União do Vegetal:
a Oasca e a Religião do Sentir

Revista Planeta - 07/1981


Flamínio Araripe

Patrimônio dos índios da Amazônia peruana, ancestralmente usada pelos incas como religião, a oasca tornou-se conhecida também pelos agricultores da frente seringueira que penetrou naquela região. Do preparado entre o cipó do mariri e a folha da charona renasceu a União do Vegetal, para recordar as vidas passadas e ver o sentido verdadeiro da roda da reencarnação, bem como conhecer a origem e o destino real da natureza e do homem.

Destinada a purificar a humanidade, livrando-a da ilusão, foi criada em 1962 na região amazônica a seita religiosa União do Vegetal - Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. No Território de Rondônia, José Gabriel da Costa, um baiano humilde, de poucas letras, seringueiro, fundou esta religião, que tem sede em Brasília, com 74 unidades administrativas, entre núcleos, pré-núcleos e distribuições autorizadas (dado de junho de 1998).
A União do Vegetal, além de ser uma sociedade legalmente constituída (sem fins lucrativos) com registro nos chamados órgãos competentes, é também um chá dotado de poderes. Este chá, fruto da união de dois vegetais, representa toda a singularidade da seita. É composto do cipó mariri, que dá a força, e da folha da chacrona, que transmite luz. Os discípulos da União do Vegetal bebem-no para ter facilitada a concentração mental e tentar conhecer os mistérios da natureza.
Em 1968 foi conduzida amostragem das duas espécies de cada dessas plantas ao Departamento de Biologia e Fisiologia da Planta, na Universidade de Lausanne, Suíça. Os cientistas Rivier e Lindgren classificaram-nas de banisteriopsis caapi e psycotria viridis. Antropólogos desta expedição constataram seu uso tradicional entre os índios das tribos culina e sharanahua da Amazônia peruana, região que praticamente adota este chá com finalidades medicinais.
Por ser autônoma, a União do Vegetal não tem quaisquer vínculos com outra seita, a do Santo Daime. Mesmo na selva, entre os índios, não são desconhecidos os poderes da ayoasca (no dialeto quíchua) - oasca, o chá misterioso. Apesar de muita gente ter bebido esta substância já sem conhecimento do ritual que lhe é próprio, nem por isso se deixa de respeitar sua força grandiosa. É uma experiência inesquecível sentir a energia deste chá em ação no organismo humano. Ele tem a capacidade de conduzir pessoas sempre no rumo da função religiosa da personalidade. Bebido sem orientação, porém, pode trazer sérias aflições.

Desobstruindo a
sensibilidade real

Distribuída dentro da União do Vegetal, a oasca sempre se conserva nos limites em que cada discípulo pode suportar: no máximo um copo cheio. Pessoas mais avançadas no conhecimento do vegetal se responsabilizam por assistir os discípulos sempre que for realizada uma sessão da União do Vegetal. Existem alguns rituais exclusivos desta seita, criados sob a força deste chá, para ocasiões em que os discípulos dele fazem comunhão.
O vegetal mariri, em união com a chacrona, tem destacadas virtudes medicinais. No interior da pessoa ele age como desobstrutor da sensibilidade real do organismo. Quem o bebe com freqüência vê - e sente - as deficiências de saúde que precisam de tratamento adequado. Ao reconhecer a necessidade de cuidados com o próprio equilíbrio físico, cabe ao discípulo agora reconfortado procurar auxílio para restabelecer o seu bem-estar.
A UDV visa sobretudo transformar o ser humano "no sentido de alcançar as virtudes morais, intelectuais e espirituais, sem distinção de cor, ideologia política, credos religiosos e nacionalidade" . Entre seu ilimitado número de sócios, abriga gente de diversas classes sociais, de engenheiros a pedreiros, jornalistas, médicos, carpinteiros, compositores, professores, arquitetos, etc.
Mestre Gabriel, nascido em 1922 em Feira de Santana, Bahia, e desencarnado em 1971, é o guia espiritual da UDV. Ele bebeu oasca pela primeira vez em 1961, na selva onde trabalhava como seringueiro. Mais 11 pessoas cultivavam então o hábito de procurar conhecer os mistérios da natureza pela via deste instrumento, na região fronteiriça entre Brasil e Bolívia. Auto-intitulavam-se, por isso, Mestres da Curiosidade. Bebiam o chá movidos pela curiosidade de penetrar no universo por ele descortinado. Era apenas isso que os satisfazia.
Num certo dia de 1964, mestre Gabriel teve a idéia de reunir todos aqueles outros da curiosidade para realizar uma sessão. O objetivo era saber quem entre os 12 era na realidade o Superior. Quando foi ingerido o conteúdo do copo, a força de manifestou. Chegava o momento exato de eleger entre eles quem tinha o conhecimento transcendente do vegetal, que pudesse ser o mestre dos mestres dos oasqueiros. Um dos participantes logo se levantou para reconhecer. "O senhor que teve a idéia de fazer esta sessão, é porque é o mestre." Os outros, em seguida, apoiaram a decisão.
A partir dessa data, durante três anos mestre Gabriel comungou a raiz dos conhecimentos da oasca, recordando o papel que a ele cabia desempenhar neste mundo, assim como os que havia realizado em outras vidas. O vegetal tem a dimensão espiritualista de fazer atuar no indivíduo pela recordação as verdades divinas da natureza - de onde veio o ser humano. Tem também o poder de mostrar as coisas como são na realidade espiritual, muito além dos limites da ciência material, da cultura do Ocidente dito cristão.
Quem bebe o vegetal pode reconhecer esta dimensão espiritual da vida e, caso pretenda seguir como discípulo da seita, procurar entrar nesta sintonia. Depende unicamente de determinação da pessoa continuar anos a fio a peleja desta busca. Não é fácil. A imagem própria desta situação é a peneira de furos cada vez mais estreitos: no vegetal, só passa o que for verdadeiro de coração.

