Conselheira Francisca, a primeira professora da UDV

Rodrigo Bomfim Pacheco*

| 16 Agosto 2017

Conselheira Francisca, a primeira professora da UDV | Foto: Isac Pinheiro.

Francisca dos Santos Macedo, a Conselheira Francisca, associada no Núcleo Mestre Gabriel (Porto Velho-RO), nasceu no dia 17 de abril de 1934, em Afonso Pena, hoje Acopiara, no Estado do Ceará. Veio para a Amazônia, acompanhando a família, aos oito anos de idade. A viagem foi a bordo do navio Pará, do Lloyd Brasileiro, a mesma embarcação que trouxe Mestre Gabriel, a quem só conheceu em 7 de maio de 1967, quando bebeu o Vegetal pela primeira vez.

A viagem foi uma aventura, em plena Segunda Guerra Mundial, com perseguição de submarino alemão, a vigilância de aviões aliados e uma epidemia de sarampo a bordo que causou a morte de muitas crianças. Em Belém (PA), passaram para o navio Siqueira Campos e daí até Rondônia, então denominado Território Federal do Guaporé.

Com esforço e muita luta, ela ingressou no Magistério. Quando o Mestre Gabriel veio em definitivo dos seringais estabelecendo-se com a família em Porto Velho, foi convidada por ele para dar aulas de reforço para os filhos, mas a ideia alcançou a vizinhança e 15 crianças passaram a frequentar a Escola 22 de Julho, que funcionava na Sede da União do Vegetal.

Anotações

Em diversos cadernos, com uma letra esmerada, a Conselheira Francisca registrou esta e outras histórias. A seguir, a transcrição das anotações relativas à Escola 22 de Julho, numa homenagem neste ano em que ela comemora 50 anos de União do Vegetal:

Na imagem, algumas das crianças e professoras da Escolinha 22 de Julho | Arquivo: DMC/Sede Geral.

“No ano de 1968 funcionou uma escola na casa de Mestre Gabriel, antiga Sede Geral da União do Vegetal, situada à rua Abunã, nº 1419, bairro Olaria, antigo Território do Guaporé.

Quando cheguei à União do Vegetal, em 07 de maio de 1967, o Mestre Gabriel já sabia que eu e minha irmã Josefa éramos professoras e lecionávamos na Escola Samaritana, do bairro Olaria, na rua Benjamin Constant, onde residíamos. Um dos filhos dele, o Jair, ainda adolescente (tinha entre 14 e 15 anos), era meu aluno no 2º ano primário. A família dele havia chegado do Abunã, rio Mamo, com os filhos menores, que estavam precisando estudar, pois estavam um tanto atrasados nos estudos. Jair auxiliava o pai nos trabalhos da Olaria, fazendo tijolos, e não tinha quase tempo para estudar. As outras crianças eram Jandira, com 11 anos, Carmiro, com 9 anos e Salomão, com 5 anos de idade. O Mestre Gabriel convidou-me a dar aulas de reforço na casa dele, na salinha onde eram realizados os trabalhos, sessões e reuniões.

Foram matriculadas diversas crianças que moravam ali perto, entre elas os meus três filhos, os três da minha irmã, dois da irmã Eulália, Jandira, Carmiro e Salomão. A folha de matrícula constava de mais de 15 crianças. O mestre mandou colocar uma placa na frente da casa onde dizia ‘Escola Particular’.

Organizamos uma festinha no Dia das Crianças com um concurso que elegeria a rainha da escola. Pedimos autorização ao Mestre, que nos disse o seguinte: ‘Se houver concurso na escola vou comprar os votos para minha filha Jandira, ela vai ganhar’. Organizamos a festa na frente da casa, onde fizemos um palanque para a coroação das meninas Jandira, Érica Mendes e Ana Maria, respectivamente rainha, 1ª princesa e 2ª princesa, coroadas com coroas, faixa branca, rosa e azul e vestidos na cor da faixa. Estavam lindas, tiraram fotografias. Mestre Gabriel tirou fotografia com sua filha, muito feliz.

Neste mesmo ano a diretora de Educação e Cultura do Território do Guaporé, Marise Castiel, soube que eu estava lecionando no mariri, como chamavam a seita naquela época, pois não conheciam a União do Vegetal em Porto Velho, então mandou uma comissão de técnicos em educação visitarem a Escola Particular para verificar as condições, com a finalidade de incluí-la na rede escolar de ensino, pois havia grande necessidade de escolas. Eles não acharam boas as condições da escola, devido ao pouco espaço para o recreio, educação física, etc. As crianças ficavam apertadas na sala e no pátio, pois a casa era muito pequena, só havia uma mesa comprida e os bancos ao lado.

As crianças faziam barulho, correndo dentro de casa, batiam nas paredes, subiam nos feixes de mariri, fazendo grande algazarra e perturbando os mestres, que naquela época estavam escrevendo a Convicção do Mestre. A escolinha da União, como era chamada, não teve condições de permanecer e foi preciso desativá-la. Funcionou até dezembro de 1968”.

Conselheira Francisca dos Santos Macedo

Porto Velho, 18 de fevereiro de 1997.

Alunos da Escola 22 de Julho:

Filhos do Mestre Gabriel e Mestre Pequenina: Jandira Gabriel, Carmiro Gabriel e Salomão Gabriel;
Filhos da Conselheira Eulália Castelo: Wilson Vieira da Silva e Suely Maia de Oliveira;
Filhos da Conselheira Francisca: Francisco de Assis Macedo, José Raimundo Macedo e João Bosco Macedo;
Filhos da Josefa (irmã da C. Francisca): Nazaré Miguel de Lima e Joaquim Miguel de Lima;
E mais: Alba Rita Luz, Ademir Luz, Ana Maria Luz, Jarina e Érica Mendes.

