Mestre Mourão na União do Vegetal *

**Clóvis Cavalieri Rodrigues de Carvalho

Mestre Pernambuco: um mestre da origem da UDV

Mestre Pernambuco dizia que Mestre Gabriel deu a ele o título de “Mestre Mourão”, que quer dizer: “Posso ser balançado, mas não arrancado”.

Mestre Pernambuco, na década de 40, saiu do nordeste, onde nasceu, na cidade de Limoeiro/PE, em direção ao norte até chegar a Porto Velho. Trabalhou lá por quatro anos. Mais tarde foi para o seringal Guarapari trabalhar como soldado da borracha. Nesse período, encontrou Mestre Gabriel dentro do terreiro de umbanda. Iniciou sua amizade com o Mestre, participando da Confirmação e de toda a sequência dos trabalhos da UDV até o dia do seu desencarnamento.

Mestre Pernambuco teve por companheira a Conselheira Guiomar, uma pessoa simples, humilde, de coração muito bom, com uma história de vida sofrida, de luta e perseverança. Na época em que viveu nos seringais, foi esposa de Chico Lourenço. Quando se mudou para Porto Velho, conviveu com Mestre Gabriel e sua família. Um dia Mestre Gabriel disse: “Pequenina, nós vamos fazer o casamento da Guiomar com o Pernambuco.” E assim aconteceu.

Durante dois anos e oito meses, Mestre Pernambuco morou com alguns filhos em Campo Grande/MS, a meu convite. A Conselheira Guiomar não pôde se mudar porque não conseguiu transferência de trabalho para aquela capital, mas, sempre que podia, ia visitá-los. Iniciamos a DAV na cidade, em fevereiro de 1984. No ano seguinte, passamos a Pré-Núcleo Senhora Santana, muito devido à presença do Mestre Pernambuco.

Ele tinha uma ligação muito forte com a Senhora Santana, inclusive disse que saiu de Porto Velho porque sabia que iria para o Núcleo Senhora Santana, onde foi um dos mestres fundadores, e de lá voltaria a Porto Velho. Ele conta que, ainda quando estavam nos seringais, na época da Recriação da União do Vegetal, Mestre Gabriel fez a chamada Senhora Santana e ele pôde vê-la dentro dos encantos, descrevendo ter visto uma mulher muito bonita, e usou a seguinte expressão: “Eu vi a Santa.” Desde então, ficou ligado com ela.

Praticamente todos os dias eu ia à casa dele para conversarmos e facilitar sua adaptação na nova moradia, principalmente porque éramos poucas pessoas. Diversas vezes nós dois bebemos o Vegetal em sua casa, durante a semana, para conversarmos a respeito da União, dos ensinamentos e de sua vivência com Mestre Gabriel. Uma das coisas importantes que aconteceu na vida dele, naquela época, foi seu processo de alfabetização, em que uma irmã nossa, Conselheira Marisa, que era professora, ensinou-lhe a ler e escrever, realizando sua vontade de não ser considerado um analfabeto.

Naquele tempo, as sessões eram dirigidas por mim ou por ele. Certa vez, num dia de escala, em que eu iria dirigir a sessão, amanheci com um desconforto no meu corpo, uma coisa esquisita. Pensei até que fosse um estado gripal, mas, com o passar das horas, percebi que não era. Deitei à tarde para ver se passava e nada.

Fiquei sem vontade de ir à sessão, coisa rara de sentir. Mas fui assim mesmo e, quando cheguei ao núcleo, disse para ele dirigir a sessão e relatei o que estava sentindo. Bebemos um copo duplo cheio de Vegetal e fiquei aguardando o que iria acontecer. Lá pelas dez horas (22h) eu ainda estava naquele sofrimento, de olhos fechados, quando senti que ele estava olhando para mim. Abri os olhos e realmente ele estava com olhar fixo na minha direção. Assim que o vi, ele fez a chamada “Correr pra Onde Tem Sombra”. Quando terminou a chamada, eu não estava sentindo mais nada daquilo e fiquei bem e tranquilo. Foi marcante aquele momento pela sintonia e sensibilidade do Mestre Pernambuco.

Ele tinha momentos brilhantes dentro da burracheira, de excelente percepção das coisas, demonstrando ser um discípulo fiel do Mestre Gabriel. Uma vez, contou-me que entrou na floresta com Mestre Gabriel e, num determinado momento, o Mestre perguntou-lhe: “Tá sentindo, Pernambuco?” Ele disse que estava ouvindo um som, como uma burracheira zunindo na sua cabeça, e respondeu: “Tô sim, Senhor!” Assim, logo percebeu que estavam num reinado de mariri.

A “Chamada do Tempo”, de autoria dele, foi encaminhada para a comissão de chamadas, que existia na época, composta por cinco mestres do Conselho da Recordação dos Ensinos do Mestre Gabriel (CREMG), em Brasília, e foi aprovada ainda quando ele morava em Campo Grande.

Um dia, cheguei ao terreno do núcleo, onde ele era o zelador, e ele me disse: “Está acontecendo alguma coisa muito séria na União do Vegetal. Não sei o que é, mas coisa boa não é.” Ele não tinha telefone em casa, as informações de outros lugares da União geralmente chegavam por mim ou por alguém que nos visitasse e não tinha acontecido nem uma coisa nem outra. No máximo 48 horas depois, soube de um acontecimento que causou um balanço grande naquele momento, fazendo muitas pessoas sofrerem. Portanto, para mim, essa é mais uma prova da ligação que Mestre Pernambuco tinha com Mestre Gabriel.

