.

    Responder
  5. Erivaldo Magalhaes
    Erivaldo Magalhaes says:

    Belo texto falando do Mestre Cícero que também tem seu valor e importância também nos registros feitos por ele no início da União do Vegetal….
    O Blog falando dele, complementou o Encontro Internacional do DMD no dia 4/6 – Núcleo Samaúma – SP.

    Responder
  6. JULIO CEZAR SCHMALTZ
    JULIO CEZAR SCHMALTZ says:

    É interessante e ao mesmo tempo singelo saber como o Mestre Gabriel ligou os Mestres Antigos à UDV, Mestres estes que no cumprimento de sua missão trabalharam pelo engrandecimento desta religião nos proporcionando a oportunidade de nos desenvolvermos espiritualmente.
    O relato de Mestre Cícero a respeito da foto do Mestre Gabriel sob o arco demonstra pra mim o seu profissionalismo e a sua sensibilidade.
    Quero externar minha gratidão ao Mestre Cícero pelo seu pioneirismo e a todos que trabalharam e trabalham nesta importante missão que é a preservação da memória da história da UDV.

    Responder
  7. Claiton Neey da Siva
    Claiton Neey da Siva says:

    Linda homenagem! Ontem o Núcleo Mestre Cícero comemorou mais um aniversário, uma festa bonita repleta de amigos e irmãos, sessão dirigida pelo Mestre Assistente Geral Francisco Herculano de Oliveira. Ocasião esta que Mestre Francisco Herculano lembrou da primeira vez em que Mestre Cícero bebeu o vegetal. Somos gratos a organização do Blog por esta homenagem, pois Mestre Cícero tem importante papel no inicio da União. E hoje o jeito simples e amigo também está presente neste Núcleo que recebe o seu nome. Que o Mestre nos abençoe para que possamos continuar crescendo espiritualmente.

    Claiton Neey da Silva
    Mestre Representante do Núcleo Mestre Cícero.

    Responder
  8. Glson de Souza Matias
    Glson de Souza Matias says:

    Bem legal saber um pouco mais da historia de Mestre Cícero e sua sensibilidade que marca sua história na UDV. Eu que tive a oportunidade de assistir uma sessão dirigida por ele no núcleo Mestre Gabriel quando menor de idade e ele ja com a idade bem avançada, me sinto alegre em lê este relato bem importante. Grato pela preservação da memória.

    Responder
  9. Irene Duarte
    Irene Duarte says:

    Nao tem como não se emocionar ao conhecer a historia do Mestre Cícero, homem simples e grandioso na sua sensibilidade. Em suas mãos a maquina fotográfica não captava só a imagem, mas também a alma e o coração. Eu ainda não tinha observado o brilho e a expressão dos olhos do nosso Mestre Gabriel. Gratidão ao Mestre Cicero pelo trabalho, ele me inspira.

    Irene Duarte

    Responder

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *