Mestre Adamir, um pacificador

Márcio Luiz Da Rós*

Mestre Adamir cortando o cipó Mariri utilizado no preparo do Chá Hoasca | DMD/Sede Geral.

Francisco Adamir de Lima (Mestre Adamir) nasceu em Ubajara, Estado do Ceará, em um lugar pequeno, de nome Colônia Monte Alegre, na data de 31 de julho de 1932. Depois dos quinze anos, foi estudar em um seminário, por onde ficou uns três anos. De lá, quando saiu, foi para São Paulo, mas tinha no pensamento de querer ir para a Amazônia. Ainda criança ouviu de alguns seringueiros – que voltaram da Floresta Amazônica – a respeito de um chá feito pelos índios que se bebia e se via coisas como se fosse  um cinema. Aquele assunto ficou na memória dele – como uma recordação. Viveu uns tempos em São Paulo, onde passou fome e outras dificuldades. Mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá, alistou-se como soldado, mas não ficou muito tempo e, assim, voltou para o Ceará. Dali seguiu para Belém (PA) e, depois, chegou à Porto Velho (RO). No ano de 1964, casou-se com Maria da Conceição Ferreira Lima (Conselheira Conceição) e tiveram cinco filhos: Alkimir, Nociley, Solidei, Adamira e Natália.

Em 1969, conheceu Raimundo Monteiro de Souza (Mestre Monteiro) e sua companheira, Zilda Felícia da Costa Monteiro de Souza (Conselheira Zildinha), que lhe falaram de um chá que era dado por um senhor e que fazia ver coisas, que nem no cinema. Então, ele se lembrou do que ouvia, quando criança, do vegetal dos índios. Após esta conversa ainda demorou um pouco para ele beber o Vegetal pela primeira vez.

Vegetal das mãos de Mestre Braga

Nesta época, ele ainda passara por terreiro de Umbanda, Igreja Católica, Igreja Evangélica. Ele estava procurando um lugar que o segurasse e o orientasse para uma vida melhor. Quem o convidou para beber o vegetal foi uma pessoa de nome Fuad Nagib, que já era discípulo da União do Vegetal. Bebeu o Chá pela primeira vez no dia 24 de novembro de 1969, pelas mãos do Mestre Raimundo Carneiro Braga (Mestre Braga), que naquele dia contou a História da Hoasca. Assim, nesta sessão, conheceu o Mestre Gabriel. Com quinze dias que havia bebido o Vegetal, resolveu associar-se à UDV.

Praticamente, todas as noites algumas pessoas se reuniam, na casa do Mestre Gabriel para conversarem. Dentre estes estavam: os Mestres Braga, Monteiro, Joanico, Sidom, Modesto, Paixão, Zé Luiz, Pernambuco e outros. Adamir sempre estava presente, ouvindo e fortalecendo uma amizade. Em 10 de fevereiro de 1970, dia do aniversário do Mestre Gabriel, este chamou as pessoas, que estavam na casa dele, para beberem o Vegetal e contou a História da Hoasca. Mais na frente, o Mestre Gabriel disse que aquilo que conversaram eram assuntos do Corpo Instrutivo. Então, Adamir falou: “Mestre, mas eu não sou do Corpo Instrutivo!” O Mestre disse: “Então está convocado!” No dia 28 de fevereiro de 1970, dentro de uma Sessão Instrutiva, na Olaria de Mestre Gabriel, Adamir foi convocado para o Corpo do Conselho. No mesmo dia, o Mestre Bartolomeu recebeu a Estrela de Mestre.

Primeiro presidente do Centro

Quando da prisão do Mestre Gabriel – que tentaram fechar a União do Vegetal -,  houve o movimento para o registro da UDV em cartório – quando foi criada, em 1968, a Associação Beneficente União do Vegetal. Seu primeiro presidente foi Hilton Pereira Pinho (Mestre Hilton), sendo sucedido por Raimundo Monteiro de Souza – na época, membro do Corpo do Conselho. Na sequência, o então conselheiro Francisco Adamir de Lima recebe a presidência da Associação. Em 1971, foi criado o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal e teve como seu primeiro presidente, o conselheiro Francisco Adamir de Lima.

É sempre bom lembrar que, com recursos financeiros próprios, Mestre Adamir conseguiu levar o Mestre Gabriel para o Ceará, quando foi internado em um hospital de Messejana, região metropolitana de Fortaleza, e passou por tratamento necessário para restabelecer sua saúde física. Dali, Mestre Gabriel voltou à Bahia e visitou os parentes e lugares de sua infância. Na sequencia, retornou à Manaus e de lá foi para Porto Velho, onde chegou no dia 27 de março de 1971. Neste dia, Mestre Gabriel realizou uma sessão, conhecida como o dia da “Ressurreição do Mestre”, a qual foi dirigida pelo Mestre Monteiro e nesta data entregou a Estrela de Mestre ao Conselheiro Adamir.