Ritual de humildade:
a invocação da força

Neste caminho, o discípulo se amolda pela limpeza da consciência propiciada pelo líquido poderoso, até praticar só aquilo que o coração diz. O oasca dentro do organismo faz com que alguém veja como está se conduzindo na vida. Se for um homem fiel a si mesmo, nada há para temer com o vegetal. No caso de praticar ação vacilada, pode o homem por inconsciência negar seu equilíbrio com a natureza a que pertence. Isso abre brechas na pessoa, tipo de dívidas que o vegetal pode fazer pagar à vista, tudo o que houver para ajustar.
As sessões realizadas quinzenalmente pela União do Vegetal têm quatro horas de duração. Reúnem em torno de comprida mesa com bancos laterais os sócios, todos de camisa verde. O mestre representante tem a sua de cor azul; é quem faz a distribuição do vegetal ou designa alguém para fazê-lo e sentar na cabeceira da mesa para dirigir os trabalhos.
Primeiro recebem os copos os mestres, conselheiros, em seguida os membros do corpo instrutivo e depois os sócios. A hierarquia religiosa da UDV estabelece acima dos mestres - aqueles que melhor obedecem à força da oasca, e conhecem seus mistérios - o mestre representante de cada núcleo. Num grau mais elevado está o representante geral, que fica na sede, em Porto Velho: o Sr. Raimundo Carneiro Braga. Os núcleos são autônomos em questão de organização dos trabalhos locais e subordinados à direção central - democraticamente eleita de dois em dois anos - em ocasiões especiais.
O chá tem sabor amargo, bem suportado por muitos discípulos, que podem um pedaço de laranja, um doce qualquer ou fruta logo após beber o conteúdo do copo. Depois, todos ficam quietos e procuram uma posição confortável para o corpo enquanto a força chega. É como se a sensação da matéria física entrasse em outro referencial onde o espírito comanda a sensibilidade. O relaxamento corporal auxilia o vegetal a circular com facilidade pelo organismo.
Todos procuram se concentrar e assim "receber o que há de vir, preparados para seguir", conforme diz uma chamada da União. Agora, os movimentos (no sentido anti-horário) e palavras pronunciadas no decorrer da sessão devem estar em harmonia com a força manifestada que circula no ambiente. Em perfeita sintonia com essa norma ritual estão as chamadas, espécies de mantras, benditos populares, feitos para trazer a força superior.
Muitas chamadas foram recebidas pelo próprio mestre Gabriel, pelo menos as principais: de abertura de sessão e encerramento. Entre elas - mais de 300 - existem de vários graus de saber espiritual. Umas são feitas só em sessão de mestres; a algumas os conselheiros têm acesso, enquanto outras podem ser feitas em sessão do Corpo Instrutivo.
A sessão do Corpo Instrutivo difere das chamadas sessões de escala - quinzenais, abertas a todos os discípulos - porque seleciona apenas quem já está sabendo que quer seguir na UDV. Cabe ao mestre representante promover para o Corpo Instrutivo todos os que ele perceba dedicados à União, tendo já recebido um grau de conhecimento que o incentiva a querer saber mais. O lugar para aprender - o primeiro degrau, dizem - é este.
Antes de beberem o vegetal, o mestre dirigente da sessão fala aos discípulos: "Que Deus nos guie no caminho da luz, para sempre e sempre, amém Jesus." "Assim seja", respondem, e comungam o precioso líquido.