Sinto uma alegria de ter tido essas e outras oportunidades na convivência com Mestre Pernambuco e sou grato ao Grande Mestre por me ter dado esse direito de aprender mais alguma coisa de sua doutrina e de sua vida.

Lembranças vivas guardo em meu pensamento, no meu coração e em minha consciência, sabendo que estamos sempre nos reencontrando.

*Artigo publicado originalmente nas agendas 2015 e 2016, produzidas pelo Núcleo Canário Verde (Brasília-DF) e que o Blog da UDV publica emhomenagem a Manoel Severino Felix – o Mestre Pernambuco, que neste 6 de fevereiro de 2016 estaria inteirando 93 anos.  Mestre Pernambuco nasceu no ano de 1923 e desencarnou em 02 de maio de 2001.

**Clóvis Cavalieri Rodrigues de Carvalho é Mestre Geral Representante do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. 

19 respostas
  1. Silas Paixão
    Silas Paixão says:

    Bonita homenagem ao Mestre Pernambuco, pessoa de caráter e de um bom coração. Pude conviver um bom tempo com ele em Porto Velho, aprendi muitos coisas da UDV e da vida. Bons momentos que convivemos na “Escolinha do M. Pernambuco”, ao lado da sua casa, sempre com a presença do seu amigo M. Herculano. Saudades desse amigo.

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  2. Edson Sousa
    Edson Sousa says:

    Muito bom essas declarações do mestre Clovis, eu tive a oportunidade tbm de conviver algumas vezes em preparos de Vegetal aqui em Manaus e conversar com o Mestre Pernambuco sobre os assuntos da UDV e sua Vivência dele com o Mestre Gabriel, guardo comigo como relíquias da riqueza que é a UDV em minha vida.

    Grato ao MGR por estas lembranças.

    Luz, Paz e Amor…

    Edson Sousa(QM Nucleo Tiuaco 2a. Região)

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  3. Leonardo Pauperio
    Leonardo Pauperio says:

    Bonitas palavras de reconhecimento, amizade e respeito pela memória do Mestre Pernambuco. É bom quando a gente tem a oportunidade de conhecer um pouco mais da vida e do trabalho dos mestres antigos, que conviveram com o Mestre Gabriel, e que contribuíram para a construção desta obra divina que é a União do Vegetal.

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  4. José Pinto Rodrigues da Costa
    José Pinto Rodrigues da Costa says:

    Sempre aprendemos nas sessões e fora dela, viva a UDV e ao Mestre Gabriel. Lindo relato, histórias que nos ensinam que a simplicidade é uma chave para conhecermos os encantos e mistérios e a convivermos em harmonia

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  5. Cristina da Luz
    Cristina da Luz says:

    Um relato do coração a respeito de um Mestre que formou muitas pessoas na UDV com seu exemplo e história de vida. Significativo ser um depoimento de nosso Mestre Geral Representante. Que sempre reconheçamos o valor dos que vieram antes de nós! Onde estiver, que Mestre Pernambuco receba o carinho da irmandade da UDV.

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  6. Ilana
    Ilana says:

    Fico grata por cada oportunidade de receber alguma coisa de um tempo que não estive presente. Que o amor do Mestre continue iluminando os primeiros irmãos, saber alguma coisa do m. Pernambuco é alegria e acolhimento, me faz sentir próxima. Grata ao m . Glovis pela consideração e amizade . LPA

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  7. Sandra Maria Soares Meira
    Sandra Maria Soares Meira says:

    Admiro as pessoas que compartilha ensinos e informações ,principalmente assuntos relacionados a UDV,o que o mestre Clóvis Cavalieri,vem fazendo com frequência e sabedoria.
    Abraços fraternos

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  8. Guilherme Alcione Corrêa
    Guilherme Alcione Corrêa says:

    M.Pernambuco era um investigador. Tive a honra de conhecê-lo e aprender algumas coisas com ele quando cheguei em Porto Velho. Jamais vou esquecer o carinho com que ele me tratou e com o qual me cativou. Grato pelas palavras a respeito deste que, pra mim e pra muitas pessoas, é um autêntico discípulo de M.Gabriel. (L.P.A.)

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  9. Adriano Cruz de Oliveira
    Adriano Cruz de Oliveira says:

    Eu ouço alguns acontecimentos com o Mestre Pernambuco, uma pessoa que não cheguei a conhecer porque cheguei há pouco tempo na UDV, mas consigo sentir que ele tem um papel de grande importância para o desenvolvimento da UDV. O reflexo de sua capacidade pode ser sentida hoje – é a forma como posso sentir sua presença.

    Sou grato pela oportunidade de conhecer dessa história.

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  10. Reanto Barbosa
    Reanto Barbosa says:

    Belas palavras a respeito do M.Pernambuco !!! Lembrei-me de alguns bons momentos que tive a oportunidade de estar na casa dele juntamente com a Conselheira Guiomar, tomando café e guardando na memória e no coração relatos, acontecimentos e ensinos, da convivência dos seringais à Porto Velho com o Mestre Gabriel. Boas lembranças !!!

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  11. Janainna Souto Maior de Albuquerque
    Janainna Souto Maior de Albuquerque says:

    Quando em visita à Manaus esteve em casa e eu tive a alegria de passar horas conversando com ele, perguntei algumas coisas e ele me respondeu com clareza, me deu luz em assuntos que estava com a memória presa, um homem amável, simples, lembro quando se foi, a ultima vez que pude ter contato com ele, lhe dei um abraço, e um travesseiro, para ir mais confortável em sua viagem. Homem de bem.

    Janainna Souto Maior de Albuquerque

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