Ligação com Mestre Sidom

O Mestre Adamir foi morar em Jarú (RO) onde mais na frente iniciou uma Distribuição de Vegetal para algumas pessoas. Ele sentiu que iria precisar de auxílio e resolveu convidar o Mestre Sidom para ir para o Jarú, junto com a família. Algo bem bonito era a ligação e a união entre os Mestres Adamir e Sidom. Depois, chegaram mais pessoas e a partir da distribuição foi criado o Núcleo Mestre Rubens em 1974. Mestre Adamir foi designado para o lugar de Mestre Representante, cargo que exerceu pelo período de 14 anos. No dia em que conheci o Mestre Adamir, no Jarú, eu estava com uma dor no corpo e não sabia o que era. Ele fez uma sessão, falou um tanto de coisas e no dia seguinte, quando fomos colher o mariri na floresta e iniciamos um Preparo de Vegetal, eu já estava melhor, bem disposto, e trabalhei durante três dias. Assim, fiquei sabendo do conhecimento que ele tinha com os Nove Vegetal e o João Brandinho. Ele dizia, que este conhecimento das plantas já tinha antes de beber o Vegetal pela primeira vez. Com a boa ligação que tive com o Mestre Adamir, procurei aprender o tanto que pude neste assunto dos vegetais de cura.

Trabalho de integração no Acre

Ele voltou a morar em Porto Velho e mais na frente fixou residência na cidade de Rio Branco (AC). Nesta cidade foi designado Mestre Representante do Núcleo João Lango Moura e, depois, recebeu o cargo de Mestre Central da 7ª Região. Conseguiu fazer um trabalho especial de equilíbrio e união, trazendo as pessoas para um exame de consciência, no sentido de todos trabalharem em função da Obra do Mestre Gabriel. Nesta Região, com trabalho, presença e alegria, conseguiu sensibilizar algumas pessoas que bebiam o Vegetal por conta própria para fazerem uma integração com a União do Vegetal, apaziguando ânimos, conseguindo trazer muitas pessoas a associarem-se à UDV.

Outro bom exemplo que o Mestre Adamir praticou e que vem dando bons frutos até hoje foi o trabalho de boa vizinhança que ele fez junto a outras sociedades usuárias do chá Hoasca, no Estado do Acre, fazendo com que a União do Vegetal tenha, até hoje, uma boa ligação com os dirigentes da Barquinha e do Alto Santo.

No Ceará, palavras de amor

No final da década de 90, foi residir na cidade de Fortaleza, capital do Ceará, buscando os cuidados médicos, sendo recebido pelos profissionais da saúde sempre com alegria e atenção, junto com a conselheira Conceição, sua companheira e os filhos. No dia 06 de janeiro de 2000, recebeu o cargo de Mestre Central da 11ª Região (reúne os Núcleos dos Estados do Ceará, Piauí e Maranhão), das mãos do Mestre José Luiz da Oliveira, então Mestre Geral Representante da União do Vegetal. No período em que administrou a 11ª Região, viajou pelos Núcleos conduzindo palavras de amor, crescimento e união.

Ele incentivou e orientou a irmandade que já bebia Vegetal na cidade de Teresina (PI), aconselhando a todos, no início dos trabalhos, a buscarem uma união verdadeira pela Obra do Mestre. Quando veio ser criado um Núcleo, na cidade de Teresina, na data de 31/07/2002, recebeu o nome de “Mestre Adamir”, sendo uma homenagem a um homem, que na minha compreensão, tinha uma ligação e obediência ao Mestre Gabriel.

Em sua caminhada dentro da União do Vegetal, o Mestre Adamir não recebeu nenhuma punição. Seu semblante tinha algo diferente, que chamava a atenção. Demonstrava, claramente em suas atitudes o seu amor pelo Mestre Gabriel. Era uma pessoa firme, cumpridor dos horários e de suas palavras. Quando ele falava do Mestre Gabriel as pessoas viam o brilho em seu olhar. Chegou a ser considerado a pessoa mais rica que tinha no Jarú, na época em que tinha comércio naquela cidade. Nem por isso demonstrou soberba e arrogância, demonstrando sempre simplicidade e humildade.

Mestre Adamir desencarnou no dia 28 de maio de 2001, na cidade de Fortaleza, Ceará, quando ainda exercia o cargo de Mestre Central da 11ª Região. Conforme comentários de algumas pessoas e, também, de um vídeo que existe, feito pelo filho Alkimir, Mestre Adamir dirigiu uma sessão, poucos dias antes de desencarnar, na praia de Sauípe, próxima de Fortaleza, que está marcada e registrada no coração de quem esteve presente.

