Estudo realizado em Núcleos da UDV comprova que plantio contribui para conservação de florestas

Saulo Miguez*

Imagens: Julien Thévenin.

Pesquisa de doutorado apresentada no mês passado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) mostrou como o plantio de Mariri (Banisteriopsis caapi) e Chacrona (Psychotria viridis), as plantas usadas no preparo do Chá Hoasca, contribui para a conservação das áreas de matas e a recuperação de áreas degradadas na Região Norte do país. O cultivo dessas duas espécies requer um ambiente de floresta para que elas possam se desenvolver, e as técnicas de agrofloresta utilizadas no plantio estão, de acordo com o estudo, auxiliando na preservação da Floresta Amazônica.

Intitulada A Natureza nos Caminhos da Ayahuasca: territorialidade, arranjos institucionais e aspectos fitogeográficos de conservação florestal na Amazônia (Rondônia-Brasil), a tese de doutorado  é de autoria do geógrafo Julien Thévenin, sócio do Corpo Instrutivo e monitor da Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico no Núcleo Encanto das Águas (Ilhéus-BA).

Clique aqui e acesse a tese de doutorado publicada no site da Unesp.

O estudo, que levou quatro anos para ser concluído, foi realizada em 27 Núcleos e áreas de plantio do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, distribuídos em 20 municípios em Rondônia. O Estado, que possui o terceiro maior índice de desmatamento do país, reúne quatro regiões da UDV (1ª, 6ª, 7ª e 15ª). Confira ao final do texto a relação dos Núcleos pesquisados.

A pesquisa foi desenvolvida ainda no Centro Eclético de Correntes da Luz Universal (CECLU), no Centro Espiritualista Jardim do Redentor (CEJAR), na Casa de Iluminação Rainha da Floresta (CIFLOR) e também no Centro de Irradiação Espiritual “Casa de Jesus e Lar de Frei Manoel”. Todas elas são instituições que também fazem uso religioso do Chá Hoasca, totalizando 53 propriedades (24 rurais e 29 urbanas).

Ilhas de floresta

Nos territórios pesquisados, Julien Thévenin chama atenção no estudo para a grande quantidade de áreas reflorestadas. “Em quase todas as propriedades para fins não comerciais, até mesmo as urbanas, estima-se que mais de 5.000 árvores nativas já tenham sido plantadas”, afirma.

Imagens de satélite revelaram que das 24 propriedades rurais destinadas ao plantio das espécies utilizadas no preparo do Chá Hoasca, 96,6% delas estão cobertas por vegetação arbórea nativa em estágio inicial, intermediário ou avançado de regeneração. Dessas, 81,4% encontram-se no estágio avançado, ou seja, árvores com mais de 20m de altura.

“Na paisagem, muitas dessas propriedades se destacam como verdadeiras ilhas de floresta em meio a extensas áreas desmatadas para pastagens”, descreve Thévenin. Ainda, segundo ele, os resultados confirmaram o cumprimento das normas ambientais vigentes nesses territórios.

A pesquisa mostrou ainda que entre as espécies mais presentes estão aquelas que integram a lista dos nove vegetais. Duas delas, Castanheira (Bertholletia excelsa) e Imburana-de-Cheiro (Amburana acreana), estão na “Lista Nacional Oficial de Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção”, classificadas na categoria Vulnerável, e foram encontradas em 63% das 53 propriedades analisadas.

Em áreas rurais, destinadas ao plantio de Mariri e Chacrona, também foram identificadas outras espécies ameaçadas de extinção, tais como Mogno (Swietenia macrophylla) e Cedro (Cedrela odorata). Segundo o pesquisador, a presença dessas árvores aumenta a importância dessas regiões para a conservação florestal. Os resultados desses levantamentos mostraram também índices satisfatórios quanto à conservação da fitodiversidade nessas áreas.

Reconexão com a natureza

Para o presidente da Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico, Teodoro Irigaray, que integrou a banca avaliadora da tese de doutorado, o trabalho desenvolvido por Julien é semente de uma pesquisa maior que vem sendo planejada pela Novo Encanto em conjunto com o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.