Entrar nos encantos
da natureza divina

Na abertura da sessão é feita a chamada que possibilita a entrada dos discípulos " nos encantos da natureza divina", onde tudo é luz. A mente quieta dos discípulos é condição para alcançar o mais alto nas revelações obtidas com a experiência. O conhecimento de si, assim como das forças cósmicas, torna-se facilitado ao sentir o efeito do vegetal. É como se tudo ficasse transparente e claro como a luz do chá.
Em seguida, o mestre que dirige a sessão faz a ligação dos discípulos: percorre um por um perguntando se está sentindo a força, se está vendo a luz. A resposta afirmativa se alterna com um "ainda não" ou "estou esperando".
Nunca acontece de serem repetidas as experiências de cada sessão com ninguém. O efeito do chá, também chamado de burracheira (que quer dizer "força estranha"), repercute na medida da receptividade do discípulo. Acontecem casos de pessoas que, mesmo tendo bebido o vegetal até oito vezes ou mais, ainda não tiveram burracheira. Outras, porém, logo da primeira vez entram nos "encantos", têm visões - as mirações extasiantes, com os céus, a luz, mares, os sinais das forças do astral superior.
Segundo um mestre, "a graduação do efeito da burracheira no indivíduo varia, de acordo com o estado da sua mente. É como uma pedra (o chá) que se atira na água (a mente)", diz ele. "Se jogarmos um seixo numa cacheira, não mudará nada do que era antes a torrente. Num rio em correnteza, muda pouco ou quase nada. Mas se for dentro de uma piscina de águas tranqüilas", prossegue, "será mais perceptível acompanhar as transformações sobre a superfície parada". Por analogia, a mente calma recebe melhor a burracheira.
Isto significa que a burracheira não é o momento adequado para esmiuçar com a razão unilateral e especuladora o que está acontecendo. Também não é propriamente a hora certa para manter uma visão preconceituosa das coisas. Os mecanismos do ego, da vaidade, das mágoas, da revolta, do intelecto inflacionado, da presunção orgulhosa, da dispersão e do julgamento dos semelhantes - mostrados à luz do astral -, ficam reduzidos ao que na verdade significam. Aqueles sentimentos negativos s]ao praticamente varridos pelo vegetal.
A força cósmica, vinda da harmonia da natureza, arrasta com um impulso só essas tentativas grosseiras. A pessoa que quer servir a isso como o servo submisso a um deus onipotente não encontra jeito de continuar bebendo o vegetal. Dificilmente suportará o conforto duro que é ver na luz da consciência o resultado dos próprios atos.
É preciso receber a burracheira com a mente quieta, o coração aberto, o pensamento firme, a consciência tranqüila, sob pena de passar por momentos difíceis, conhecidos como cacete. Levar cacete é simplesmente antepor a falta de flexibilidade à manifestação do divino.

Cacete: a limpeza de
corpo e do espírito

O vegetal entra na pessoa como se entrasse numa casa: se encontra o que devia estar na ordem original lá dentro bagunçado pelo próprio dono, ele então sacode o indivíduo para por tudo no lugar certo. Literalmente, balança qualquer um desajeitado.
Mas pode acontecer também de tranqüilizar qualquer pessoa conturbada. Nesse momento, ele se transforma na paz que se instala dentro do coração do discípulo.
Porém, no cacete o discípulo tem explícito convite a reconhecer o que está sendo mostrado para ele. Não há como fugir da consciência. Pode até chegar à expulsão daquilo que não faz bem para o indivíduo. O vômito ocorre nessas circunstâncias, sendo visto como limpeza. Quando acontece, atende a uma necessidade. Nada fica gratuito. Quem passa aperto (leva cacete) tem lá os seus motivos, e tem também atendida uma necessidade de acerto pessoal. Como se diz, "depois da plantação sempre vem a colheita".
No decorrer de cada sessão, tanto os mestres como os conselheiros ficam atentos para interferir apenas nos momentos em que for necessário trazer uma palavra, uma chamada, e mesmo uma música. Nos primeiros anos da criação da UDV, ainda não costumavam tocar músicas em sessão do vegetal. O critério para a escolha do repertório musical baseia-se nas palavras contidas nas letras e, caso seja do gênero instrumental, vale usar apenas as que "chamam força". No tempo certo, uma palavra de ensinamento, uma chamada, ou mesmo a música exata, tem a capacidade de fazer subir a burracheira. A concentração exigida é a mesma para qualquer um desses veículos.
O vegetal tem um poder de transformação comprovado. Verdadeiras mudanças se operar entre as pessoas que continuam comungando este chá. A sensibilidade aumenta e com ela o discernimento para o indivíduo saber o que é bom para si e recusar o que não serve. A exemplo disso, quase ninguém mais da UDV faz uso de bebidas alcoólicas, nem mesmo do fumo. Quanto ao sexo, dizia o mestre Gabriel que era a última coisa que o homem precisa abandonar de todas as coisas da Terra. Quer dizer, nas portas da santidade.
Nesta seita não há preocupação de acreditar em Deus: as pessoas que se plantam em firmeza na burracheira devem ver a realidade divina. Dá-se estreita aproximação com o eterno. Para conhecer as coisas do mundo espiritual, no entanto, é necessário purificar-se de algumas coisas da Terra. Mesmo sendo a Terra puríssima, a natureza, criação de Deus. O homem é o senhor de sua própria consciência e deixa entrar nela apenas o que ele permite.