*Integrante do Quadro de Mestres do Núcleo Templo de Salomão (Porto Velho-RO,1ª Região) .

20 respostas
  1. Silvia
    Silvia says:

    Pessoa mais linda e mais querida que conheci, um espírito com alto grau de evolução percebido por qualquer pessoa no primeiro contato. Fiquei encantada com a doçura, delicadeza, amorosidade que ela emana…

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  2. Sílvia freire de carvalho
    Sílvia freire de carvalho says:

    Que ótimo! Me emociona a UDV ter esse respeito e consideração por professores, no caso a C. Francisca representa todos que com amor se dedicam ao magistério.

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  3. Miâmisson L. de Souza
    Miâmisson L. de Souza says:

    Ser professora é muito mais do que transmitir o conhecimento.
    É aquela que ensina com dedicação e paciência, é aquela que quebra os nossos galhos, aquela que quando tudo está difícil abre um sorriso e diz: calma, você vai conseguir.
    É agir com simplicidade, com companheirismo, está sempre disposta a ajudar a qualquer hora, enfim todas essas características se resume a C. Francisca.
    Tive a honra de assistir uma sessão dirigida por ela, rica de ensinos e orientações.

    Que o Mestre Gabriel esteja sempre conduzindo seus passos.

    Parabéns por esse trabalho de auxiliar o Mestre!

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  4. José Roberto Acre.
    José Roberto Acre. says:

    Quanta emoção ao ler esse relato, receba meus cumprimentos, Conselheira Francisca, em reconhecimento ao seu trabalho de amor ao próximo.

    Um forte abraços com votos de saúde e vida longa!!

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    • Meije
      Meije says:

      Achei muito lindo este relato da Conselheira Francisca… emocionante! Meus reconhecimentos a uma Mestra da Educação pelo seu trabalho, dedicação e generosidade!!

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  5. Ema Degraf
    Ema Degraf says:

    Que bom poder conhecer um pouco da história da Conselheira Francisca, um belo exemplo de amor ao próximo. Parabéns ao blog e ao DMC pela iniciativa! Que possamos ter mais registros das conselheiras e irmãs que conviveram com o M. Gabriel.

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  6. Evanize de Barros Lima
    Evanize de Barros Lima says:

    Gratidão e alegria é o que sinto por ver na União o reconhecimento pela primeira professora e primeira escola da União, nasceu dentro da casa do nosso Mestre. A essa senhora meu respeito e gratidão. Sou professora também !

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  7. Flávia Rodrigues de Medeiros
    Flávia Rodrigues de Medeiros says:

    Que alegria poder conhecer essa história, um belo exemplo que nos diz da prática simples de uma professora disposta que colocou a mão na massa para atender um pedido de M. Gabriel frente as necessidades de escolarização daquelas crianças .

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  8. Júlio César Teles De Sousa junior
    Júlio César Teles De Sousa junior says:

    Conhecer historias da UDV alem dos relatos dos Mestres de Origem, com personagens que ali viveram , enriquessem mais ainda nossas origens.

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  9. Walter Badaró
    Walter Badaró says:

    Um pequeno recorte de uma grande história, que hoje nos encanta pelo saciar da sede de a conhecer através das lembranças contadas por nossos primeiros irmãos. Preciosidades da nossa União do Vegetal.

    Com certeza ainda é tempo de valorizar e zelar por estas jóias que ainda temos e pela memória dos que já tivemos mais perto.

    Parabéns a equipe do blog pelo bom trabalho quem vem sendo realizado.

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  10. Halysson Nogueira Fraga
    Halysson Nogueira Fraga says:

    Que bom saber mais um bom exemplo do Mestre Gabriel e conhecer as boas histórias dos primeiros irmãos interagindo com o nosso Guia.

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  11. Jairo Santos
    Jairo Santos says:

    Sou grato por este presente da presença no blog da história da Conselheira Francisca que soube enxergar o coração amoroso e iluminado de Mestre Gabriel na simplicidade da sua vida. Que venham mais histórias das mulheres pioneiras da UDV que em todo os lugares são presenças singulares a merecerem nossa gratidão e amizade!

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    • Ibsen Gouvea Bruno
      Ibsen Gouvea Bruno says:

      Emocionante esse relato, que honra conhecer um pouco da história da C. Francisca e seu trabalho de Amor e dedicação pelas crianças, pela educação e pela UDV. Deixo aqui meu reconhecimento e gratidão a essa Senhora tão especial, C. Francisca!

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  12. Flávia Ilíada
    Flávia Ilíada says:

    Importante e bonita matéria trazendo parte da história de nossos primeiros irmãos. Parabéns aos nossos garimpeiros de memórias, que vem nos presenteando com esses tesouros guardados.
    Como disse ao C. Badaró, as vivências nessa escolinha e dessas senhoras também merecem um belo vídeo!
    Faço votos que tenhamos cada vez mais pessoas interessadas e comprometidas com esse trabalho de zelar e trazer essas experiências para nós que já chegamos mais recentemente nessa União.

    Abraços fraternos.

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  13. Almir Nahas
    Almir Nahas says:

    Mais um exemplo de um trabalho que acontece atendendo a uma necessidade e de acordo com a possibilidade do momento! Belo exemplo!! Mais um indicativo para o momento atual!

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