Segundo Irigaray, “a atuação socioambiental do Centro, sistematizada no Manual de Boas Práticas ABC (Água, Biodiversidade e Cultura), demonstra que a UDV não apenas tem contribuído com a recuperação e a conservação de áreas florestadas, mas também avançado com bons exemplos de conservação dos recursos hídricos, da biodiversidade e da proteção do patrimônio cultural, oferecendo soluções para os problemas ambientais da atualidade”.

De acordo com o presidente da Novo Encanto, a pesquisa vai ainda além ao demonstrar que o ganho ambiental está associado a um movimento de ressacralização do ambiente natural, presente nas instituições religiosas que desenvolveram novos paradigmas na relação homem/natureza, proporcionando aos seus adeptos uma reconexão com a natureza e o sagrado.

O próprio Julien Thévenin conta que a ligação espiritual que ele vem desenvolvendo com a natureza ao longo da sua caminhada de mais de 13 anos na União do Vegetal foi um dos fatores que o motivou a realizar a pesquisa. Além disso, ele acredita nessa iniciativa como uma semente de um futuro melhor para o planeta.

Cativando a Academia

Thévenin conta que o projeto desenvolvido por ele foi bem aceito na comunidade acadêmica, mesmo entre os doutores que nunca tinham sequer ouvido falar nas religiões hoasqueiras, assim como por todos os membros que compuseram a banca examinadora.

“Eles reconheceram a contribuição científica do trabalho e, principalmente, o potencial dessas religiões para a conservação florestal no Brasil e no Mundo”, disse. A banca examinadora foi composta pelos Professores Doutores Edson Luís Piroli (orientador), José Mariano Caccia Gouveia e Encarnita Salas Martin, da Universidade Estadual Paulista (UNESP); Sueli Angelo Furlan, da Universidade de São Paulo (USP); e Carlos Teodoro José Hugueney Irigaray, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Segundo Thévenin, o trabalho poderá ser expandido para outras regiões onde se encontra o Mariri e a Chacrona em estado nativo. “Propostas como o de estudos fitogeográficos das espécies Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis também estão sendo analisadas, haja vista a necessidade de se conhecer melhor o ambiente florestal de ocorrência natural dessas plantas”, explica.

De acordo com o Diretor do Departamento de Plantio e Meio Ambiente (DPMA) do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, Armínio Pontes, a UDV tem incentivado os sócios a realizarem pesquisas científicas alinhadas com os interesses do Centro na área de plantio do Mariri e da Chacrona. “Estamos trabalhando para incentivar sobretudo nossos jovens cientistas a adotarem linhas de pesquisa com temas que possibilitem ampliarmos ainda mais o conhecimento que já temos a respeito das nossas plantas sagradas”, afirma Armínio.

Segundo ele, estudos como esse são importantes, primeiro porque mostra para a comunidade científica e também para a sociedade o trabalho que a UDV vem realizando de preservação do meio ambiente e, segundo, porque demonstra que os plantadores do Centro estão seguindo as orientações transmitidas pelo DPMA.

Participação dos sócios

Para o pesquisador Julien Thévenin, o respeito às leis ambientais brasileiras e a prática da doutrina ensinada pelo Mestre Gabriel são de grande valia para a preservação ambiental. “Se apenas as leis fossem respeitadas já estaríamos em condições ambientais muito melhores. Assim, vejo que se cada sócio da União do Vegetal seguir os preceitos deixados por seu fundador, ele estará contribuindo para um mundo mais ecologicamente equilibrado”, avalia.

Segundo ele, o plantio de Mariri e Chacrona em sistemas agroflorestais, associado a princípios ecológicos, conduzidos pelo Departamento de Plantio e Meio Ambiente, e em cooperação técnica com a Novo Encanto, permite que cada sócio da UDV possa contribuir com a preservação da natureza.

“Agradeço ao Mestre Gabriel, à Diretoria Geral do Centro, a toda Direção e irmandade do Núcleo Encanto das Águas, dos Núcleos em que estive sócio, e dos 27 Núcleos de Rondônia onde desenvolvi minha pesquisa, pelo apoio, orientações e acolhimento, sempre com respeito e amizade”, expressa Thévenin.