Com as graças do Bom Deus, tenho a honra de ter sido convidado pelo Mestre Adamir e conselheira Conceição, para ser Padrinho de Natália, a filha mais nova do casal, o que muito me alegra, pois sei o quanto esse gesto vale para mim, até os dias de hoje.

*Mestre Representante do Núcleo Conselheiro Salomão Gabriel, João Pessoa (PB) .

15 respostas
  1. José Roberto da Silva Barbosa
    José Roberto da Silva Barbosa says:

    Minha gratidão amigos pela bela homenagem ao saudoso Mestre Adamir, exemplo de Amor, Humildade e simplicidade, Homem digno Honrado de uma reserva moral incalculável. Tive a honra de conviver praticamente diariamente, com este amigo durante aproximadamente 10 anos em Rio Branco Ac. Muito do que sou hoje, tenho me espelhado nele, muito me honra esta ocupando o lugar de MC que ele ocupou aqui na região. Um abraço fraterno a conselheira Conceição e a todos os seus filhos que tenho verdadeiramente como meus irmãos.

    Do amigo José Roberto
    Mestre Central da 7ª Região.

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  2. Junior F. PARULLA
    Junior F. PARULLA says:

    Por obra da divindade fui levado de Mato Grosso até ceará, onde conheci e reconheci o chá hoasca. Fui acolhido pela familia de Mestre Adamir. Nunca me perguntaram de onde eu vinha nem para onde iria, mas me deram um abrigo e alimento. Eternamente grato a essa familia tão especial para mim.

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  3. Isabel Cavalcante
    Isabel Cavalcante says:

    Muito bom recordar de um discipulo do Mestre que tanto auxiliou e contribuiu para o engrandecimento desta Obra. Mestre Adamir tambem deixou seu nome nesta linda historia, dando seu exemplo de dedicação e inspirando virtudes a serem seguidas!! Valeu Márcio da Rós pela homenagem a esse homem que tinha sempre um sorriso amigo para nos dar!!!

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  4. Gemima
    Gemima says:

    sinto-me bem feliz em conhecer um pouco da história do Mestre Adamir, mestre esse que teve o privilégio de conviver com Mestre Gabriel, onde teve grande importância na origem da União do Vegetal.

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  5. Railda Ribeiro Martins
    Railda Ribeiro Martins says:

    O exemplo e dedicação pela obra do Mestre deixada pelos mestres antigos é uma mola propulsora que nos impulsiona a continuar trabalhando cada vez mais para o crescimento e expansão deste bendito trabalho da UDV.

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  6. Vanessa Weirich Lemos
    Vanessa Weirich Lemos says:

    Bonita história de vida do Mestre Adamir. Plantio de amor nessa divina obra que floresce no coração de quem tem o bom merecimento de sentir.
    Viva o Mestre Adamir e viva o Núcleo Mestre Adamir!

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  7. PATRICK ROZATTI CAMILO
    PATRICK ROZATTI CAMILO says:

    Ainda na boa energia do aniversário do m. Adamir e do Núcleo Mestre Adamir, reconhecendo o grande valor deste bom homem, pacificador, pela sua dedicação a esta grande obra. Sou grato por fazer parte deste Núcleo Mestre Adamir e conhecer um pouco mais da sua história.

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  8. Adriano Roberto do Vale
    Adriano Roberto do Vale says:

    Tive a satisfação de conhecer a nobreza do Mestre Ademir que soube nos lembrar de não esquecermos jamais a nossa origem simples e natural. Bem me lembro quando ele nos doutrinou em sessão para primarmos por nossa cultura cabloca e de nossa origem humilde e trabalhadora, onde o amor e o respeito são valores presentes e fundamentais. Sou grato aos Mestres que dão continuidade ao trabalho do Mestre Gabriel e dos primeiros mestres. E que Deus o conserve na Divina Luz, Mestre Adamir.

    Adriano Roberto do Vale

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  9. Edson Luiz da Silva
    Edson Luiz da Silva says:

    Fico feliz em ler uma história tão bonita e verdadeira de um homem que viveu para a obra. Espero um dia poder ter na minha caminhada na UDV exemplos como esse e poder deixar também para os meus filhos. Grato, mestre Márcio Da Rós.

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  10. AUGUSTO FREIRE
    AUGUSTO FREIRE says:

    Segundo ouvi dele próprio, Mestre Adamir morou também no Rio de Janeiro por um período no Bairro da Glória, quando jovem, depois do serviço militar. Tinha uma Lambretta na qual se deslocava pela cidade para trabalho e lazer, tempos dos quais se recordada com prazer, ele era bem dalegre. Essa conversa se deu durante uma visita de M. Adamir ao Rio de Janeiro, na casa do meu irmão Paulo Tasso. M. Adamir também dirigiu alguns preparos no Núcleo Pupuramanta quando pode transmitir ensinamento preciosos à Direção e Irmandade.

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