Sem textos ou
tratados teológicos

Antes do homem ter bem claro de onde veio e para onde vai, tem de saber desapegar-se da sua identificação com as paixões desta vida.
A União do Vegetal deposita enorme confiança na memória do homem. A trajetória inteira de um discípulo aí resume-se na clarificação da memória: nela está contido todo o universo. Deve-se a isso, entre outras coisas, o fato de ser esta seita, desde que foi recriada, desprovida de textos escritos em livros ou tratados teológicos. Os ensinamentos são sempre transmitidos de primeira mão.
O corpo da doutrina da UDV é guardado na memória dos mestres e discípulos, nas chamadas, nos ensinamentos. O único texto escrito da UDV - a exceção da regra - constitui-se de cerca de uma dúzia de folhas datilografadas: os Boletins e Estatutos, que são lidos no início da abertura das sessões.
A transmissão dos ensinamentos dá-se pela via da memória. Memorizar uma chamada, portanto, sem purificação da mente, fica extremamente difícil, por mais inteligente que seja o discípulo. Isso faz com que exista um modo específico de encarar o conhecimento na UDV. Para cada acontecimento existe o momento exato. O saber, portanto, só vem do jeito certo. O acúmulo de informações descosidas fica aqui descartado.
O aprendizado na União do Vegetal transcorre como na natureza, sem dar pulos. Adotar atitude de paciência é o melhor modo de chegar a conhecer os mistérios do vegetal. Não adianta pressa. A humildade de quem reconhece vazia a própria mente de preconceitos, para receber coisas novas, é um passo importante. Daí se pode atingir a firmeza necessária para poder obedecer aos ensinamentos da UDV.

Nos tempos do
rei Salomão

Ao percorrer o caminho de discípulo obediente, está aberta a porta de chegada a um conhecimento maior. Para ilustrar esse parágrafo, eis a recomendação de um mestre durante uma sessão do vegetal. "Eu não quero que acreditem no que eu digo. Mas que cada um procure examinar consigo se é assim mesmo". Ou seja, examinar por si a realidade dos ensinamentos.
Mestre Gabriel é visto não como o criador da União do Vegetal, mas sim recriador. Em tempos remotos de outras vidas de seu espírito encarnado, ele, Gabriel, havia se deparado com o mesmo vegetal. Nas duas vezes ele sempre quis conhecer mais. Até um dia em que recebeu das mãos do rei Salomão a chave da União do Vegetal.
Mestre Gabriel abrange com sua consciência todos os mistérios da criação da União do Vegetal. Atingiu com isso a recordação de todas as vidas passadas e pôde concretizar o que sempre buscou em todas as vidas. Ele alcançou a consciência, assim como o sentido da missão com que veio do poder superior, com o qual acha-se hoje unificado.
Em Porto Velho, trabalhando como dirigente da UDV, mestre Gabriel cuidou com afinco de formar um corpo de mestres capazes de seguir a missão por ele iniciada. São desta geração o mestres geral representante, e muitos mestres representantes, produtos dessa mesma safra. A intenção manifesta de todos eles é dar tudo o que puderem para a continuação da obra de mestre Gabriel.
Novos mestres têm surgido desde que em 1971 faleceu o recriador desta ordem. Bastantes sócios lutam também para subir os degraus de discípulos da UDV, o primeiro no Corpo Instrutivo, o segundo no Corpo do Conselho, o terceiro no Quadro de Mestres, e daí até atingir um dia a consciência clara. E ser mais uma estrela a brilhar em união como Pai Superior.
Isso quando, um dia, merecer estar neste lugar.
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*Reportagem publicada na Revista Planeta, da Editora Três, número 105, edição de junho de 1981.