Núcleos visitados

1ª Região

Núcleo Mestre Gabriel, Núcleo Estrela do Norte, Núcleo Mestre Iagora, Núcleo Mestre Bartolomeu, Núcleo Mestre Pernambuco, Núcleo São Miguel, Núcleo Templo de Salomão, Núcleo Caminho do Mestre, Núcleo União das Barquinhas (todos em Porto Velho), Núcleo Erunaiá (Candeias do Jamari), e Núcleo Palmeiral (Guajará-Mirim).

6ª Região

Núcleo Mestre Ramos e Núcleo Luz do Caminho (os dois em Ariquemes), Núcleo Mestre Rubens (Jaru), Núcleo Mestre Hilton (Machadinho d’Oeste), Núcleo Mestre Janico (Ouro Preto D´Oeste), Núcleo Campo Novo (Campo Novo), Núcleo Mestre Nesclar (Buritis), Núcleo Alto Paraíso (Alto Paraíso).

7ª Região

Núcleo Mestre Pojó (Extrema).

15ª Região

Núcleo Estrela Guia (Ji-Paraná), Núcleo Mestre Cícero (Presidente Médici), Núcleo Estrela Oriental (Cacoal), Núcleo Alta Floresta (Alta Floresta d’Oeste), Núcleo Sereno de Luz (Vilhena), Núcleo José Rodrigues Sobrinho (Seringueiras), Núcleo Mestre Manoel Bento (Rolim de Moura).

*Saulo Miguez é integrante do Corpo Instrutivo do Núcleo Estrela da Manhã (Camaçari-BA).

Publicado em 26 de Abril de 2017. 

9 respostas
    • Leonel Graça Generoso Pereira
      Leonel Graça Generoso Pereira says:

      Muito interessante o estudo, demonstrando pela abrangência os ganhos que estamos obtendo no cuidado com a floresta e o reflorestamento nos trabalhos do plantio. Boa opção por sistemas agroflorestais vem sendo coroada de pleno êxito, tanto pelos resultados para o plantio quanto dá conservação do meio ambiente. Desenvolvemos pesquisas com reinados nativos é um caminho natural de evolução de nossos trabalhos.

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  1. Angelita Almeida Passos
    Angelita Almeida Passos says:

    Saulo, como é bom a gente poder acessar leituras que trazem bons conteúdos. Parabéns ao Julien Thévenin e siga em frente divulgando coisas significativas pra vida. Abraços

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  2. KLAUS M PARANAYBA
    KLAUS M PARANAYBA says:

    Sem dúvida, o título da tese de doutorado “A Natureza nos Caminhos da Ayahuasca” mostra muito bem, na consolidação do trabalho, a prosperidade que a presença da Hoasca traz ao Reino Vegetal onde ela é cultivada. Parabéns àqueles que replantaram um oásis no meio das pastagens e parabéns ao Irmão Julien Thévenin pela percepção e declaração de mais essa forma dos benefícios da Hoasca à humanidade.

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  3. Érika Madelaine
    Érika Madelaine says:

    Muito feliz. Esta pesquisa alia o conhecimento científico, a utilidade pública e a beneficência espiritual.
    Que feliz escolha, Julien.
    Prosperidade, força e resistência é o que lhe desejo. Grande abraço nosso aqui de Roraima

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  4. Maria Clara Benício Balthazar da Silveira
    Maria Clara Benício Balthazar da Silveira says:

    Parabéns, Julien, pela escolha do tema da sua tese de doutorado e pelo resultado obtido. Fico feliz em ler uma matéria de grande importância, escrita pelo meu amigo Saulo. Parabéns a todos que vem plantando essa semente de esperança, para um futuro melhor no planeta.

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  5. Nilso Gessé da Costa
    Nilso Gessé da Costa says:

    O pesquisador Ernst Gotsch diz que “o homem pode se reconciliar com a natureza e ser um SER querido em seu lugar”. Estamos plantando floresta, condição para a sustentabilidade e a continuidade deste sagrado trabalho desenvolvido pela UDV. Parabéns por mais esta pesquisa científica.

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  6. Felisberto Tanajura
    Felisberto Tanajura says:

    Muito bom esse artigo! Uma bela oportunidade de trazer ainda mais visibilidade na sociedade, e no meio acadêmico à respeito do tema Meio ambiente, associado com o cultivo do Mariri e da Chacrona! Parabéns ao doutorando e ao belo texto de Saulo!

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