BOX

A MÚSICA DO LIMPO ASTRAL

Ei, homem de Deus!
Acorda, é tempo ainda,
Esse teu tempo finda,
Faz uma oração.
Este verso Zé Geraldo grita ao cantar O Profeta de Lúcio Barbosa, através da aparelhagem de som da União do Vegetal, durante uma sessão.
A história da música na União do Vegetal é mais recente do que sua criação. Antes havia nas sessões apenas a palavra, e basicamente as chamadas. A radiola de pilha pioneira começou tocando Marinês e duplas caipiras, que são com freqüência permeáveis à sensibilidade religiosa em suas composições. A crendice popular tem bem marcada a presença de Deus e da verdade sem complicações em suas vidas. O que, no ritual da UDV, está agora incorporado. Milionário e Zé Rico conservam isso em Mensagem do Além (Prado-Praense), Todos Têm o Mesmo Fim, de José Rico e Nonô Basílio, e Berço de Deus. Natureza (Sérgio Reis) e Dê Amor a Quem te Ama (Tião Carreiro-José Rico) estão na mesma sintonia com a harmonia cósmica e simples. E, trazendo um ensinamento sobre o cigarro, que quando toca põe no cacete os fumantes ainda renitentes: Ajudando a Medicina, de Gildo Freitas.
Geralmente, uma faixa apenas de cada LP é aproveitada para tocar na UDV: às vezes, mais de uma. A mensagem, o conteúdo, é o que vale. Por exemplo, quase todas as canções do padre Zezinho sobre a vida de Jesus, temas religiosos, são úteis para esse fim. Algumas parecem feitas sob medida: é o caso de Simplesmente (o Bem Verdadeiro), de Paulinho Nogueira. Contém a emoção típica de um discípulo inspirado.
Também Nalva Aguiar fez gravações desta qualidade: Maria da Galiléia, dela mesma e de A. Luiz; assim como a cantora Perla, em O Amor Está no Ar, positiva composição de Vanda-Young-Moreira. Na mesma pista tem sentido rodar Uma Estrela Vai Brilhar, de Ricardo Braga.
Não importa se o disco é classe A, B ou C. Benito de Paula, Nelson Ned, Paulo Leal - Os Peregrinos - podem ser veículos dos mais puros ensinamentos. Mas o gênero instrumental de música eletrônica, de computador - Vangelis, Tomita, Giorgio Moroder (Midnight Express) e Automat - usado pela UDV é ouvido na burracheira bem nas próprias fontes da criação: divinos acordes. Um extraordinário recurso para auxiliar a concentração mental.
Não é qualquer disc-jockey que conhece repertório musical com sensibilidade para saber em que nervo mexe cada canção, como certas pessoas da UDV. Nelas se conserva a capacidade de tocar na hora certa Caetano Veloso: Oração ao Tempo, Lua de São Jorge, Força Estranha (parece feita sob medida); ou Jorge Ben: Jorge de Capadócia, Hermes Trimegisto, Hermes Trimegisto e Sua Celeste Tábua de Esmeralda, Os Alquimistas Estão Chegando e O Filósofo.
A ocasião exata de rodar cada uma dessas músicas se mostra quando o que elas dizem já estiver antes no ar, circulando na sessão. Pode ser Fritificar, da Cor do Som, de estremecer!
Esse critério se aplica também a algumas canções de Raul Seixas: Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás, Tente Outra Vez e Diamante de Mendigo, válidas - e como! - para situações específicas. Guilherme Arantes diz coisas maravilhosas em Êxtase e Hei de Aprender, capazes de ensinar a muitos discípulos que tiverem oportunidade de ouvi-las com atenção na burracheira. Roberto Carlos com sua veia mística tem o mesmo valor: O Homem, Fé, A Montanha, Guerra dos Meninos e Amigo. Em todas essas canções não há uma só palavra desorientada; e, se houver, o conjunto das composições cobre, mostra o sentido mais alto. O bastante.
Significado limpo tem o LP "Recordando o Vale das Crianças", do semi-anônimo grupo As Crianças da Nova Floresta, cujo lado 1 é todo bom. Tanto quanto as quenas, flautas andinas, Dominguinhos e Osvaldinho.








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